
Christopher Nolan levou o Oscar de melhor diretor por 'Oppenheimer' — Foto: AFP
O diretor lança em julho "A Odisseia",um épico de três horas filmado inteiramente em IMAX. A produção utilizou efeitos práticos e foi gravada em seis países. Nolan revela que planeja seus roteiros de forma matemática,usando diagramas complexos. Para ele,trazer propostas inovadoras ao cinema é uma forma de atenuar os riscos comerciais. Como presidente do sindicato de diretores americanos,o cineasta busca incentivos fiscais para combater o desemprego na TV. Ele também defende o uso contínuo da película analógica. O Irineu é a iniciativa do GLOBO para oferecer aplicações de inteligência artificial aos leitores. Toda a produção de conteúdo com o uso do Irineu é supervisionada por jornalistas.
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Christopher Nolan admite estar ansioso. "Os nervos ficam à flor da pele",diz o roteirista e diretor sobre o período que antecede a estreia de um filme.
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— Você trabalha naquilo por muito tempo,se dedica profundamente,mas os filmes pertencem ao público. Então,tudo depende da perspectiva de quem assiste — afirmou.
Esse sentimento está particularmente intenso nas semanas que antecedem a estreia de "A Odisseia",em 16 de julho. O mais recente blockbuster do cineasta vem na sequência do sucesso de "Oppenheimer",a cinebiografia de 2023 que conquistou uma série de Oscars.

Matt Damon,Will Yun Lee,e Himesh Patel em "A Odisseia" (2026) — Foto: Divulgação
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— Foi um empreendimento enorme,sem dúvida — disse Nolan sobre a tarefa de levar para as telas o poema monumental de Homero. — Acho que só agora me senti pronto para assumir esse filme.
Primeiro longa-metragem comercial filmado inteiramente em IMAX,"A Odisseia" é um épico de três horas de um tipo raramente produzido hoje em dia. Foi rodado em seis países com um elenco e equipe de milhares de pessoas e utilizando efeitos práticos em vez de depender totalmente da computação gráfica (CGI).
O filme traz colaboradores frequentes de Nolan,como Matt Damon no papel de Odisseu e Anne Hathaway como sua esposa,Penélope. Entre os nomes novos estão Tom Holland como o filho do casal,John Leguizamo como um guardador de porcos cego e o rapper Travis Scott como um bardo. Nos EUA,os ingressos para as sessões em IMAX começaram a se esgotar quase um ano antes da estreia.

Tom Holland será filho de Odisseu e Penélope em 'A Odisseia' (2026) — Foto: Divulgação
— Eu queria fazer um filme muito acessível — diz Nolan,que completará 56 anos em julho.
No entanto,os desafios eram imensos e exigiram inovações em engenharia e coreografia. Para Nolan e seu diretor de fotografia,Hoyte van Hoytema,a IMAX inventou um sistema de isolamento acústico para acomodar e manusear a enorme (e extremamente barulhenta) câmera. A equipe usava espelhos para se enxergar ao redor do equipamento.
— Na metade das filmagens,Hoyte e eu olhamos um para o outro e percebemos: 'É,isso vai dar certo — contou o cineasta.
Numa entrevista recente no escritório de seu assessor de imprensa no bairro do SoHo,Nolan lançou um olhar de soslaio para as estantes de livros organizadas por cores. Sua coleção em casa,segundo ele,é uma "bagunça de verdade",alimentada principalmente por sua esposa e namorada desde a época da faculdade,Emma Thomas — que também é sua produtora de longa data e mãe de seus quatro filhos.

Christopher Nolan e Emma Thomas no almoço dos indicados ao Oscar 2024 — Foto: Mike Baker / ©A.M.P.A.S.
— Para cada livro que eu leio,ela lê cinco. Quem dera eu conseguisse ler tão rápido.
Para desenvolver "A Odisseia",disse ter lido mais traduções do que gostaria de lembrar e percebeu que "é o texto primordial"

