ESTILO DE VIDA Jul 7, 2026 IDOPRESS

'Female rage': entenda como a fúria feminina contra injustiças alimenta ficções repletas de sangue e vingança

Capa da série de livros Mindf*ck,da autora S.T. Abby — Foto: Divulgação

Durante muito tempo,Bruna Maia ouviu que suas queixas eram “raivosas” e “tóxicas”. Hoje,a jornalista,romancista e cartunista responde da única forma que lhe interessa: criando personagens literárias raivosas.

Stefano Mancuso: Pioneiro da neurobiologia vegetal revela revela 'superpoderes' das plantasVivian Maier,100 anos: Descoberta da fotógrafa consolidou nova era para 'amadores' e arquivos esquecidos

Vítima de abusos psicológicos,a protagonista de “Com todo meu rancor” (Rocco),lançado em 2022,busca a cura pela vingança. Já a Cassandra de “Na beirada” (Rocco),que chega agora às livrarias,põe os códigos morais de lado ao enfrentar aqueles que a traumatizaram.

Problemáticas e imperfeitas,as mulheres de Bruna refletem um sentimento que ganhou as redes e batiza um tipo de narrativa em alta no mercado editorial. Conhecida como female rage,a tendência se apropria de uma figura antiga (a mulher vingativa,popularizada em filmes como “Kill Bill”),mas agora sem o filtro masculino do passado.

Apoteótica

Continuar Lendo

No TikTok,a expressão acumula mais de dois bilhões de visualizações. Nas livrarias,aparece em lançamentos recentes como “Mindf*ck” (Paralela),uma série de livros de S.T. Abby (pseudônimo da americana Christie Owens) que virou fenômeno nas redes sociais; e dois novos títulos da rainha do thriller Freida McFadden: “Querida Debbie” e “A ex” (ambos editados pela Arqueiro). Em comum,essas obras tratam a fúria não como um simples desvio de personalidade,mas como motor de uma narrativa sangrenta e apoteótica.

— Demorei para perceber que a minha raiva não era um defeito,mas uma reação justa aos abusos que tinha vivido — diz Bruna,que escreveu “Com todo meu rancor” após sair de um relacionamento abusivo. — Muito do que os homens chamam de loucura e agressividade nas mulheres é,na verdade,uma reação às violências machistas que elas sofrem. Então percebi que fazia mais sentido me apropriar dessa raiva de uma vez.

A escritora Bruna Maia — Foto: Ana Branco/ Agência O GLOBO

No universo do female rage,as personagens se recusam ao papel da vítima virtuosa que muitos esperam. Em “Na beirada”,Cassandra questiona a sua própria sanidade ao relembrar traumas da juventude. Deprimida e solitária,deixa a raiva acumulada influenciar suas ações como policial civil.

“Mindf*ck”,por sua vez,traz uma serial killer decidida a eliminar o grupo de criminosos que a torturaram no passado. Aparentemente implacável,a justiceira Lana também tem suas incoerências e fragilidades,e até se apaixona pelo agente do FBI que a investiga. A série vai ganhar uma adaptação para o audiovisual produzida por Sophia Stallone,filha de Sylvester Stallone.

— Por que um personagem masculino como John Wick,que se lança numa carnificina por vingança,é visto como herói,enquanto a Lana de “Mindf*ck” é “problemática”? — indaga Quézia Cleto,editora-executiva da Paralela,que lança os livros da série por aqui. — Na vida real,os crimes de fato são cometidos majoritariamente contra as mulheres. Ou seja,essa inversão é algo que basicamente só acontece no campo ficcional,como reflexo de uma frustração coletiva das mulheres com a falta de justiça.

Vingadas

Não por acaso,essas protagonistas potencialmente detestáveis do female rage têm encontrado uma recepção positiva entre as leitoras.

— Várias meninas me disseram que se sentiram vingadas ao ler “Com todo meu rancor” — conta Bruna. — Acho que a ficção de vingança ocupa essa função catártica para mulheres que passaram por algum tipo de violência.

A conexão entre trauma real e catarse artística é tema de estudo entre profissionais da saúde mental. Médica residente de psiquiatria no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Botucatu (Unesp),Maria Lígia Solssia investiga ferramentas de escrita expressiva que possam funcionar como válvula de escape. Cruzando dados sobre violência de gênero e sofrimento psíquico,aponta que a raiva funciona como uma resposta de defesa legítima a abusos sofridos. A ficção,permitiria dar vazão a esse sentimento de forma segura.

— A expressão artística oferece uma saída simbólica para que a agressividade,tanto das mulheres quanto dos homens,não cause danos na vida real — diz ela. — Ainda assim,o público se espanta ao se deparar com obras que retratam mulheres violentas porque elas se contrapõem a padrões de comportamento femininos socialmente esperados.

