
Moradora mostra o local onde o menino de 6 anos teria sido baleado na Favela do Metrô — Foto: Gabriel de Paiva
A caminho do trabalho,por volta das 7h,uma fonoaudióloga foi baleada no pescoço dentro de um ônibus que passava por Vicente de Carvalho. No Complexo da Maré,a 12 quilômetros dali,um pai,para proteger os filhos dos tiros,os fez deitar no asfalto enquanto os levava para a escola. No mesmo dia de ontem,uma criança de 6 anos,que brincava na varanda de casa,acabou ferida por estilhaços de um projétil na Favela do Metrô,no bairro da Mangueira. Nos três episódios na Zona Norte,a violência urbana transformou a rotina de cariocas em momentos de desespero.
Criança é ferida durante operação policial,e protesto fecha Rua São Francisco Xavier e Avenida Rei Pelé,na MangueiraFonoaudióloga baleada em ônibus,em Vicente de Carvalho,passou por quatro horas de cirurgia e foi levada para CTI
Cerca de 20 passageiros estavam dentro do ônibus da linha 629 (Irajá—Saens Peña) quando pelo menos um tiro estilhaçou uma janela do veículo e atingiu Aline de Siqueira Affonso,de 53 anos. Em meio ao pânico,as pessoas desceram e buscaram abrigo em um colégio,onde se deitaram no chão para escapar de balas perdidas. Só Aline ficou. Com o motorista em estado de choque,um policial militar assumiu o volante do coletivo e levou a vítima para o Hospital Estadual Getúlio Vargas,na Penha,onde foi submetida a uma cirurgia de quatro horas e meia. Ela está no Centro de Tratamento Intensivo com um quadro de saúde grave — a bala causou lesões na coluna vertebral.
De acordo com a Polícia Militar,agentes do 41º BPM (Irajá) faziam policiamento nas proximidades da Comunidade do Trem,que se espalha por Vila Kosmos e Vicente de Carvalho,quando foram atacados a tiros e houve confronto. O ônibus em que a vítima estava passava pela Avenida Meriti,em frente à favela dominada pelo Comando Vermelho. O tiroteio provocou ainda correria na passarela do metrô de Vicente de Carvalho. Moradora da Vila da Penha,Aline trabalha na Casa de Saúde São José,no Humaitá,e não tem filhos. No hospital,está sendo acompanhada por duas tias.
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Também foi uma operação,mas da Polícia Civil,que deixou outro inocente ferido. Estilhaços de um projétil atingiram o rosto de um menino de 6 anos na Favela do Metrô,no bairro da Mangueira. Com uma lesão perto de um dos olhos,a criança foi levada ao Hospital Municipal Jesus,em Vila Isabel,e transferida para o Hospital Municipal Souza Aguiar,no Centro. No fim da tarde,ele continuava internado em observação.
Logo após a criança ser socorrida,moradores fizeram um protesto em que pontos da Rua São Francisco Xavier e da Avenida Rei Pelé foram interditados. A manifestação teve barricadas feitas com pneus e caçambas de lixo,que foram incendiados. Dois ônibus tiveram as chaves roubadas e foram atravessados na pista. O tiroteio e a reação da comunidade assustaram usuários de trem e do metrô — as linhas passam nos fundos da favela — e quem estuda e trabalha na Uerj,cujo campus fica em frente. Os alunos foram orientados a ficar em sala até a situação ser controlada,o que aconteceu por volta das 14h.
Sobre a operação,a Polícia Civil informou que agentes da Delegacia de Roubos e Furtos (DRF) foram atacados por traficantes do Morro da Mangueira,que fica bem em frente,e que não houve revide. Manifestantes,no entanto,dizem que os policiais fizeram disparos em direção à favela.
A ação tinha como alvo um ferro-velho que,de acordo com investigações,é comandado pelo tráfico e recebe material furtado na Tijuca,no Grajaú e em Vila Isabel. No estabelecimento foram encontrados cabos de cobre de empresas de telefonia,já cortados e queimados,para esconder a origem dos produtos. A administradora do negócio foi presa.
Uma terceira operação policial deixou uma família na linha de tiro. No momento em que policiais militares chegavam ao Conjunto Esperança,na Maré,um homem de 37 anos e os dois filhos — uma menina de 6 anos e um menino de 4,que dormiam no carro — entraram em pânico com o tiroteio. O pai retirou as crianças do veículo e as fez deitar na rua. Um vídeo registrou os momentos de desespero.
— Saí pegando eles de qualquer jeito. Ficamos abaixados. Depois um rapaz me ajudou a atravessar a rua — contou o pai,que faz transporte escolar e nesta quarta não trabalhou.
Segundo ele,os três ficaram abrigados na Avenida Brasil,perto de uma antiga garagem de ônibus. As crianças ficaram muito abaladas:
— Meus dois filhos estavam tremendo. Não é uma coisa normal. Nós,adultos,de uma certa forma,até entendemos. Mas as crianças,não.
Em seu perfil no X,a PM informou que a operação na Maré foi feita pelo 22º BPM para o reposicionamento de blocos de concreto — os jerseys — em vias de acesso ao conjunto de favelas,usados para dificultar a entrada de caminhões de carga e de veículos roubados.
Por causa da operação,36 escolas da rede municipal no Complexo da Maré suspenderam as aulas. Duas unidades de Atenção Primária da região também não funcionaram,como informou a Secretaria municipal de Saúde. Outros dois postos na região,segundo a pasta,atenderam os pacientes,mas cancelaram as visitas domiciliares.

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