
Soldados israelenses inspecionam área onde caiu um míssil iraniano na vila de Hares,na Cisjordânia — Foto: Ilia YEFIMOVICH / AFP
O mundo está prestes a entrar em uma terceira era dos mísseis,com a proliferação de armas balísticas convencionais em um ritmo sem precedentes após seu amplo emprego,capaz de transformar o campo de batalha,nas guerras envolvendo Irã e Ucrânia. Os dois conflitos registraram o uso de milhares de mísseis balísticos lançados do ar e da superfície. Somente a República Islâmica disparou cerca de 2 mil desses armamentos desde o início da guerra,em 28 de fevereiro,causando destruição em larga escala na região e reduzindo os estoques de interceptadores,cuja reposição é difícil.
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Os mísseis balísticos produzidos internamente pelo Irã alteraram o rumo do conflito,permitindo que Teerã continuasse na guerra mesmo após o secretário de Defesa dos Estados Unidos,Pete Hegseth,afirmar,em meados de março,que as forças militares iranianas haviam sido destruídas. Cinco meses depois,os mísseis iranianos continuam atingindo alvos na região do Golfo,incluindo um ataque em 17 de julho que matou militares americanos,seguido por uma nova onda de bombardeios noturnos contra forças dos EUA na região.

Irã lança míssil contra alvos dos EUA na Jordânia,Kuwait e Bahrein,segundo vídeo divulgado pela Guarda Revolucionária — Foto: SEPAHNEWS.COM / AFP
Já o uso desses armamentos pela Rússia contra a Ucrânia danificou infraestrutura crítica e provocou uma escassez preocupante de interceptadores PAC-3,da Lockheed Martin,único sistema de que Kiev dispõe para neutralizar esse tipo de ataque.
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Grande parte da atenção,nos dois conflitos,concentrou-se em drones e em armas de ataque mais lentas e baratas,com investimentos em sistemas de defesa voltados principalmente para essas ameaças. No entanto,as guerras demonstraram que o poder dos mísseis balísticos — especialmente os com alcance de mil quilômetros ou mais — permite que até países com forças armadas mais limitadas consigam impor riscos significativos a adversários militarmente superiores.
— Mais Estados agora podem impor custos militares e econômicos significativos a longa distância,dando a um número maior de países novos instrumentos de coerção e obrigando os EUA a repensar desde o posicionamento de suas forças até sua logística — afirma Kelly Grieco,pesquisadora sênior do Stimson Center.
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Os mísseis apareceram pela primeira vez na década de 1940,com as armas V-1 e V-2 desenvolvidas pela Alemanha nazista. Durante a Guerra Fria,houve uma rápida expansão dos arsenais,período em que a maior parte dos mísseis balísticos passou a ser destinada ao transporte de ogivas nucleares. Na fase final desse período,China e Coreia do Norte passaram a investir em grandes arsenais de mísseis balísticos convencionais como forma de manter adversários à distância com baixo custo.

A Coreia do Norte,que detém armas nucleares,testa um novo míssil — Foto: AFP/KCNA VIA KNS
Entre 1988 e 2019,mísseis balísticos com alcance entre 500 e 5.500 quilômetros foram proibidos pelo Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário (INF),firmado entre os EUA e a então União Soviética,posteriormente sucedido pela Rússia.
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Os EUA,porém,retiraram-se do tratado durante o primeiro governo de Donald Trump. O cenário mudou ainda mais após a invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia,em 2022,e acelerou significativamente ao longo do último ano.
A própria Rússia ampliou a produção do míssil balístico Iskander para entre 60 e 70 unidades por mês,segundo o Estado-Maior das Forças Armadas da Ucrânia,superando os níveis registrados antes da guerra. Grupos armados não estatais,como os houthis,no Iêmen,também passaram a utilizar mísseis balísticos em combate.

