
Lula e Ricardo Couto exibem termo de adesão do Rio ao Propag — Foto: Gabriel de Paiva / Agência O Globo
GERADO EM: 26/06/2026 - 20:02
O Irineu é a iniciativa do GLOBO para oferecer aplicações de inteligência artificial aos leitores. Toda a produção de conteúdo com o uso do Irineu é supervisionada por jornalistas.
CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO
Há momentos em que um governo parece condenado a apenas administrar a decadência. O Rio de Janeiro viveu boa parte das últimas décadas sob essa sensação. Crises fiscais,sucessivos escândalos políticos,estruturas administrativas inchadas,disputas de poder e uma população cada vez mais descrente na capacidade do Estado de entregar resultados. Por isso,a passagem de Ricardo Couto pelo Palácio Guanabara tem provocado algo raro: um choque de gestão que muitos classificam como surpreendentemente “apolítico”.
Quem ganha mais? Qual é a profissão mais bem paga no seu estado?
Em pouco mais de três meses,o governador interino passou a ocupar o centro do debate público não por grandes discursos ou projetos eleitorais,mas pela atuação cirúrgica sobre a máquina estatal. Exonerações em massa,auditorias internas,revisão de contratos,redução de estruturas administrativas e um discurso centrado na recuperação da capacidade operacional do Estado passaram a dominar a agenda fluminense.
Judiciário: Ministros do STF apresentam voto conjunto para liberar parte do pagamento de penduricalhos
Talvez chame mais a atenção que Couto tenha encontrado uma estrutura parlamentar cuja influência sobre áreas estratégicas do governo havia se consolidado ao longo de décadas. Não se trata de arranjo exclusivo do Rio. Governos dependem de maioria legislativa para governar. No entanto,no caso fluminense,a ocupação de cargos comissionados e a influência sobre secretarias e órgãos da administração direta e indireta atingiram níveis que frequentemente ultrapassavam a lógica administrativa e passavam a integrar a própria engenharia política do poder.


As auditorias promovidas pela atual gestão revelaram estruturas consideradas excessivamente inchadas. Mais de 3 mil exonerações já aconteceram desde março,atingindo praticamente todas as secretarias estaduais. Somente na Casa Civil e na Secretaria de Governo,duas das pastas mais influentes dos últimos anos,centenas de cargos foram eliminados. Estimativas divulgadas pelo próprio governo apontam para uma economia superior a R$ 200 milhões até o fim de 2026,com potencial de impacto ainda maior nos exercícios seguintes. Ao mesmo tempo,programas como o Segurança Presente passaram a ser revisados para reduzir critérios de expansão associados a interesses políticos locais e priorizar indicadores técnicos.
Os desafios,entretanto,permanecem enormes. A relação entre Executivo e Assembleia Legislativa segue marcada por desconfiança e disputas de espaço. Setores políticos que perderam influência resistem ao enxugamento. Ainda assim,boa parte das medidas administrativas implementadas até aqui depende apenas do Poder Executivo,permitindo que a reestruturação avance mesmo diante de um ambiente político hostil.
Paralelamente,Couto tenta construir pontes com Brasília. O governo estadual intensificou negociações com a União para viabilizar investimentos,ampliar margens fiscais e defender os interesses fluminenses na discussão sobre a divisão dos royalties do petróleo. Também foram iniciados estudos técnicos voltados à recuperação dos sistemas de trem e metrô,historicamente marcados por problemas de gestão e falta de investimentos. Na educação,medidas como a ampliação da carga horária de professores e novos concursos públicos buscam recompor áreas estratégicas que sofreram anos de desgaste.
Tudo isso ocorre em meio ao delicado processo de recuperação fiscal do estado. A credibilidade da máquina pública,abalada por sucessivas crises,talvez seja hoje um ativo tão importante quanto qualquer indicador econômico.
Independentemente das preferências políticas de cada cidadão,existe um fato difícil de ignorar: o próximo governador encontrará um cenário potencialmente diferente daquele herdado por muitos de seus antecessores. Se a atual agenda de reorganização for mantida,o Rio poderá iniciar um novo ciclo administrativo sem parte das pesadas heranças que durante anos limitaram a capacidade de ação dos governos estaduais.
O dever de casa ainda está longe de concluído. Mas,pela primeira vez em muito tempo,há sinais de que alguém decidiu enfrentar as engrenagens do problema em vez de apenas administrar suas consequências.
*Marlon Cecilio de Souza é mestre em economia e especialista em política e sociedade

© Hotspots da moda portuguesa política de Privacidade Contate-nos