Em seu premiado livro “As homicidas” (Fósforo),que retrata quatro casos reais de mulheres assassinas que chocaram a sociedade,a escritora chilena Alia Trabucco Zerán foca no viés de gênero na percepção do crime. Para a autora,a punição social dessas mulheres funciona quase como um “duplo crime”: elas seriam julgadas tanto por violar a lei quanto por romper com o que se espera de seu gênero. Na mesma linha,a médica Maria Lígia Solssia lamenta que a sociedade costume ser mais tolerante com o sofrimento da mulher do que com sua raiva ou pulsão por justiça:

— Várias autoras e pensadoras contemporâneas,como Rebecca Traister,Lilly Dancyger,Mary Valentis e Anne Devane,fazem excelentes análises sobre como a tristeza é um sentimento muito mais socialmente palatável do que o desejo de reparação — diz.

A atriz Phoebe Waller-Bridge em 'Fleabag' — Foto: Reprodução/Fleabag

Em “Doce fúria”,lançado em 2025 pela Paralela,a americana Sash Bischoff desafia a expectativa de que mulheres só merecem empatia quando são irrepreensíveis. O romance acompanha Lila Crane,uma cineasta que tenta adaptar para o cinema uma obra de F. Scott Fitzgerald sob uma perspectiva feminista,enquanto se vê envolvida numa trama de abuso,manipulação e poder.

— Existe uma intolerância generalizada à nossa raiva,mesmo quando é uma reação legítima ao que nós sofremos coletivamente — diz Sash. — Não há lugar para essa raiva na definição tradicional do que significa ser mulher. Por isso,para que ela exista,precisamos redefinir o que significa ser mulher.

Em determinado momento do livro,Lila fala sobre o desejo de não ser vista como uma mulher que precisa ser salva. Explorando as zonas cinzentas nas dinâmicas de violência,a narrativa traz um dilema familiar a muitas mulheres: escolher ser reconhecida como vítima ou como um ser autônomo. Sash também lança uma reflexão sobre as verdadeiras formas de justiça num mundo cada vez mais dominado por justiceiros e tribunais paralelos nas redes sociais.

— Um leitor pode achar que estou dando uma má fama ao feminismo por causa da minha protagonista,mas nunca foi minha intenção — diz a autora. — O livro quer justamente questionar os estereótipos sobre o feminismo e perguntar o que realmente faz de alguém uma feminista. Para mim,isso tem menos a ver com punir o homem que a feriu e mais com mulheres se unindo para fortalecer outras mulheres.

Com nuance ou radical

Lançado em maio na França e sem previsão de lançamento no Brasil,“Female Rage: la revanche des hystériques dans la pop culture” (“A revanche das histéricas na cultura pop”,em tradução livre),da jornalista Marion Olité,mostra que mulheres violentas sempre estiveram presentes na ficção. E quase sempre foram retratadas da mesma forma: tentadoras,feiticeiras ou antagonistas perigosas. Das figuras mitológicas clássicas às femmes fatales de Hollywood,elas surgem como “fruto de um olhar masculino ao mesmo tempo fascinado e amedrontado pela sexualidade feminina”.

Uma Thurman em 'Kill Bill' — Foto: Divulgação

A grande virada para as mulheres raivosas,segundo a autora,acontece com o movimento #MeToo e com a chamada quarta onda feminista,que teriam legitimado a expressão pública da indignação feminina. A female rage deixou de ser um desvio de comportamento e se transformou numa ferramenta de denúncia. Na carona,artistas acabaram se reapropriando da expressão,que se popularizou a partir de 2020. Filmes como “Bela vingança” (2020) e “A substância” (2024),assim como a série “Fleabag”,seriam um reflexo desse fenômeno.

— Essas novas narrativas mostraram que existem muitas formas de expressar a fúria na arte,seja com nuance,seja com radicalidade — observa Olité. — O fato dessas obras serem identificadas agora com o rótulo de female rage mostra o quanto havia uma demanda reprimida por elas.

Olité abre sua publicação com a frase “Acredito que nasci com raiva”. No Brasil,a escritora Clarah Averbuck dá a seu novo livro o título de “Sim,nós estamos com raiva” (Patuá). A autora começou a publicar ficção no início dos anos 2000 e viveu de forma íntima essa progressiva perda de tabu sobre a raiva feminina. Na coleção de crônicas autobiográficas,ela resgata memórias de juventude,disseca relacionamentos abusivos do passado e expõe um duplo padrão crítico para as mulheres no mercado editorial.

— Minhas personagens sempre foram detestáveis — lembra a autora,que teve sua grande projeção com “Máquina de pinball”,de 2002. — Ali eu já tinha a intenção de criar uma anti-heroína. A reação a ele foi uma loucura,fui xingadíssima,um backlash doido. A sorte do mundo é que escolhemos “apenas” fazer arte. Temos raiva suficiente para explodir tudo.

Tópico Moda: Guia Ultimate para as últimas tendências da moda

Bem -vindo ao nosso guia sobre as últimas tendências da moda! Neste mundo de moda em ritmo acelerado e em constante mudança, pode ser um desafio acompanhar os estilos e tendências mais recentes. Mas não tema, porque o abordamos. De desfiles ao estilo de rua, de grampos clássicos a designers emergentes, nosso guia abrangente fornecerá tudo o que você precisa saber para navegar no emocionante mundo da moda. Vamos embarcar nessa jornada de alfaiataria juntos e descobrir como você pode abraçar sem esforço as últimas tendências da moda!