TENDENDO Aug 11, 2026 IDOPRESS

'Efeitos especiais' e maratona: como são os bastidores de 'Wicked', fenômeno do teatro musical no país

O voo de Elphaba em 'Wicked' — Foto: João Caldas Filho/Divulgação

Lá pelas tantas,uma briga toma conta da história,e a personagem Elphaba,coitada,deixa o palco. Aos olhos do público,descortina-se apenas mais uma rápida saída da bruxa de pele verde. Mas,para que isso aconteça,Myra Ruiz,a intérprete de uma das protagonistas de “Wicked”,dá largada a uma pequena maratona. Na coxia do teatro,a atriz se desfaz dos vários acessórios no corpo — peruca,corpete,chapéu,vassoura —,desce dois lances de escada,percorre parte da área embaixo do tablado,troca o figurino,sobe outra escada e ressurge diante da plateia,no minuto seguinte,óóóó,deslumbrante e bela,erguida por um alçapão que (ufa!) a reposiciona na ribalta. A mágica funciona. E assim segue o espetáculo,como se nada desse périplo tivesse ocorrido.

— Todos os dias dou uma xingadinha,assim em voz alta,quando chega este momento — confidencia a artista. — Quando entro em cena para cantar as notas mais agudas e malucas,está tudo lindo. O que o público não sabe é o que fiz para chegar lá. Ou eu tropecei na escada,ou uma roupa enroscou na outra... É sempre um Deus nos acuda. Um desespero,todas as noites.

Loucura,loucura,loucura

A engrenagem invisível é o que sustenta o maior fenômeno do teatro brasileiro da última década. De quarta-feira a domingo — até o dia 4 de outubro,na Cidade das Artes Bibi Ferreira,na Barra da Tijuca,na Zona Sudoeste carioca —,314 profissionais,entre elenco,orquestra e equipe técnica,cortam um dobrado para ligar os pontos desta peça superlativa.

Os números impressionam. Ao longo da sessão com duração de três horas — aos sábados e domingos,há apresentações duplas —,35 atores dão vida,pasmem,a 200 personagens,o que exige nada menos do que 117 trocas de peruca. Isso sem falar nas 35 mudanças completas de cenário. Ou nos dois quilômetros de fitas de LED usados no palco. Detalhe: só para transportar esse aparato de São Paulo (onde mais de um milhão de pessoas assistiram à montagem em 2025) ao Rio de Janeiro,foram necessários 16 caminhões. O total da carga? Trinta e oito toneladas.

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Aliás,a própria Cidade das Artes precisou ser adaptada para suportar a montagem. Um contrapiso com grossura de 40 centímetros foi instalado sobre a madeira do teatro para distribuir a robustez dos cenários e preservar o tablado,que precisa ser devolvido exatamente nas mesmas condições em que foi recebido.

A proporção real dessas dimensões quase ilusórias ganha palpabilidade por baixo dos panos. Na última semana,o GLOBO sentiu o peso da rotina de quem atua por trás da superprodução ao acompanhar uma das sessões do espetáculo diretamente do backstage. Trata-se,é verdade,de uma “grande loucura”,como repete praticamente todo e qualquer funcionário,de camareiras a diretores,ao definir o próprio trabalho. Curiosamente,porém,encontra-se uma aparente tranquilidade na porção atrás do palco durante o espetáculo. No ambiente à meia-luz,só é permitido usar roupa escura,para que ninguém corra o risco de se destacar às vistas dos espectadores na penumbra. E fala-se baixo,muito baixo.

Voo e subsolo

Enquanto cenários deslizam por trilhos e atores cruzam corredores e trocam figurinos (dispostos em cadeiras numa ordem precisa),David Brenon rege,sentado,uma espécie de central de comando. Diretor técnico da montagem (ou production stage manager,no jargão em inglês),ele acompanha toda a sessão com os olhos divididos entre um calhamaço encadernado — a partitura completa da peça,marcada com todas as deixas técnicas — e dez monitores que exibem,em tempo real,diferentes ângulos do palco,da plateia e das coxias,além do fosso,onde fica “escondida” a orquestra com 17 músicos.

Está com Brenon a missão de garantir que nada saia do lugar. Dos movimentos quase imperceptíveis às grandes cenas de efeito especial — que incluem entradas de cenário,mudanças de luz,voos e movimentos do elevador no subsolo,instalado especificamente para a produção —,tudo depende de uma ordem disparada pelo profissional por meio de um rádio ou um discreto sistema de sinais luminosos.

— Indico,através de minha partitura e da regência do maestro,em que momento da música os operadores devem acionar seus botões para que ocorra cada efeito desejado — resume Breno. — A atenção tem que ser redobrada.

