A China quer afirmar-se como potência global na produção de alimentos de luxo, com o caviar na linha da frente, ilustrando os esforços do país asiático para competir em mercados de alto valor acrescentado.

Num lago artificial no leste da China,esturjões são criados em jaulas submersas,monitorizados por 'drones' e alimentados por um sistema automatizado que permite produzir caviar ao longo de todo o ano.
A China quer afirmar-se como potência global na produção de alimentos de luxo,com o caviar na linha da frente,ilustrando os esforços do país asiático para competir em mercados de alto valor acrescentado.
Quando os peixes têm entre um e dois anos,são levados para o Lago das Mil Ilhas (Qiandao),onde são criados em jaulas no meio do lago. Isso permite um desenvolvimento mais rápido",segundo explicou Xin Yue,do departamento de marketing da Kaluga Queen,à agência Lusa.
Após essa fase,os peixes são transferidos para tanques com correntes circulares de água oriunda da nascente do rio Qu,em Quzhou,província de Zhejiang,que simulam o ambiente natural e estimulam a maturação das ovas.
"Este fluxo de água cria um efeito semelhante ao habitat selvagem e ajuda ao crescimento das ovas",disse Xin Yue,enquanto caminhava por entre as dezenas de tanques circulares dispostos nas instalações da empresa em Quzhou.
Antes da extração,os esturjões regressam ao lago para um período de purificação.
"Assim,o corpo consome a gordura e o sabor das ovas torna-se mais limpo",acrescentou Xin.
Para além de Quzhou,a empresa tem mais cinco bases de aquacultura na China,nas províncias de Jiangxi,Sichuan,Hunan,Hubei e Liaoning.
O processo industrial é altamente controlado: inclui 16 etapas que têm de ser concluídas em cerca de 15 minutos após a extração das ovas,que são lavadas repetidamente em água a baixa temperatura e selecionadas manualmente antes de serem salgadas e armazenadas.
A empresa,fundada com apoio de especialistas ligados ao Ministério da Agricultura chinês,tornou-se o maior produtor mundial de caviar,com uma produção que atingiu cerca de 300 toneladas em 2025,equivalente a cerca de 35% do total global.
"Em 2015 produzíamos 45 toneladas. Somos o número um mundial há mais de dez anos",afirmou o vice-diretor executivo,Xia Yongtao,à agência Lusa.
O crescimento da produção chinesa de caviar insere-se numa estratégia mais ampla de desenvolvimento de alimentos de alto valor acrescentado,que inclui também trufas,fígado de pato,vinho ou azeite,impulsionada tanto pela procura interna como pela expansão das exportações.
Os esforços de Pequim estendem-se,aliás,a vários setores,incluindo veículos elétricos,painéis solares,turbinas eólicas ou baterias.
Os economistas referem-se a este fenómeno como "choque da China 2.0".
Há 20 anos,a economia mundial foi abalada por um primeiro "choque da China",quando uma vaga de produtos de baixo custo destruiu os modelos de negócio de fabricantes nas economias desenvolvidas,resultando na perda de milhões de empregos.
Segundo dados do International Trade Centre,as exportações chinesas de caviar passaram de cerca de 12 milhões de dólares (cerca de 10,2 milhões de euros) em 2012 para 98 milhões de dólares (83,5 milhões de euros) em 2024,representando aproximadamente 43% do total global,num contexto em que a guerra na Ucrânia afetou o comércio russo.
Analistas apontam que a rápida ascensão da China neste setor resulta de uma combinação de fatores estruturais.
"Tem havido um esforço concertado de Pequim para apoiar os agricultores chineses na identificação de produtos de maior valor acrescentado com potencial para mercados de gama alta",afirmou Even Pay,analista da consultora Trivium China.
Ian Lahiffe,consultor especializado em agricultura chinesa,sublinhou o impacto das políticas internas e da procura externa. "A procura interna foi afetada após a imposição de restrições aos banquetes oficiais,levando os produtores a ficarem com excedentes que tiveram de escoar no exterior",disse.
Para Xia Yongtao,a qualidade do caviar depende de vários fatores,com destaque para a água,a espécie e o processo de produção.
A empresa exporta atualmente cerca de 90% da sua produção para 46 países e regiões,incluindo Portugal,com prazos de entrega que podem chegar a menos de 48 horas.
"Exportamos sempre por via aérea e o produto chega ao cliente em menos de 48 horas,por vezes em 24",disse.

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