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‘Não usamos apenas 10% do cérebro. Isso é mito. Usamos 100% dele’, esclarece neurocientista ganhador do Nobel

Edvard Moser — Foto: Geir Mogen Kavli/Institute for Systems Neuroscience

RESUMO

Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você

GERADO EM: 20/07/2026 - 20:21

Edvard Moser no Rio Innovation Week: Uso Completo do Cérebro e Desafios da IA e Redes Sociais

O neurocientista Edvard Moser,Nobel em 2014 por descobrir o "GPS do cérebro",desmistifica a ideia de que usamos apenas 10% do cérebro. Ele afirma que utilizamos 100% dele,destacando a importância do sistema de navegação interno humano. Em agosto,Moser participará do Rio Innovation Week no Brasil. Ele ressalta a relevância da atenção na navegação e o papel das interfaces cérebro-máquina e inteligência artificial,além de alertar sobre o uso excessivo de redes sociais e a importância da educação científica.

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Os avanços proporcionados por pesquisas da neurociência têm ajudado a mapear e compreender como o cérebro humano opera. Uma das mais relevantes é a encabeçada por Edvard Moser,que ganhou o Nobel da Medicina e Fisiologia em 2014. O psicólogo e pesquisador norueguês descobriu,junto à cientista May-Britt Moser e equipe,como funciona o “GPS do cérebro”.

O casal descobriu que a partir das “células de grade” (chamadas originalmente de “grid cells”,no inglês) é formado um sistema que permite ao cérebro humano a capacidade de mapear espaços.

No próximo mês o cientista voltará ao Brasil para participar do Rio Innovation Week (RIW),que acontecerá de 4 a 7 de agosto.

Por que escolheu estudar a nossa navegação interna?

Porque a navegação é um dos aspectos mais fáceis de se estudar,e a razão é que é possível estudar a navegação em ratos e camundongos,e eles são ótimos nisso. Outro detalhe é que eles fazem isso praticamente da mesma maneira que os seres humanos. Isso porque a navegação é tão fundamental que surgiu muito cedo na evolução; sem habilidades de navegação,não seria possível sobreviver.

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Por isso,é possível estudar esse fenômeno em espécies simples. Parte desse trabalho,na verdade,também está sendo realizado atualmente com moscas,pois até mesmo elas possuem um sistema de orientação que,aparentemente,tem pontos em comum com o dos camundongos ou até mesmo dos seres humanos.

As pessoas confiam mais em seus telefones do que em seu próprio cérebro para se orientar nos espaços. Isso pode ser prejudicial?

Sim e não. O nosso “GPS interno” é tão fundamental que ainda o usamos,especialmente nos movendo na nossa casa ou no nosso bairro. Nós ainda precisamos mapear caminhos em relação aos outros e ao nosso destino.

Mas,como tudo,você fica melhor no uso de algo quando treina diversas vezes. Se você apenas usa GPS ou Google Maps para tudo,então você só está se baseando em instruções de terceiros sobre onde andar,onde virar. Com isso,você perde um pouco dessa “especialização”,de conseguir ter um bom senso de direção e espaço sozinho,do qual seu cérebro é capaz sem a ajuda de ferramentas digitais.

Quando caminhamos lado a lado com alguém em quem confiamos,ou que conhecemos muito bem aquele lugar,às vezes não nos lembramos com clareza por onde passamos. O “GPS cerebral” também está ligado a algum tipo de resposta emocional?

Atenção é uma parte importante da navegação. Como você disse,quando andamos com outra pessoa e não prestamos atenção ao nosso redor,se pedirem para andarmos voltando de onde saímos nós podemos ficar perdidos.

Então,isso ilustra que você pode ligar e desligar o seu sistema de navegação até certo ponto. Encontrar o próprio caminho também depende de como você relaciona o seu “mapa de navegação” interno aos objetos,casas e locais. Você precisa estar,de certa forma,prestando atenção ao que vê.

Quando dormimos,o “GPS cerebral” continua ligado?

Sim,ao que parece ele continua ligado. Agora nós conseguimos gravar a atividade de milhares de células e reconstruir quais partes do cérebro estão conectadas a esse “mapa de navegação interno”.

E,eu e minha equipe observamos que existe atividade especialmente no sono REM,aquele em que sonhamos. Essa atividade pode indicar que o “GPS cerebral” está ligado,especialmente no sono REM. Neste estágio,chega a ser uma atividade similar à do período no qual estamos acordados. No sono profundo,por outro lado,é um pouco mais disruptivo. Ele se liga e desliga.

Recentemente,um estudo publicado na revista científica Nature mostrou um paciente com ELA vivendo com um implante cerebral. Veremos ainda mais opções de tecnologias de superfície cerebral para pessoas com doenças crônicas?

Interfaces do cérebro-máquina estão vindo com tudo. Elas estão mais relacionadas a funções sensoriais e motoras. Como visão artificial,audição artificial e braços artificiais.

Quando se trata das partes mais profundas do cérebro relacionadas à memória,cognição ou navegação se torna muito mais desafiador. Não existe um implante que você possa inserir no cérebro e “tomar controle” do sistema de navegação,por exemplo. E talvez isso seja uma boa notícia.

A inteligência artificial (IA) está ganhando cada vez mais espaço na sociedade. Quais são os ganhos e quais as perdas ao usar a IA?

