
No Aeroporto de Jacarepaguá,que é cercado de prédios,helicópteros sobem e descem a todo instante: foram 7.903 pousos e decolagens em maio,uma média de 255 por dia — Foto: Fabiano Rocha / Agência O Globo
GERADO EM: 15/06/2026 - 22:49
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No prédio de oito andares em frente ao pátio de veículos onde dois helicópteros caíram,anteontem,no Recreio dos Bandeirantes,Zona Sudoeste do Rio,as marcas da destruição ainda podiam ser vistas em uma das varandas,que teve os vidros quebrados por destroços. Entre os moradores do bairro e da vizinha Barra da Tijuca,a sensação é que se trata de uma tragédia — na qual seis pessoas que estavam a bordo morreram — anunciada. Há tempos existe a preocupação com a escalada do tráfego desse tipo de aeronave na região,acompanhada por relatos de voos a baixas altitudes e do incômodo causado pelo barulho constante.
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Olhando os números,dá para entender: o Aeroporto de Jacarepaguá é,de longe,o mais movimentado do país na modalidade — e só na área entre a Joatinga e Guaratiba existem sete helipontos privados registrados. De acordo com o Relatório Comparativo da Aviação Geral divulgado em maio pelo Departamento de Controle do Espaço Aéreo (Decea),o número de pousos e decolagens de helicópteros do aeroporto da Zona Sudoeste chegou a 7.903,o equivalente a 29% do total no Brasil.
Na comparação com maio de 2025,por exemplo,isso representa um aumento de 15,9%. Na segunda posição aparece o Aeroporto Campo de Marte,em São Paulo,com 2.642. Os três seguintes da lista também são do Rio: Heliporto Farol de São Thomé,em Campos (2.539),e os aeroportos de Macaé (2.101) e Maricá (1.414).
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Os totais dos últimos três anos também são superlativos e mostram a tendência de crescimento do fluxo em Jacarepaguá: em 2023 foram 63.203 pousos e decolagens de helicópteros por lá; em 2024 variou pouco,para 64.366,e em 2025 houve um salto para 87.815. Os números são turbinados pelos grandes helicópteros que usam o aeroporto como base para atender a empresas do setor offshore,o que justifica também o grande fluxo nas outras cidades fluminenses da lista.
O fato é que o tráfego desses aparelhos,somado ao das aeronaves menores que decolam da Barra e do Recreio para voos panorâmicos pela orla e por cartões-postais da cidade,além das viagens para destinos turísticos como a Costa Verde e a Região dos Lagos e dos deslocamentos de executivos,ajuda a reforçar a percepção de que o espaço aéreo carioca está congestionado.
Outro levantamento do Decea revela que 34% dos voos monitorados no Aeroporto de Jacarepaguá descumprem as regras de altitude mínima estabelecidas para a região. Os dados foram apresentados no mês passado,durante uma reunião com moradores na Barra da Tijuca. As informações reforçam as reclamações sobre a poluição sonora,impactos na qualidade de vida e receio de acidentes que atinjam áreas habitadas.
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Os deputados Claudio Caiado e Hugo Leal,ambos do PSD,além de representantes da NAV Brasil,estatal prestadora de serviços de navegação aérea,e da PAX,participaram da reunião. Segundo os parlamentares,o Decea explicou que os números foram obtidos a partir de equipamentos de monitoramento instalados no aeroporto há cerca de um ano,capazes de registrar em tempo real a rota,a altitude e o comportamento das aeronaves. Outra reunião sobre o tema está agendada para o próximo dia 22.
— Há vários anos,a Câmara Comunitária vem questionando esses voos sobre a Barra,principalmente das grandes aeronaves. Na próxima reunião,vamos discutir por que não foram tomadas providências e multadas as aeronaves que desrespeitaram os limites de altitude. Portanto,esta era uma tragédia anunciada — afirmou Delair Dumbrosck,presidente da Câmara Comunitária da Barra.
