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Do galpão ao arranha-céu: por que as baladas estão se verticalizando em São Paulo

Cidade de São Paulo vive verticalização da vida noturna — Foto: edilson dantas

RESUMO

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GERADO EM: 06/06/2026 - 17:21

Festas e Bares de SP Sobem aos Arranha-Céus em Busca de Silêncio e Vista

A vida noturna de São Paulo está se "verticalizando",com festas e bares mudando-se para edifícios altos devido a mudanças urbanas e fiscalização do PSIU. Problemas com poluição sonora têm levado empresários a adaptar espaços em arranha-céus para oferecer segurança e vistas panorâmicas,como o Ephigenia no 22º andar e o Iccarus no 43º. Apesar dos custos,a experiência de contemplar a cidade atrai muitos frequentadores.

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Mesmo após os escritórios e estúdios fecharem no Edifício Fernão Dias,no centro histórico de São Paulo,um time de ascensoristas permanece de plantão até a madrugada. A missão é simples: levar clientes do térreo ao 22º andar,onde funciona a balada Ephigenia. Em um cenário que tem se tornado cada vez mais comum,a cena ilustra uma transformação da noite paulistana: as festas deixaram os galpões e imóveis térreos para ocupar os andares mais altos da cidade.

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Se no passado a cidade ficou conhecida pelo fluxo de pessoas e eventos que tomava as ruas da capital,como ocorria na Rua Augusta e na Praça Roosevelt,atualmente a cidade vive um movimento de "verticalização" da vida noturna.

Exemplos recentes incluem edifícios históricos da cidade,como o Martinelli,primeiro arranha-céu da capital que ganhou uma balada em seu 25º andar; o bar Matiz,que opera no 11º andar do Edifício Carlos Rusca; e o Iccarus,o mais recente deles,lançado oficialmente ao público este ano e instalado no 43º andar do Mirante do Vale. Do topo de um desses edifícios,é possível avistar o outro.

Ephigenia,balada no 22º andar do Edifício Fernão Dias,no Centro Histórico de São Paulo — Foto: Edilson Dantas

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A decisão de levar as festas para o alto dos prédios passa por uma série de fatores. Há questões relacionadas à segurança,por se tratar de ambientes mais controlados; o diferencial de oferecer uma vista panorâmica da cidade; e um dos fatores mais relevantes para o setor: os impactos da Lei do PSIU.

A legislação,que fiscaliza a poluição sonora em locais de uso não residencial,tem se tornado uma preocupação constante para estabelecimentos voltados ao público da madrugada. As multas podem variar de R$ 12 mil a R$ 36 mil.

Somente no primeiro semestre deste ano,de acordo com dados da Prefeitura de São Paulo,houve 12.848 solicitações de acionamento do programa. O número é 18% maior do que o registrado no mesmo período do ano passado,quando foram contabilizadas 10.901 ocorrências.

As reclamações estão espalhadas por toda a cidade,mas se concentram principalmente em bairros como Consolação,Pinheiros,Liberdade e República,regiões tradicionalmente associadas à vida noturna.

Nesse cenário,em que foi preciso subir para continuar funcionando madrugada adentro,o empresário Lucas Amorim,sócio da Ephigenia e da Iccarus,explica que a Ephigenia precisou passar por uma série de adaptações acústicas para atravessar a noite. No sistema conhecido como Box in Box (caixa dentro de caixa),o isolamento sonoro da casa conta com piso flutuante apoiado sobre mantas acústicas,paredes duplas e teto suspenso.

Mesmo com os investimentos,o empresário critica a ausência de uma política urbana voltada à convivência entre moradia e entretenimento.

— A questão do PSIU envolve um problema um pouco mais profundo,que é talvez a falta de um plano diretor mais bem definido. São Paulo tem uma vida noturna incrível,comparada à de várias cidades do mundo. Muitas vezes a gente chega a uma região degradada,consegue revitalizá-la e,depois,começam a surgir prédios ao redor. Em muitos casos,as construtoras não instalam sequer janelas acústicas,mesmo sabendo que ali já existia um estabelecimento que gera mais barulho — afirmou.

Ingressos para casas instaladas nos andares mais altos da cidade variam de R$ 25 a mais de R$ 120 — Foto: Edilson Dantas

Se para os empresários a mudança atende a questões operacionais e regulatórias,para parte do público o principal atrativo continua sendo a vista. O analista de sistemas Lucas Bresanil,de 26 anos,morador de Bauru,estava na Ephigenia na última quinta-feira e planejava seguir a noite em outros endereços elevados da capital,incluindo a Iccarus e o Martinelli.

— Eu sou do interior e lá não existe essa quantidade de prédios. Acho incrível olhar a cidade de cima,ver toda essa paisagem iluminada. É uma experiência diferente. Você pode estar em uma balada comum,mas,quando está em um arranha-céu,existe essa sensação de contemplar a cidade — disse.

A experiência,porém,tem seu preço. Dependendo da festa,os ingressos para casas instaladas nos andares mais altos da cidade variam de R$ 25 a mais de R$ 120. Enquanto a reportagem deixava a balada na última quarta-feira,um grupo de amigos parados na entrada questionou e valia gastar R$360 (um ingresso para casa) para aproveitar o restante da noite.

Endurecimento

A tendência de ocupar os céus da cidade avança justamente no momento em que a Prefeitura de São Paulo busca endurecer as regras de fiscalização do ruído urbano. Encaminhado à Câmara Municipal no mês passado,um projeto de lei amplia os poderes do Programa de Silêncio Urbano (PSIU) e cria novos mecanismos de fiscalização.

A proposta prevê o fechamento imediato de estabelecimentos envolvidos em atividades ilícitas,amplia a fiscalização para imóveis residenciais,cria blitz ostensivas do PSIU e estabelece regras para obras com barulho excessivo,especialmente durante a noite.

Entre os principais pontos está a possibilidade de interdição imediata de estabelecimentos flagrados em situações relacionadas à criminalidade ou a contravenções,como exploração de máquinas caça-níqueis ou venda de bebidas sem nota fiscal.

Pela proposta,a interdição poderá ocorrer a partir da constatação da Guarda Civil Metropolitana ou de autoridades policiais. O projeto ainda será analisado pelo plenário da Câmara Municipal.

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