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'Preciso me apaixonar por mim mesma de novo': Sobrevivente de ataque com ácido busca recuperar autoestima e ajudar outras vítimas

Ikram se descreve como uma 'garota feminina' que sempre gostou de usar maquiagem e se arrumar — Foto: Hiroko Masuike/New York Times

RESUMO

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GERADO EM: 12/07/2026 - 19:35

Sobrevivente de Ataque com Ácido Inspira e Auxilia Outras Vítimas

Nafiah Ikram,vítima de um ataque com ácido há cinco anos,luta para recuperar sua autoestima e ajudar outras vítimas. O agressor,identificado como Terrell Campbell,foi preso,mas Ikram também lida com a possível conexão de seu ex-namorado,Shaquille Coke,ao crime. Após diversas cirurgias,ela trabalha como técnica de farmácia e aspira ser cirurgiã de trauma para apoiar outros sobreviventes.

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Nafiah Ikram entrou em um salão de manicure em Long Island,nos Estados Unidos,para sua consulta mensal,vestindo um conjunto de moletom rosa e branco. Ela usava fones de ouvido rosa combinando. Queria se sentir bonita novamente e talvez algo mais profundo. A consulta é um ritual em sua jornada para recuperar a normalidade,para vencer o "monstro" no espelho,como ela às vezes descreve seu reflexo. Cinco anos atrás,em Nova York,um ataque com ácido queimou sua pele lisa e morena,deixando cicatrizes faciais permanentes.

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— Estou fazendo o possível para reencontrar a versão de mim mesma que eu me lembro,porque ela era feliz — disse Ikram,de 27 anos.

Essa versão de si mesma,diz ela,praticamente desapareceu. Mas a nova e a antiga se encontram ocasionalmente dentro do salão,às vezes no espelho do quarto,às vezes em momentos tranquilos de introspecção e fugaz autoaceitação.

Tudo começou com um estranho,parcialmente coberto por um moletom com capuz,que jogou ácido de bateria em seu rosto enquanto ela caminhava para a porta de casa depois de trabalhar em uma farmácia. O rosto do estranho a assombrou todas as noites durante anos,enquanto a polícia do Condado de Nassau investigava,mas sem obter muitas pistas.

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Em fevereiro,a polícia e a promotoria disseram ter identificado o agressor: Terrell Campbell,que,segundo os investigadores,usou o ataque para impulsionar sua carreira no rap. Ele usa o nome artístico "YungBasedPrince" e publicou um videoclipe no YouTube chamado "Obsidian" em 2023. No vídeo,ele canta: "Na rua à noite,como um assassino de aluguel / tente me alcançar e seu rosto vai queimar com ácido". Ele se declarou inocente das acusações de agressão e outros crimes.

O ocorrido foi intrigante: Ikram afirmou não ter nenhuma ligação com Campbell. Mas,segundo a promotoria,o ex-namorado dela sim.

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'Assustador como um monstro'

Eram cerca de 20h do Dia de São Patrício de 2021 e Ikram acabara de chegar em casa,em Elmont,Long Island,depois de passar o feriado no trabalho. Sua mãe estava com ela no carro e entrou rapidamente para usar o banheiro.

Ikram saiu do banco do motorista e foi até o lado do passageiro para pegar comida no banco de trás. Então,ela disse,teve uma estranha sensação de que alguém a estava observando. Ela virou-se para a direita e viu um homem de capuz no quarteirão seguinte,olhando fixamente com os braços cruzados. Com medo,começou a recitar um versículo islâmico de proteção.

Ikram em abril de 2021,cerca de um mês após ter sido atacada — Foto: Sara Naomi Lewkowicz / New York Times

Enquanto caminhava em direção à entrada da garagem,o homem de moletom correu até ela e jogou um líquido de um copo grande. O líquido espirrou em seu rosto,e ela gritou quando escorreu por seu corpo e desceu por sua garganta,causando uma forte queimação. Ela lutou para chegar em casa em busca de ajuda.

Os paramédicos a levaram às pressas para o hospital. Ela passou várias semanas lá,recebendo tratamento para queimaduras de segundo e terceiro graus no rosto,braços,olho direito e esôfago. Ela passou por uma série de cirurgias e enxertos de pele,além de tratamentos frequentes para ajudá-la a comer e respirar,pois as queimaduras por ácido causaram atrofia na garganta.