Em nota,a PAX Aeroportos,que administra o terminal de Jacarepaguá,diz que assumiu a gestão em maio de 2023 e empreendeu obras de modernização no local. A concessionária atribui o aumento de movimento à “retomada da economia (...) e de atividades de exploração de petróleo em alto mar” e ao “aquecimento do turismo” no Rio.

Veja novas imagens do acidente entre dois helicópteros
Ontem,a Polícia Civil recebeu novas imagens da colisão entre os dois helicópteros. As imagens foram captadas por câmeras da Civitas,da prefeitura do Rio,e mostram as duas aeronaves caindo às 8h57. O delegado Alan Luxardo,da 42ª DP (Recreio) ouviu três pessoas sobre o acidente,entre elas os proprietários das aeronaves. A polícia apura se houve falha técnica ou humana. Luxardo informou que a investigação vai verificar se,antes do choque,houve alguma comunicação entre os dois pilotos. O Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) também investiga o caso.
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O tráfego de helicópteros no Rio acontece em corredores pré-definidos e a manutenção da distância de outras aeronaves,a cargo dos pilotos,é feita de forma visual. Além disso,todos que trafegam na região devem estar sintonizados numa mesma frequência de rádio e avisar aos demais qual o prefixo da aeronave,a direção e a altura na qual se desloca,bem como a realização de qualquer manobra que mude sua direção. Outro ponto é o uso de transponder — aparelho capaz de identificar a presença de outra aeronave em rota — que não é obrigatório para os helicópteros. Em São Paulo,o tráfego é acompanhado por controladores em solo.
A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) investigou os dois helicópteros envolvidos no acidente de domingo por suspeita de transporte aéreo clandestino (Taca). No ano passado,o órgão recebeu uma denúncia anônima afirmando que a aeronave PP-MAC,onde viajavam cinco das vítimas,estaria prestando serviço de táxi aéreo,apesar de não ter licença. Ainda de acordo com o documento,a aeronave operava com “manutenção vencida e diário de bordo com lançamento inconsistente de horas totais voadas”.
A agência instaurou um procedimento para apurar a denúncia e multou a proprietária do helicóptero,a Turfik Comércio de Frutas Ltda,por “recusa de exibição de livros,documentos contábeis,informações ou estatísticas aos agentes da fiscalização”. A infração foi aplicada porque a empresa não cumpriu o prazo estabelecido para encaminhar os documentos solicitados.
Além disso,a Anac recomendou que a aeronave e o Aeroporto de Jacarepaguá (SBJR) fossem incluídos no plano de fiscalização presencial. A agência não informou como o caso foi concluído.
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A outra aeronave envolvida no acidente,de prefixo PR-DJJ,também estava no radar da Anac sob suspeita de realizar serviço de táxi aéreo. Em fevereiro deste ano,a Anac registrou que a aeronave poderia estar fazendo o transporte aéreo clandestino. Segundo um relatório,a suspeita teve origem na movimentação observada no Heliponto da Lagoa nos dias 13,15,18 e 19 daquele mês,durante a Operação Voe Seguro. Diante dos indícios,a agência recomendou o monitoramento da aeronave.
A agência informou que as duas aeronaves estavam regulares para realizar voos na modalidade de aviação privada,ou seja,apenas para transportar seus proprietários e convidados. Destacou ainda que é precipitado fazer qualquer associação entre a modalidade do voo e o acidente. De acordo com o site g1,a Polícia Civil informou que um dos helicópteros pertencia a um advogado amigo das vítimas,o que descartaria o serviço de táxi aéreo. A investigação sobre as causas de quedas e colisões de aeronaves cabe ao Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa),da Força Aérea Brasileira.
O GLOBO não conseguiu contato com os donos das aeronaves. A PAX Aeroportos,gestora do Aeroporto de Jacarepaguá,informou que é competência da concessionária cuidar da infraestrutura aeroportuária e que cabe à Anac a fiscalização da atividade aérea.

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