
Cães podem apresentar mudanças de comportamento em dias de calor intenso,e estudos sugerem que altas temperaturas também podem afetar funções cognitivas e aumentar a irritabilidade em algumas situações — Foto: Jônatas Levi/Agência O Globo
GERADO EM: 24/06/2026 - 11:23
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As ondas de calor provocadas pelo aumento das temperaturas globais podem estar afetando muito mais do que o comportamento físico dos animais. Evidências reunidas em uma análise publicada pela Scientific American,com base em pesquisas recentes,indicam que o calor intenso compromete funções cerebrais essenciais,dificultando o aprendizado,reduzindo a capacidade de reagir a ameaças e até aumentando episódios de agressividade em diferentes espécies.
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Os efeitos foram observados em aves,mamíferos e insetos. Em um experimento realizado na África do Sul,por exemplo,fêmeas do tordo-de-asa-branca-do-sul apresentaram pior desempenho em tarefas simples de resolução de problemas durante dias mais quentes. Enquanto em temperaturas amenas elas rapidamente aprendiam a contornar uma barreira para alcançar alimento,sob calor intenso insistiam repetidamente na estratégia errada.


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Projeto Uma só Saúde na Ilha Furtada tenta resgatar centenas de gatos que vivem na chamada Ilha dos Gatos — Foto: Custodio Coimbra / Agência O Globo


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Outro teste mostrou que essas aves precisavam do dobro de tentativas para associar corretamente uma tampa específica a uma recompensa alimentar durante ondas de calor. Resultados semelhantes apareceram em estudos com tentilhões-zebra australianos,que tiveram dificuldade para encontrar uma saída simples para obter uma larva,e com guppies machos,que passaram a errar percursos em labirintos mesmo quando a recompensa era encontrar uma fêmea para reprodução.
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Segundo pesquisadores envolvidos nesses trabalhos,o comprometimento cognitivo pode representar uma ameaça direta à sobrevivência das espécies. Animais que demoram mais para localizar alimento,deixam de reconhecer predadores ou perdem a capacidade de aprender novas estratégias ficam mais vulneráveis em ambientes já pressionados pelas mudanças climáticas.
As pesquisas também sugerem que o calor favorece comportamentos agressivos. Um levantamento publicado em 2023,com quase 70 mil registros de mordidas de cães em oito cidades dos Estados Unidos,constatou que os ataques eram mais frequentes em dias quentes e ensolarados. Os autores ponderam,no entanto,que ainda não é possível determinar se a mudança ocorre apenas nos animais ou se pessoas mais estressadas pelo calor também contribuem para aumentar os incidentes.
Fenômeno semelhante foi observado em outras espécies. Camurças monitoradas nos Apeninos italianos passaram a disputar alimento com maior intensidade quando as temperaturas aumentaram e a vegetação ficou mais escassa. Já pequenos peixes tropicais conhecidos como julies douradas exibiram reações mais agressivas diante do próprio reflexo quando mantidos em água aquecida.
Insetos polinizadores também podem sofrer impactos importantes. Em experimentos conduzidos na Suécia,a maioria dos abelhões conseguiu aprender a relacionar cores específicas a recompensas alimentares quando mantida a 25°C. A 32°C,porém,menos da metade demonstrou o mesmo desempenho,levantando preocupações sobre possíveis efeitos na polinização de culturas agrícolas e plantas silvestres.
Outra consequência observada é a perda de vigilância diante de predadores. Em testes no Deserto do Kalahari,aves submetidas a temperaturas próximas de 35,5°C deixaram de diferenciar adequadamente um carnívoro empalhado de um objeto inofensivo de tamanho semelhante,reagindo de maneira praticamente idêntica às duas situações.
Os cientistas acreditam que esse tipo de alteração comportamental pode reduzir as chances de sobrevivência em ambientes naturais,especialmente porque muitas espécies dependem de decisões rápidas para escapar de ataques ou encontrar recursos limitados.
Embora os mecanismos variem entre os grupos de animais,pesquisadores apontam que o aquecimento do cérebro pode prejudicar o funcionamento das células nervosas,afetando memória,aprendizado e percepção. O problema tende a ser ainda mais intenso em espécies que não conseguem regular a própria temperatura corporal,como peixes e insetos.
Os impactos podem se tornar mais relevantes à medida que eventos extremos se tornam mais frequentes e prolongados. Regiões como o Deserto do Kalahari e rios tropicais já registram aquecimento acelerado,enquanto áreas urbanas frequentemente apresentam temperaturas superiores às do entorno devido ao efeito de ilha de calor.
Para os autores dos estudos,compreender como o calor afeta a cognição animal será essencial para prever os impactos das mudanças climáticas sobre ecossistemas inteiros. Se polinizadores deixarem de localizar flores,aves tiverem dificuldade para alimentar seus filhotes ou presas não reconhecerem predadores com eficiência,as consequências podem se estender muito além de uma única espécie.
A avaliação dos pesquisadores é que os efeitos do calor extremo sobre o cérebro dos animais ainda são subestimados e podem representar um dos desafios menos visíveis — mas potencialmente mais importantes — da adaptação da fauna a um planeta em aquecimento.

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