
Imagem de microscópio de uma amostra de vírus da varíola preservada em laboratório — Foto: CDC/divulgação
Um grupo de cientistas anuncia hoje ter conseguido obter a primeira evidência biológica direta de que a epidemia de varíola que matou milhões de nativos nas Ámericas no século XVI foi introduzida na região por exploradores europeus.
A travessia do vírus entre continentes já é um fato relativamente consensual entre historiadores,mas não havia sido feita ainda uma conexão biológica entre as variantes dos patógenos que circularam na Europa e,posteriormente,no Novo Mundo.
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Em um estudo publicado hoje na revista Science,um grupo de cientistas do Trinity College de Dublin,na Irlanda,relata ter encontrado sinal dessa cadeia de transmissão dos colonizadores para os colonizados em múmias encontradas no norte do Chile.
Os pesquisadores,liderados por Bruno Romero González,descrevem que o DNA de vírus encontrados nesses indivíduos,que viveram em algum momento entre 1492 e 1631,remonta ao genoma de linhagens do patógeno que circularam na Europa antes.
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"Esses genomas formam uma linhagem agora extinta que divergiu por volta de 1296 d.C.,após a divisão das primeiras cepas europeias da Idade Média,mas antes do surgimento das linhagens modernas da varíola,fornecendo evidências moleculares diretas da introdução da varíola por meio da colonização europeia",escreveu o cientista com seus coautores.
Uma vez instalada nas Américas,a varíola em geral se espalhava mais rápido e com mais virulência,porque os povos nativos não tinham histórico de imunização natural prévia por surtos ocorridos no passado,como os europues.
Estudos estimam que as epidemias de varíola mataram mais de 4 milhões de indígenas durante o período inicial de colonização,uma parcela grande da população que habitava o Caribe e as Américas Central e do Sul na a época.
Os surtos mais antigos da doença no Novo Mundo descritos em documentos de época datam de 1520,no México,e de 1525 no império Inca,nos Andes,mas arqueólogos ainda não tinham certeza de que a doença relatada nessas ocasiões era efetivamente a varíola.
A evidência de que o vírus estava efetivamente circulando na região é oferecida agora pela análise dos dois corpos preservados,um homem e uma mulher adultos,analisados por González e seus colegas.
As múmias chilenas,diferentemente dos corpos embalsamados no Egito,são naturalmente preservadas graças ao solo extremamente seco e altamente salino do deserto do Atacama. Rituais de sepultamento,além disso,ainda incluíam embrulhar os corpos em tecido ou recipientes de argila,que aumentavam a sua capacidade de preservação.
Os corpos analisados agora pelo cientistas em busca de DNA de varíola estão no Museu Arqueológico de San Miguel de Azapa,no norte do Chile. Os pesquisadores analisaram 13 múmias diferentes para encontrar DNA do vírus da varíola em duas delas.
Os indivíduos haviam sido encontrados em sepultamentos no sítio arqueológico de Camarones 9,na região chilena de Arica y Parinacota. A evidência de as múmias em questão foram vítimas da doença,segundo os cientistas não estão só no DNA do vírus mas em marcas encontradas em áreas de pele preservada.
A manifestação da varíola,uma infecção marcada por forte febre e dor corporal,é caracterizada também por manchas vermelhas que eclodem depois como pústulas. Essas feridas em forma de bolhas deixam depois cicatrizes que costumam ser permanentes.
A pele das múmias de Camarones 9 tinha marca condizentes com aquelas típicas da varíola,mas cientistas ainda não tinham desconfiado do problema,porque habitantes da região também tinham outros problemas de saúde que causavam cicatrizes. Um deles era a contaminação por arsênico,que está presente em algumas fontes de água no Atacama. A confirmação da contaminação por varíola,porém,torna provável que as marcas na pele das vítimas sejam resultado das pústulas da doença viral,talvez combinada com a intoxicação pelo elemento metálico.
Além da evidência da origem europeia do vírus,o estudo de Ramírez e colegas mostra indícios de que o vírus circulou de maneira fácil quando chegou às Américas,por a linhagem ter sofrido poucas alterações em partes mais importantes do genoma após sua chegada.
"Descobrimos que o vírus passou por um longo período de mudanças genéticas até o século XVI,mas que sua taxa de evolução diminuiu consideravelmente durante o auge da expansão colonial e das grandes epidemias de varíola nos séculos XVII e XVIII",afirmou em comunicado Lara Cassidy,cientista dcoautora do estudo. "Isso sugere que o vírus pode ter atingido um ponto ótimo na evolução,permitindo que se espalhasse com sucesso com pouca adaptação adicional – possivelmente auxiliado pela falta de imunidade que as populações recém-expostas apresentavam."
A varíola,que foi a primeira doença infecciosa a ser combatida com vacina,está erradicada no planeta desde a década de 1970,e não representa mais uma ameaça à saúde pública. O estudo de como ela causou mortalidade maciça nas Américas após a introdução pelos europeus,pode ajudar a entender melhor a dinâmica de espalhamento de vírus emergentes em novas epidemias,dizem os cientistas.

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