
Avião da Gol no Aeroporto Santos Dumont,no Rio — Foto: Hermes de Paula/Agência O Globo
GERADO EM: 07/06/2026 - 21:19
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Ao fazer disparar os preços do QAV,o querosene de aviação,a guerra dos EUA e de Israel contra o Irã atingiu em cheio as margens de retorno das companhias aéreas,mesmo que a demanda por voos siga crescendo,conforme projeções divulgadas neste domingo pela Associação Internacional de Transporte Aéreo (Iata,na sigla em inglês),entidade que representa companhias aéreas de todo o mundo.
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Com margens apertadas,será inevitável que a pressão por reajustes nos preços finais das passagens persista. Ainda mais que qualquer alívio nos custos com QAV levará tempo para se traduzir em melhoras nas margens,disseram especialistas da Iata e executivos do setor,durante a Reunião Geral Anual,que reúne os CEOs de companhias de todo o mundo hoje,no Rio.
O evento começou ontem. É a terceira vez que o Brasil sedia o evento; a reunião de 1999 foi também no Rio e,em 1947,o terceiro encontro anual da história da Iata foi em Petrópolis.

Executivos de companhias aéreas de todo o mundo se reúnem no Rio para o encontro anual da Iata,entidade que representa as empresas de aviação civil em nível global. Reunião no Rio começou no domingo — Foto: Divulgação/Iata
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As companhias aéreas deverão registrar lucro líquido combinado de US$ 23 bilhões em 2026,ante a estimativa anterior de US$ 41 bilhões. O valor também ficará abaixo da estimativa de lucro de US$ 45 bilhões para 2025,informou a Iata durante o evento. Com isso,na média,a margem líquida de lucro das empresas afundará para apenas 2%,ante uma projeção inicial de 3,9% e os 4,2% de 2025.
A dramática piora no quadro mostra a rapidez com que o setor foi impactado pela guerra no Irã,iniciada no fim de fevereiro. Os impactos foram especialmente fortes no Oriente Médio,um dos motores de crescimento do transporte aéreo global. Empresas como Emirates e Qatar Airways reduziram operações após semanas de fechamento do espaço aéreo.
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Tipicamente,o custo do QAV representa de 30% a 40% na despesa operacional de uma companhia aérea. E,com a guerra,a Iata projeta que os gastos das empresas com o combustível somarão US$ 350 bilhões este ano,um salto de 40% ante os US$ 252 bilhões do ano passado.
Apesar do aperto financeiro,o número de passageiros voando deverá crescer 2,4%,para 5,1 bilhões,projeta a Iata. Se fossem desconsiderados os voos de e para o Oriente Médio,o crescimento seria maior,disse o diretor-geral da Iata,Willie Walsh. Por isso,para ele,apesar da disparada de custos que assola o setor,não dá para comparar o quadro atual com a crise causada pela Covid-19,no início de 2020.

O diretor-geral da Iata,Willie Walsh,na abertura da reunião anual da entidade de aviação civil,no Rio — Foto: Divulgação/Iata
— Não vejo o quadro atual como uma crise,estamos vendo uma indústria que ainda projeta lucratividade e crescimento. Durante a Covid-19,éramos uma indústria que estava presa no chão. O tráfego de passageiros em maio de 2020 foi 95% abaixo de um ano antes — disse Walsh,ao comentar os dados em entrevista coletiva,no Rio.
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Mesmo assim,o executivo lembrou que as projeções se referem às médias do setor. Algumas companhias de menor porte poderão ser inviabilizadas pelo aperto de margens,lembrou Walsh:
— Não é que nem a Covid,mas será muito desafiador. Para muitas companhias aéreas,o aumento do custo de combustível é potencialmente existencial,no caso de companhias menores em mercado mais fracos. Quando falamos de lucratividade no agregado não quer dizer que todos serão lucrativos.
Segundo a economista-chefe da Iata,Marie Owens Thomsen,historicamente,quando há aumentos nos custos de combustível,as companhias absorvem metade disso nas “margens já apertadas” e repassam aos preços finais de passagens a outra metade. Os passageiros terão que lidar com preços mais caros,após anos de preços mais baixos.
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— Desde 1994,não teve ano em que os preços não caíssem,as passagens ficaram mais baratas,não mantiveram o ritmo da inflação ao consumidor ou com as cotações de petróleo. Não entendo como alguém possa sugerir que é injusto reajustar os preços de passagens. Quando ocorre uma disrupção na safra de tomates,todos entendem que os preços de tomates vão subir. Acho que os passageiros entendem isso.

Jerome Cadier,CEO da Latam Brasil — Foto: Claudio Gatti / Divulgação
E,no mercado nacional,o chamado “custo-Brasil” torna a equação ainda mais difícil,segundo Jerome Cadier,CEO da Latam no Brasil.
— Existe essa crença de que os preços são altos porque as companhias ganham muito dinheiro. É mais um mito com a qual temos que brigar. Os preços são altos porque o custo de operar no Brasil já é elevado. O custo de combustível,a ineficiência no uso da mão de obra,o custo com ações judiciais — afirmou Cadier,num dos painéis da reunião da Iata,no domingo.
No sábado,o presidente global da Latam,Roberto Alvo,disse que o setor de aviação já viu diversas crises e fará adaptações de capacidade,já que o cenário atual é de que o custo de combustível “vai continuar elevado por muito tempo”,como registrou o jornal Valor.

Marjan Rintel,CEO da KLM,companhia aérea holandesa que é parte do grupo Air France KLM — Foto: Cyril Marcilhacy/Bloomberg
— Desde a Covid,não tivemos um momento tranquilo — disse ao GLOBO a CEO global da aérea holandesa KLM,Marjan Rintel,que ainda projeta demanda crescente,inclusive no mercado brasileiro,apesar dos preços mais altos de passagens. — Mas o desafio de longo prazo é a descarbonização. A aviação vai crescer e,no fim,os preços de combustível estarão num nível menor do que hoje.
O estrago para 2026 já está feito porque novas altas no custo do QAV estão no radar para o curto prazo,segundo Eleanor Budds,diretora de pesquisa de Refino e Combustíveis Globais da Standard and Poor’s (S&P).
Tudo por causa das férias de verão nos EUA,período marcado também pela chamada de “driving season”,ou a temporada dos motoristas. É o período em que os americanos mais viajam de carro,elevando o consumo de gasolina. E a temporada deste ano ocorrerá com as cotações do barril de petróleo em alta,com estoques de combustível em baixa.
— Isso significa que as refinarias vão ter que deixar de lado a quantidade extra de QAV que estavam produzindo,voltando a produzir mais gasolina — disse Eleanor,explicando que,nestes primeiros meses de guerra no Oriente Médio,as refinarias americanas aceleram sua produção de QAV e as exportações dos EUA do combustível aumentaram.
Com a retomada da produção de mais gasolina nos EUA,haverá um freio nas vendas do combustível de aviação pelas refinarias americanas. Com menos oferta no mercado global,o preço tenderá a subir novamente — o cenário base da S&P não inclui escassez de QAV,mas a pressão por reajustes de passagens seguirá e algum equilíbrio virá apenas após o fim do verão no Hemisfério Norte,disse Eleanor.

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