\'Meus Fantasmas\',HQ autobiográfica de Tessa Hulls lançado pela Quadrinhos na Cia. — Foto: Divulgação

'Meus Fantasmas',HQ autobiográfica de Tessa Hulls lançado pela Quadrinhos na Cia. — Foto: Divulgação
GERADO EM: 28/04/2026 - 18:27
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“O corpo da minha avó escapou da China. Sua mente,não. Minha mãe aprendeu a construir sua vida em torno daquela perda”,escreve a autora Tessa Hulls em “Meus fantasmas” (Quadrinhos na Cia.),obra que lhe rendeu o prêmio Pulitzer e o Eisner de melhor HQ autobiográfica no ano passado e tem na avó e na mãe duas de suas protagonistas. O livro venceu o Pulitzer na categoria memórias/autobiografia,reconhecimento raro para uma obra em quadrinhos — até então,apenas o cartunista Art Spiegelman havia sido premiado por uma HQ,com um prêmio especial por “Maus”,em 1992. A outra personagem,claro,é ela mesma,artista,escritora e aventureira: atravessou os EUA sozinha de bicicleta,trabalhou como bartender na Antártida,pintou murais em Gana e organizou clubes do livro no Alasca. Tudo isso,segundo ela,em entrevista ao GLOBO,para fugir das trevas sofridas por sua família:
— Eu tive de construir um lar em todos os lugares,menos naquele de onde eu vinha.
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A história de “Meus fantasmas” começa com a avó da autora,Sun Yi,uma jornalista chinesa que se tornou famosa após publicar um livro de memórias. Foi a partir desse relato que Tessa Hulls decidiu reconstruir a trajetória da família — trabalho que levou dez anos para ser concluído. Por trás do reconhecimento da avó,porém,estavam abusos e traumas que acabaram levando-a a um colapso mental. Ao reconstruir esse caminho,a autora narra a história da China no século XX,entrelaçando guerras e revoluções ao destino de sua própria família. O livro acompanha três gerações de mulheres marcadas por silêncios,deslocamentos e feridas herdadas.

Três gerações: Tessa ainda no colo da mãe e ao lado da avó,na China de 1986 — Foto: Álbum de família
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“Meus fantasmas” nasceu de uma investigação sobre a história de sua família. Em que momento o projeto deixou de ser apenas pesquisa e se tornou um compromisso emocional?
O ponto de virada foi viajar para Hong Kong e para a China com minha mãe. Como alguém que aprendeu a ser analítica como mecanismo de defesa,eu consigo me esconder na pesquisa por muito tempo. Mas ir com ela ao país onde nasceu me tirou da abstração e me colocou diante do peso emocional da história. A relação com minha mãe sempre foi a espinha dorsal do livro,e levei alguns anos para aceitar isso,porque sabia o quanto seria mais difícil do que simplesmente contar a história.
O livro reúne experiências íntimas e eventos traumáticos,como a Revolução Cultural chinesa. Como você delimitou a fronteira entre o testemunho pessoal e a reconstrução histórica?
Como a minha avó era jornalista e escreveu um livro de memórias que se tornou um best-seller,comecei o meu projeto com uma enorme vantagem. Sun Yi nasceu no primeiro ano da Guerra Civil Chinesa,e toda a trajetória da vida dela foi moldada pela história turbulenta que se desenrolava ao seu redor. Assim,pude usar seu livro como esqueleto do meu,contando tanto a narrativa mais objetiva dos fatos quanto o peso emocional de como esses fatos se impuseram.

Genealogia feminina: Detalhe da graphic novel “Meus fantasmas”,em que a autora,Tessa Hulls (à esquerda),conta a história de sua avó (ao centro) e de sua mãe — Foto: Divulgação
Antes de “Meus fantasmas”,você passou anos vivendo de forma itinerante. Na obra,relata ter passado os seus 20 e poucos anos na natureza,“buscando paz em uma liberdade solitária tão extrema quanto o confinamento que sentia”. Como essa experiência moldou a sua compreensão de pertencimento?
Eu tive de construir um lar em todos os lugares,menos naquele de onde eu vinha,e isso moldou minha vida de maneiras ao mesmo tempo belas e desafiadoras. Meus laços comunitários não estão presos à geografia,mas isso significa que minhas redes exigem manutenção constante. Hoje,uso a metáfora de uma estufa cheia de plantas raras: as pessoas entram,ficam impressionadas com o mundo que construí e perguntam como consegui erguer tudo isso. A resposta é que isso exige uma equipe de jardineiros trabalhando em tempo integral. Agora percebo que não consigo manter tudo o que construí e tento substituir algumas das minhas plantas mais exigentes por espécies mais resistentes. É uma forma incomum de atravessar o mundo,estar ao mesmo tempo hiperconectada e,ainda assim,fundamentalmente solitária. Acho que estou numa fase em que quero estar mais ligada a uma comunidade e a um lugar fixos.
Você trabalhou como repórter e escritora durante suas viagens. De que maneira essa experiência influenciou a sua abordagem ao documentar a história de sua própria família?
É uma situação meio de ovo e galinha: quando comecei “Meus fantasmas”,eu não tinha formação em nenhum dos meios com os quais estava trabalhando,então precisei me tornar jornalista,historiadora e quadrinista. Para mim,o livro começou com um imperativo literal — os ancestrais da minha família me disseram,em uma voz que ecoava por uma paisagem: “Alguém precisa alimentar os fantasmas” — e então precisei desenvolver as habilidades necessárias para cumprir esse mandato. Sempre fui uma pessoa que olha para onde quer chegar e reconstrói os passos para chegar lá. Fiz uma lista do que precisava aprender e usei a minha prática criativa para assumir projetos que me ensinassem essas habilidades. Assim,a ordem habitual das coisas se inverteu,e “Meus fantasmas” me transformou em repórter e escritora,porque eu precisava fazer isso para honrar a história que herdei.

Cidadã do mundo. Tessa no Alasca,onde organizou clubes do livro: “Meus laços comunitários não estão presos à geografia” — Foto: Reprodução de rede social
“Meus fantasmas” recebeu o Eisner e,depois,o Pulitzer,reconhecimento raramente concedido a obras em quadrinhos. Você sente que esse momento sinaliza uma mudança na forma como o gênero é percebido no mundo literário?
Como alguém que sempre foi intensamente multidisciplinar,sempre fiquei intrigada com a forma como outras pessoas tendem a traçar fronteiras tão rígidas entre gêneros. Acho que isso acontece,em parte,porque artistas e escritores são forçados a se tornar marcas,a fazer algo imediatamente reconhecível e repetitivo. Existe,assim,uma dificuldade em lidar com criadores que se recusam a ser encaixados em rótulos — embora as pessoas também se sintam atraídas por quem faz algo genuinamente diferente. Escolhi contar a minha história como uma graphic novel porque vi a força desse meio para explorar camadas que não conseguiria entrelaçar de outra forma. Os prêmios que recebi foram avassaladores e,para ser honesta,um pouco desestabilizadores,e me fizeram pensar por que fiz algo reconhecido como incomum. Concluí que sempre trabalhei questionando fronteiras entre disciplinas e usando ferramentas de maneiras inesperadas. Acredito que as graphic novels estão sendo cada vez mais aceitas como obras literárias,mas também que os prêmios apontam algo mais amplo: as fronteiras entre diferentes tipos de histórias são mais fluidas do que queremos imaginar.

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