Imagem de teste de míssil balístico intercontinental (ICBM) russo — Foto: Ministério da Defesa da Federação Russa / AFP
— Os mísseis simplesmente passaram a ser parte normal de qualquer arsenal moderno — observa Jeffrey Lewis,pesquisador sênior da Universidade Stanford. — Os custos diminuíram e a precisão aumentou a tal ponto que não acredito mais que os esforços para conter a proliferação de mísseis façam muito sentido.
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Da Europa à Ásia,países que antes demonstravam pouco interesse por esse tipo de armamento agora correm para não ficar para trás.
Na Ásia,a Coreia do Sul apresentou,no fim de 2024,o míssil balístico Hyunmoo-5,cujo porte sugere alcance de milhares de quilômetros — suficiente para atingir qualquer ponto da Coreia do Norte. O Japão,por sua vez,trabalha no desenvolvimento dos mísseis balísticos Type 25,capazes de transportar um veículo planador hipersônico que permite à ogiva manobrar durante o voo,dificultando sua interceptação.
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Na Europa,seis países lançaram,no fim do ano passado,o programa European Long-Range Strike Approach. Reino Unido,Polônia,Alemanha,Suécia,Itália e França comprometeram-se a desenvolver até 2030 um míssil balístico com alcance mínimo de 2 mil quilômetros. A Otan também prometeu investir US$ 50 bilhões (cerca de R$ 253,5 bilhões) em armas de longo alcance.
A própria Ucrânia vem utilizando há semanas enxames de drones e mísseis de cruzeiro movidos a hélice para atingir alvos em profundidade no território russo. Em julho,Denys Shtilierman,cofundador e engenheiro-chefe da empresa ucraniana de defesa Fire Point,afirmou que a produção em massa de mísseis balísticos desenvolvidos no país começará em breve.

Empresa ucraniana desenvolve míssil balístico capaz de atingir Moscou 'facilmente'; entenda — Foto: Divulgação: Fire Point
O Reino Unido também assinou contratos com diversas empresas para desenvolver seu primeiro míssil balístico em mais de meio século,com o objetivo de reforçar seu próprio arsenal e fornecer o armamento à Ucrânia a partir de 2027.
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Segundo William Alberque,pesquisador do Pacific Forum especializado em questões nucleares,a combinação de drones e mísseis balísticos,em um momento em que muitos exércitos concentram seus investimentos em guerras baseadas em drones,pode criar um perigoso ponto cego nas estratégias de defesa.
— Todos esses países também estão tirando lições sobre defesa antimísseis: o adversário lançará milhares de drones e mísseis baratos para sobrecarregar seus sistemas de defesa,enquanto empregará armamentos mais sofisticados,rápidos e discretos,combinados com mísseis balísticos,para destruir o que restar. Trata-se de uma situação ofensiva e defensiva muito mais complexa do que em qualquer outro momento — destaca.

Parte de um míssil no terreno de uma escola em Pedeul,na Cisjordânia,após uma saraivada iraniana na segunda-feira,23 de março de 2026. Quando o ataque ocorreu,durante a madrugada de segunda-feira,famílias tentavam dormir enquanto se abrigavam na escola — Foto: Avishag Shaar-Yashuv / The New York Times
O míssil americano Precision Strike Missile (PrSM),tem alcance de apenas algumas centenas de quilômetros,mas já foi empregado na guerra contra o Irã. Já a arma hipersônica Dark Eagle,também produzida pela Lockheed e com alcance de milhares de quilômetros,chegou a ser solicitada para uso na região do Golfo,mas nunca foi empregada.
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Washington possui ainda um arsenal muito maior de mísseis de cruzeiro Tomahawk,da Raytheon,e JASSM-ER,da Lockheed Martin. No entanto,a guerra contra o Irã também reduziu esses estoques,enquanto a produção anual permanece limitada.
— Essa nova era não criou exatamente novos dilemas — diz Becca Wasser,responsável pela área de defesa da Bloomberg Economics. — Ela apenas tornou ainda mais evidente problemas que já existiam,como o alto custo da defesa.

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