'A Odisseia' (2026) — Foto: Divulgação
—Está presente em tudo o que fiz antes.
Com a reputação de ser um dos grandes puristas do cinema,ele pode transmitir uma aura intimidadora. Mas,pessoalmente,mostrou-se cordial,dedicando um tempo extra à conversa enquanto bebia chá de uma garrafa térmica que ele mesmo reabastecia,pontuando seus pensamentos. A seguir,trechos editados da nossa conversa.
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Quantas versões do roteiro escreveu?
Não costumo escrever muitas versões. Costumo pensar em termos geométricos,matemáticos. Faço muitos diagramas,muitos rabiscos e desenhos durante meses a fio antes de me permitir escrever. Depois,o que suponho ser irônico para alguém associado a abordagens não lineares,escrevo de forma muito direta. Começo na página 1 e sigo em frente.
Criava mundos imaginários quando era criança?
Com certeza,passava muito tempo usando a imaginação. Sempre adorei esse aspecto do cinema,os filmes que levam você a um lugar completamente diferente. O primeiro “Guerra nas Estrelas”,de George Lucas... acho que vi umas 12 vezes no cinema quando era criança. Para mim,aquilo representava a própria essência dessa mídia: criar um mundo inteiro que você consegue compreender e habitar,um mundo absolutamente diferente do cotidiano. Essa é a grande alegria do cinema.
Outros cineastas pedem dicas sobre como fazer a tecnologia IMAX funcionar?
O Ryan (Coogler) me ligou antes de decidir usar IMAX (em “Pecadores”). Acho que a primeira vez que o levei para assistir a uma projeção em película original IMAX foi com “Dunkirk” (2017). Adoro mostrar aos cineastas o potencial do formato. Ele me ligou quando estava na fase de preparação. Mas,na verdade,acho que ele precisava ouvir de alguém que não era loucura filmar seu longa de vampiros daquela forma. Eu disse: “Não,eu adoraria ver isso.”
Quais filmes você viu como fonte de inspiração?
“Andrei Rublev” (1966),de Tarkovsky,causou uma grande impressão na equipe; as texturas são realmente notáveis. Um dos filmes que exibi meio que por instinto,sem saber ao certo se seria relevante,foi “Ran” (1985),de Kurosawa. A filmagem é bem diferente,mas existe uma relação ali entre o ambiente e o vento. Agora,ao ver o nosso filme pronto,acho que ele exerceu uma influência enorme.
Seus produtores descrevem você como alguém responsável e avesso a riscos. No entanto,na tela você dá esses saltos enormes.
Acho que sua pergunta diz respeito mais ao risco criativo. Quem realmente se interessa por cinema e pela história do cinema percebe claramente que é preciso correr riscos para ter sucesso. O maior risco de todos é optar pelo caminho seguro. É isso que,invariavelmente,não funciona no cinema comercial. O público busca algo novo. O que quero dizer é que não vejo essa busca como algo arriscado. Lembro de uma conversa com a Emma,quando mostrei pela primeira vez o roteiro de “Amnésia” (o filme que lançou Nolan ao estrelato,em 2000),com aquela estrutura de trás para frente e tudo o mais. Ela reagiu bem ao roteiro,mas sentiu que envolvia muitos riscos — um grande peso. E disse a ela: “Não,eu consigo fazer isso”. Há muitos cineastas capazes de fazer filmes de uma maneira mais convencional. Na verdade,trazer algo novo atenua o risco,permite que você se diferencie.
Ao assistir ao filme,refleti muito sobre as origens clássicas da hospitalidade — ou a 'Lei de Zeus',na história — e como ela funciona em nossa era atual e dividida.
A grandeza do poema é tamanha que você encara esses elementos como algo estranho e antigo,mas,à medida que explora essas ideias,elas se tornam incrivelmente relevantes. A lei de Zeus é,a Regra de Ouro: tratar o outro como você gostaria de ser tratado.
Existe alguma lição moral que você gostaria que o público percebesse? Especialmente ao apresentar a obra como um grande filme comercial.
Com certeza,100%. Mas não quero verbalizar. Quero que as pessoas vivenciem através do filme. Tenho sentimentos fortes sobre a história em termos éticos. Espero que o público tenha essa mesma sensação que tive.
Mudando para as tensões reais do seu setor. Você foi eleito presidente do Directors Guild of America (DGA). Qual é sua principal missão?
Ajudar os membros do DGA — diretores,assistentes de direção,gerentes de produção de unidade e gerentes de palco. A maioria deles trabalha na televisão. E não é apenas um momento de retração; a produção televisiva atingiu o auge em 2016. É uma retração que já dura bastante tempo. Nós,diretores de séries de TV,estamos lidando com um índice de desemprego de 50% neste momento. É algo aterrador. O que realmente precisamos é de um incentivo fiscal federal. E minha intenção é tentar envolver os estúdios e fazer lobby nesse sentido,sob uma perspectiva de negócios. Precisamos trazer a produção de volta para os Estados Unidos. Isso é muito,muito importante.
Você não usa smartphones. Considera-se tecnófobo?
Não. Eu me considero um cético em relação à tecnologia. O motivo pelo qual ainda filmo em película é que ela representa melhor como o olho humano vê o mundo do que qualquer sistema de imagem digital que eu já tenha visto — e analisei todos eles com muita atenção. A cor analógica é diferente da cor digital; portanto,para mim,o importante é ter a opção de escolha. Mas sempre editei meus filmes digitalmente. Usamos,sem dúvida,computação gráfica como parte do nosso fluxo de trabalho de efeitos visuais. Eu adoto novas tecnologias o tempo todo,mas elas costumam ser vendidas às pessoas em detrimento de sistemas que ainda podem ser válidos e viáveis. Foi isso que vi no meu setor: jogar fora o bebê com a água do banho. Quase perdemos a película!

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