Acho que,assim como muitas outras novas tecnologias,é uma vantagem quando você pode usá-la de forma interativa,como uma ajuda para encontrar informações e também para estruturar o raciocínio. Antes você tinha que ir a uma biblioteca,sabia quais livros consultar e precisava lê-los,e isso levava uma eternidade para juntar todas as peças. Agora você pode,deixar a IA reunir tudo isso para você.

Mas,ainda acho que,embora seja possível realizar tarefas bastante complexas e fazer com que a inteligência artificial realize coisas complexas de forma rápida,o pensamento humano ainda se beneficia do fato de termos décadas de experiência,durante as quais,em princípio,registramos cada segundo de nossa vida,armazenamos essas informações em nossos cérebros e as contextualizamos.

Então,essa experiência ainda é difícil de substituir. Acho que,quando usadas juntas,podem ser um ganho.

A perda está nisso ser feito sem um controle ou ética. É uma preocupação que todos nós precisamos levar a sério e que vai muito além da ciência. Isso se aplica a toda a nossa sociedade,e precisamos garantir que a IA seja utilizada de forma controlada,de modo a beneficiar nossa sociedade,e não seja usada contra ela ou apenas em benefício de determinados grupos.

Nas redes sociais,as pessoas passam horas rolando a tela para ver vídeos e fotos. Como lidar com as redes sociais de maneira saudável para o nosso cérebro? Existe uma maneira?

Fica apenas rolando a tela por horas,o famoso “scrolling”,não é saudável. Precisamos,claro,levar em conta que as redes podem nos aproximar de pessoas queridas,mas é também essencial garantir que continuemos interagindo diretamente com as pessoas,que nos movimentemos e que não fiquemos sentados o tempo todo.

Também acho muito importante dar ênfase à formação científica da população em geral,para que as pessoas saibam como o conhecimento é produzido e em que se pode confiar e em que não se pode confiar.

Agora,com a IA,é possível criar até mesmo vídeos totalmente falsos,e as pessoas precisam ser mais críticas e não simplesmente aceitar tudo como verdade. Além disso,de modo geral,eu diria que é muito importante que os cientistas falem sobre ciência sempre que puderem,e isso inclui também as redes sociais.

No tema das informações falsas,como neurocientista,qual é o mito sobre o cérebro que mais te irrita?

Tem um ditado popular que diz que a gente usa só 10% do nosso cérebro. Isso é completamente errado,porque o cérebro inteiro está ativo o tempo todo. Ele tem uma capacidade de uso enorme e sempre terá espaço para mais informações.

Por alguma razão,essa ideia falsa dos 10% se consolidou e é citada por outras pessoas,que,por sua vez,a citam novamente,e assim por diante.

Em um mundo que nos distrai o tempo todo,como fazemos para guardar informações?

O primeiro passo,o básico,é que para reter uma informação você precisa entendê-la. É assim que o cérebro funciona. Para entendê-la,você pode dar um significado a ela. Tente pensar em maneiras de associá-la a outras coisas que você já lembra com facilidade.

Qual área de pesquisa em neurociência será a próxima grande novidade na próxima década?

É sempre muito difícil prever o que vem por aí. Mas acho que o que está acontecendo agora é que estamos começando a entender muito melhor como as funções cerebrais superiores funcionam. Então,isso significa compreender todos os principais mecanismos da cognição,ou seja,o pensamento,o planejamento,a tomada de decisões,a linguagem e a orientação espacial.

Agora estamos começando a entender como elas funcionam,mas é claro que ainda estamos apenas no começo,devido à enorme complexidade do nosso cérebro que está por trás disso. Portanto,acho que essa será uma das áreas que terão um longo avanço na próxima década.

E como você aconselha as pessoas a manterem um cérebro saudável?

Existem diversos fatores que mantêm um cérebro em sua forma saudável. Em primeiro lugar,o estilo de vida em geral. O que é saudável para o corpo também é saudável para o cérebro. Isso significa,portanto,alimentar-se de forma saudável,praticar exercícios físicos regularmente e manter a pressão arterial sob controle.

As funções intelectuais e cognitivas dependem de um estímulo contínuo de leitura e aprendizado. Também é indicado variar a rotina,experimentar coisas diferentes e fazer as coisas que você gosta. Isso pode incluir ter amigos e praticar mais de um passatempo. Tudo isso ajuda a proteger o cérebro da solidão,o que pode causar depressão,e sacia a necessidade humana que todos temos de conexão social.

Anos após o Prêmio Nobel,qual é o foco da sua pesquisa atualmente?

Nós estamos indo cada vez mais a fundo no mesmo tema. Desde então,temos trabalhado de forma pesada para entender como centenas,e até milhares,de células trabalham juntas para formar um mapa. Deixamos de estudar uma célula por vez para tentar compreender o todo.

Anteriormente,não seria possível fazer o que fazemos hoje porque não tínhamos a tecnologia que permitisse isso. Ao mesmo tempo,eu também não diria que é apenas sobre ir a fundo em uma coisa só,porque usamos o que descobrimos sobre esse senso de espaço para extrair princípios fundamentais de outras funções do cérebro,como,por exemplo,a maneira que ele guarda informações ou planeja ações.

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