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Hoje,sua pele apresenta cicatrizes claras e escuras que vão do rosto até atrás das orelhas,descendo pelos ombros,peito e parte superior dos braços. Ela perdeu a visão de um olho porque o ácido queimou sua lente de contato,deixando seu olho parcialmente fechado.

— Eu tinha uma aparência física,na minha opinião,assustadora,como um monstro aos meus próprios olhos — disse ela. — Para que eu consiga enxergar algo diferente,preciso me apaixonar por mim mesma novamente.

'Obsessão'

Na superfície de concreto em frente à casa de Ikram,ainda persiste uma mancha de ácido.

— Este é verdadeiramente um dos ataques mais horríveis e perturbadores que já vi em mais de três décadas como promotora — disse Anne Donnelly,procuradora distrital do Condado de Nassau.

Ikram em sua formatura do ensino médio — Foto: Hiroko Masuike/New York Times

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Campbell pode enfrentar 25 anos de prisão se for considerado culpado. Seu advogado,Gregory Zak,recusou-se a comentar. Quando ele foi preso,os promotores disseram que ainda estavam tentando descobrir o que o motivou a atacar Ikram.

Então,em 24 de março,houve uma reviravolta. Shaquille Coke,de 31 anos,um homem com quem Ikram tinha um relacionamento amoroso,foi preso na cidade de Nova York em conexão com o ataque.

Coke se declarou inocente das acusações de agressão e outros crimes. Ele também pode pegar até 25 anos de prisão se for considerado culpado.

Ikram disse que conheceu Coke em 2017,durante seu primeiro ano na Universidade Hofstra,onde cursava medicina. Ele estava no centro estudantil divulgando um evento no campus patrocinado pela União de Estudantes Negros. Ele lhe entregou um panfleto e pediu seu Snapchat.

O Pilates faz parte da rotina de autocuidado da Sra. Ikram — Foto: Hiroko Masuike/New York Times

Durante a pandemia do coronavírus,eles começaram a se comunicar regularmente,enviando mensagens diretas. Durante as férias de inverno,em janeiro de 2021,Coke convidou Ikram para sair.

Eles se divertiram bastante no primeiro encontro,o que levou a um segundo. Mas,após um jantar,o relacionamento começou a azedar. Enquanto estavam no carro,Ikram se lembrou de que Coke disse à mãe que a imaginava como sua esposa.

— Isso me lembra aquelas pessoas que ficam obcecadas pela garota depois de umas duas semanas de convivência — disse Ikram. — Então isso meio que me assustou.

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Ikram disse que tentou se distanciar gradualmente,falando e interagindo menos. As coisas mudaram quando ele percebeu que ela estava se afastando,disse ela.

Dois meses após o ataque,o gabinete do promotor distrital afirmou que Coke enviou mensagens de texto vulgares de um número falso,chamando-a de "Freddy Krueger",em referência aos seus ferimentos. Usando registros de celular,a polícia disse ter descoberto que Coke se encontrou com Campbell — um amigo e colega do ensino médio — uma hora antes da agressão.

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Sempre bonita

Após mais de 13 procedimentos cirúrgicos em cinco anos,seu rosto e corpo sofreram diversas transformações. Ikram relatou que perdeu a sensibilidade e a mobilidade facial,mas os médicos conseguiram recuperá-las transferindo nervos de sua coxa para o rosto.

Rachel Madary,assistente social clínica especializada do NewYork-Presbyterian/Weill Cornell Medical Center,afirmou que queimaduras faciais são particularmente difíceis de lidar para as mulheres.

— O impacto na saúde mental delas é muito maior — disse Madary. — Simplesmente por causa dos padrões de beleza impostos pela sociedade.

Segundo a Associação Americana de Queimaduras,cerca de 1 em cada 3 vítimas de queimaduras sofre de problemas de autoimagem,o que pode levar à ansiedade em relação a sair em público.

Ela recuperou partes da sua vida voltando a trabalhar como técnica de farmácia e dedicando-se a sessões semanais de autocuidado. Um de seus objetivos é se tornar cirurgiã de trauma para ajudar sobreviventes de queimaduras como ela.

— Já não vejo as cicatrizes — disse Ikram. — Só vejo a mim mesma.

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