O momento mais aguardado não escapa,obviamente,da extrema vigília. No instante em que Elphaba levanta voo sobre a plateia,técnicos da empresa americana responsável pela estrutura de aço que suspende a atriz a 12 metros de altura também monitoram,ao vivo e diretamente dos Estados Unidos,o acionamento da geringonça. Se algum equipamento apresentar falha,o alerta é imediato — e tudo para.

Em sequências com os pés no chão,o rigor é tão ou mais elevado. Adaptação de um dos maiores sucessos da Broadway — e que,na retomada da temporada em São Paulo,no último ano,teve investimento estimado em R$ 19 milhões,com dezenas de patrocinadores e logística comparável a shows de astros internacionais —,“Wicked” funciona,na prática,como um quebra-cabeça de incontáveis peças. Para que o arrojo visual e sonoro venham à tona,cada detalhe precisa estar corretamente encaixado,sem espaço para possíveis vacilos. Exemplo: todos os atores entram em cena usando dois microfones. Se um falhar durante o espetáculo,o outro assume imediatamente,sem que a plateia perceba qualquer interrupção.

Em outra passagem marcante da obra,Glinda — a outra protagonista da narrativa,vivida pela atriz Fabi Bang — reaparece completamente transformada em apenas 16 segundos. Nos bastidores,assim que ela sai de cena,um pequeno batalhão se debruça sobre a artista. Camareiras,peruqueiros e técnicos executam uma coreografia ensaiada à exaustão: todos tiram e colocam vestido,peruca,acessórios... São dez mãos que trabalham simultaneamente para que a atriz volte ao centro do tablado com caracterização alguns anos mais jovem na cronologia da trama.

Ninguém nega que já aconteceu de o plano não sair exatamente como previsto. Numa das apresentações,Fabi percebeu,já durante a troca,que havia esquecido parte do figurino da cena seguinte. Sem tempo para voltar atrás,vestiu às pressas a saia de uma colega do elenco,que naquele momento estava fora do palco.

— Foi hilário,porque entrei com uma saia zero compatível com o blazer que estava vestindo. Mas até no erro existe uma magia,sabe? Para o público que repara nesses deslizes,porque assiste à peça repetidas vezes,vira uma história para contar. E aí as pessoas vêm me falar: “Ó,eu fui no dia que a saia não deu certo” — conta Fabi,que passa boa parte do espetáculo usando um vestido de cerca de dez quilos,além de um sapato de salto alto e uma coroa pesada. — Não parece,mas qualquer movimentação muda completamente quando você soma esse peso ao corpo.

DE OZ PARA O BRASIL: O FENÔMENO QUE NÃO PARA DE CRESCER

Inspirado no romance homônimo de Gregory Maguire,“Wicked” revisita o universo de “O mágico de Oz”,do escritor L. Frank Baum,pelo ponto de vista de duas personagens tradicionalmente tratadas como antagonistas: Elphaba,a Bruxa Má do Oeste,e Glinda,a Bruxa Boa. A versão musical estreou na Broadway em 2003 e se tornou um dos maiores sucessos da história do teatro americano,permanecendo em cartaz até hoje.

A febre ganhou novo impulso com a adaptação para o cinema estrelada por Cynthia Erivo e Ariana Grande. O primeiro longa,lançado em 2024,transformou novamente o musical em fenômeno global — a segunda parte chegou às telonas no ano passado.

No Brasil,a história já vinha conquistando uma legião de admiradores desde 2016,quando Myra Ruiz e Fabi Bang assumiram,pela primeira vez,os papéis de Elphaba e Glinda. Uma década depois,a dupla de atrizes — a rigor “atletas”,como ambas brincam ao comentar o ofício extenuante nos palcos — continua à frente da montagem nacional.

A fidelidade dos fãs ajuda a explicar o sucesso. Há espectadores que já assistiram ao espetáculo,acredite,mais de 30 vezes,mesmo pagando ingressos com preços que variam entre R$ 50 e R$ 400. Nas sessões cariocas,não é difícil encontrar duplas vestidas de rosa e verde,reproduzindo as cores das protagonistas.

— Sei que vou ser eternamente lembrada por esse espetáculo,e eu não tenho medo nenhum disso — afirma Myra Ruiz. — Hoje,fui ao shopping,e me abordaram várias vezes para falar do meu trabalho. Isso é muito louco. Não fico deslumbrada,pensando: “Ah,sou famosa.” Não! O que me deslumbra é o fato de eu ser do teatro e as pessoas me reconhecerem... Não sou da novela! É assim que sinto que “Wicked” furou a bolha. Virou,de repente,este sucesso nacional.

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