
Amanhecer na Baía. Calor extremo e tempestades podem ser efeitos do Super-El Niño,fenômeno climático que este ano deve chegar bem antes do verão — Foto: Gabriel de Paiva
GERADO EM: 20/07/2026 - 22:23
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Na quinta-feira da semana passada,a cidade registrou a temperatura mais baixa do ano: 11°C no Alto da Boa Vista. Sim,ainda é inverno,mas isso não impediu a Prefeitura do Rio de anunciar a antecipação de protocolos normalmente acionados com a chegada do verão. Essas medidas buscam preparar o município para os impactos do Super-El Niño — que deve trazer aumento de temperatura e intensificação de chuvas. A perspectiva de que os efeitos do fenômeno climático sejam sentidos mais cedo por aqui já mobiliza equipes de mais de 50 órgãos municipais.
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— Parte dos efeitos do Super-El Niño,para a realidade da cidade,é como se fosse a antecipação dos efeitos do verão — reforçou ontem o prefeito Eduardo Cavaliere,em coletiva no Centro de Operações e Resiliência (COR),na Cidade Nova. — As águas de março,neste momento,podem estar chegando antes do verão.
— Lembrando que 40% do nosso território sofre alto impacto do calor. E esse impacto vai gerar mais problemas para as crianças,para os idosos,para as pessoas em situação de rua — ressaltou Rodrigo Prado,secretário municipal de Saúde,também presente na entrevista.
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Temperaturas acima da média já são esperadas no fim do inverno,que vai até setembro. Juliana Hermsdorff,meteorologista do Sistema Alerta Rio,mencionou a probabilidade de o El Niño ser “muito forte,principalmente no final da primavera e no início do verão”. Ou seja,entre novembro e dezembro deste ano.
— Temos grandes áreas urbanizadas que aumentam a temperatura,formando ilhas de calor. Os impactos do El Niño vão reforçar essa questão,são um combustível formador de chuvas intensas aqui na cidade do Rio — explicou a meteorologista.
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Em maio,a Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos Estados Unidos (NOAA) informou que o fenômeno tinha 82% de chances de se formar até este mês de julho — e confirmou a previsão no mês passado.
— A prefeitura está antecipando ações que normalmente a gente executava em novembro. A partir deste momento,estamos colocando em alerta máximo as secretarias e os órgãos que trabalham com prevenção e resposta — resumiu Rodrigo Gonçalves,subsecretário de Defesa Civil da cidade.
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Ele reforçou a importância de a população acompanhar os estágios operacionais definidos pela prefeitura. Há cinco níveis: o 1º,sem mudança significativa na rotina; o 2º,com risco de acontecimentos; o 3º,com ocorrências em andamento; o 4º,em que várias ocorrências afetam a mobilidade,e as pessoas são orientadas a não se deslocar; e o 5º,com ocorrências de alto risco,sem previsão de retorno à normalidade,com cancelamento de eventos e com necessidade de apoio à prefeitura. O último nunca foi atingido.
Gonçalves mencionou que há mais de 50 protocolos — que envolvem órgãos municipais,do estado e da União — para efeitos climáticos. Um deles é uma parceria com a Marinha do Brasil. Alertas de maré alta são levados em consideração,por exemplo,para interditar a Ciclovia Tim Maia,na Avenida Niemeyer: a medida foi tomada após o desabamento de trecho da estrutura em 2016,quando duas pessoas morreram.
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Na coletiva,com representantes de 11 órgãos do município,foram citados os projetos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Wanderson Santos,secretário de Infraestrutura,observou que a obra do PAC em Realengo,de drenagem em vias importantes,como a Avenida Bernardo de Vasconcelos,estava prevista para ser concluída no primeiro semestre de 2027,mas terá a primeira fase pronta ainda este ano. Além disso,a construção de um piscinão para acumular água na região foi iniciada.
Em Acari,bairro bastante afetado em dias de chuva,intervenções do PAC foram iniciadas,mas a previsão de conclusão é de três anos. No Jardim Maravilha,a primeira fase,de esgotamento e urbanização,foi entregue,e a segunda,de construção de diques,iniciada. Na Maré,o projeto do PAC Periferia Viva é considerado em fase inicial,enquanto na Rocinha e no Alemão está em planejamento.
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— Não teremos todas as obras finalizadas (até os efeitos do Super-El Niño),mas estaremos nos locais,com uma mobilização para atender e mitigar o eventual dano — afirmou o secretário de Infraestrutura.
— Boa parte dessas áreas mais sensíveis ainda está sujeita a eventos extremos e riscos no próximo verão — reconheceu Cavaliere.
Outras estruturas providenciais nesses dias de clima extremo são os parques urbanos,que ampliam a área de vegetação da cidade e oferecem conforto térmico. Já começaram a ser construídos os parques Terra Prometida,em Santa Cruz,e Linear da Maré — onde hoje fica um lixão. Outros estão no planejamento: Tanque,Taquara Fazenda Baronesa,Guadalupe,Jardim do Amanhã (na Cidade de Deus) e do Saber (entre Cordovil e Parada de Lucas).
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Uma medida já adotada pela prefeitura foi a instalação dos chamados “megarralos”,capazes de escoar grandes volumes de água. Pelo menos 70 foram construídos ao longo da Avenida Brasil,onde os alagamentos são frequentes. Ao percorrer o endereço,no entanto,a equipe do GLOBO flagrou equipamentos quebrados e cheios de lixo na altura de Manguinhos.
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A Secretaria municipal de Ambiente e Clima informa que,este ano,foram realizados 112,4 mil plantios de árvores na cidade. Lívia Galdino,titular da pasta,explica que um plano de desenvolvimento sustentável,de 2021,prevê a priorização dos plantios em parte da Zona Norte e na Zona Oeste.
Com características distintas,nem todas as regiões do Estado do Rio de Janeiro vão enfrentar da mesma maneira os efeitos climáticos do Super-El Niño. Umas serão mais castigadas pelo calor extremo,enquanto outras estarão sujeitas a chuvas intensas.
— Cada região tem sua condição e característica específica e natural,tanto com relação à geografia como à topografia — explica o meteorologista Fabio Hochleitner,pesquisador do Laboratório de Métodos Computacionais em Engenharia (LAMCE) da Coppe- UFRJ.
No Norte e no Noroeste,mais rurais,um cenário provável,segundo o pesquisador,é de agravamento dos problemas de aridez,fruto das temperaturas elevadas. Também podem ocorrer ondas de calor,déficit hídrico e risco de queimadas.Em Campos dos Goytacazes,no Norte Fluminense,a prefeitura diz que os efeitos do fenômeno climático são menos previsíveis,já que o município está numa área de transição climática,mas acompanha com atenção a evolução das condições oceânicas e atmosféricas para traçar o planejamento das ações preventivas.Na Costa Verde e na Região Serrana,as chuvas oferecem o maior risco,trazendo inundações e enxurradas. Em fevereiro,a prefeitura de Angra dos Reis registrou,em apenas seis horas,mais de 200mm de chuva,quase a média esperada para o mês inteiro. Agora,investe em prevenção: obras de contenção devem consumir R$ 300 milhões.No Leste Fluminense e na Região dos Lagos,as chuvas também preocupam,assim como a presença de ilhas de calor. Já a Baixada Fluminense poderá sofrer com índices de calor intenso,baixa umidade e piora da qualidade do ar,além de alagamentos.
(Geraldo Ribeiro)

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