
A Lua alaranjada surge sobre as torres da Igreja de Nossa Senhora da Penha,no Rio,um dos alinhamentos mais disputados por fotógrafos que 'caçam' a Lua na cidade — Foto: Arte do GLOBO sobre foto de Bruno Gargaglione
Há meses,os amigos Bruno Gargaglione,de 45 anos,e Marcelo Samuel,de 52,acompanhavam por um aplicativo de geolocalização o movimento da Lua e procuravam o ponto exato do Rio de onde conseguiriam fotografá-la alinhada às torres gêmeas da Igreja da Penha. Nesta segunda-feira,a equipe do GLOBO,capitaneada pelo fotógrafo Custódio Coimbra,foi até a Ponte Velha do Galeão,na Zona Norte,para acompanhá-los nessa “caçada”. A reportagem chegou ao local por volta das 20h30,quando uma névoa ainda encobria o satélite natural. Por lá,havia quem tivesse os olhos voltados para o mar e quem apontasse as lentes para o céu. Naquela noite,pescadores e fotógrafos estavam atrás de seus próprios troféus.
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Atentos à água e aos peixes que eram içados pelas varas,em longas linhas lançadas sobre a Baía de Guanabara,os pescadores olhavam curiosos para as câmeras suntuosas apoiadas em tripés. Gargaglione e Samuel,por sua vez,dividiam a atenção entre o que dizia o aplicativo e a direção em que a Lua,alaranjada e em quarto crescente,deveria se por no horizonte,exatamente no alinhamento com o templo. Um vento forte cortava a ponte. Para os fotógrafos,era uma esperança de que as nuvens fossem levadas para longe.

Bruno Gargaglione (à esq.) e Marcelo Samuel fotografam a Lua na Ponte Velha do Galeão,na Zona Norte do Rio — Foto: Custódio Coimbra
Faltavam cerca de 20 minutos para o horário previsto quando a Lua começou,aos poucos,a aparecer cada vez mais intensa. Os equipamentos haviam sido montados pouco antes,com menos de uma hora de antecedência.
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Dez minutos antes do momento planejado com rigor matemático,Gargaglione acionou o time-lapse da câmera,uma técnica de vídeo que junta várias fotos tiradas em um mesmo lugar com intervalos regulares de tempo,enquanto Samuel andava de um lado para o outro com o tripé em busca do ângulo perfeito. A partir dali,cada minuto importava.
O relógio avançava. A névoa já não existia. E,por alguns instantes,a única tarefa dos dois era esperar que os cálculos finalmente se confirmassem. Na hora marcada,22h14,lá estava o satélite encontrando a silhueta da igreja,numa troca para lá de emocionante entre a natureza e uma obra humana cravada no alto do morro.
Veja alguns dos resultados a seguir:

Duas versões do mesmo alinhamento,feitas na mesma noite: à esquerda,registro de Marcelo Samuel; à direita,de Bruno Gargaglione — cada um com o próprio olhar sobre o encontro da Lua com as torres da Igreja da Penha,no Rio — Foto: Bruno Gargaglione e Marcelo Samuel
Para quem vê a fotografia pronta,o resultado pode parecer um daqueles acasos perfeitos: a Lua enorme,no lugar certo,atrás de um cenário conhecido da cidade. Para quem está do outro lado da câmera,porém,a imagem é resultado de planejamento,cálculos matemáticos nos aplicativos,deslocamentos e muitas tentativas que não dão certo.
Gargaglione trabalha em uma empresa de tecnologia da informação e persegue a Lua há seis anos. Nesse período,passou a procurar diferentes pontos do Rio e de outras cidades onde o satélite pudesse se encaixar em igrejas,monumentos e outros elementos da paisagem. O grupo de fotógrafos do qual faz parte com Samuel nasceu de encontros ocasionais nas ruas e do interesse em comum pelo tema,e costuma organizar ao menos duas saídas por mês.

Uma lua para cada um. Gargaglione e Samuel viraram amigos em razão do hobbie compartilhado — Foto: Custódio Coimbra
A Igreja da Penha entrou mais recentemente na lista.
— É um posicionamento bastante difícil. Foram cerca de um ano de tentativas e,há aproximadamente um mês,consegui o encaixe perfeito da Lua entre as duas torres — contou.
A busca foi tão precisa que ele passou a conversar com o padre Sardinha,um dos sacerdotes da Igreja da Penha,e,quando possível,a pedir mudanças nas luzes que iluminam as torres para favorecer o registro.
O resultado não é,para ele,uma fotografia feita para colecionar curtidas ou vendas,por mais que publique nas redes sociais ou comercialize alguns dos trabalhos.
— Não faço para viralizar ou ganhar dinheiro,não é esse o objetivo — disse Gargaglione,acrescentando que a atividade,como um todo,acabou se tornando uma maneira de treinar o próprio olhar e liberar a tensão do dia a dia: — Sempre tem uma coisa diferente por aí. É uma terapia,uma válvula de escape mesmo. Me sinto realizado quando tudo dá certo.
Já Samuel é empresário e fotografa informalmente há três décadas. Cerca de dez anos atrás,durante uma viagem ao Pantanal com um amigo,apaixonou-se pela fotografia de vida selvagem. A Lua entrou em sua rotina depois,justamente quando encontrou Gargaglione. A busca pelo enquadramento perfeito tem algo de vício,compara Samuel:
— É como se eu estivesse tomando uma cachaça. É uma realização.
Hoje,eles brincam que praticamente carregam um calendário lunar na cabeça.
A obsessão por encontrar no céu um enquadramento que transforme a cena carioca em fotografia não começou de agora — tampouco a Igreja da Penha é uma descoberta recente. Fotógrafo há 47 anos,36 deles no GLOBO,Custódio acompanhou a noite na Ponte Velha do Galeão como quem reconhece o próprio ofício sendo repetido por outra geração: ele também passou décadas perseguindo a combinação entre a Lua e os cartões-postais da cidade,e foi justamente atrás das torres da igreja da Zona Norte que viveu uma de suas "caçadas" mais lembradas.
Em 2010,ele chegou "em cima do lance" para fotografar a Lua cheia sobre a Igreja da Penha. Era a sua terceira tentativa,lembra. Para conseguir chegar ao ponto de onde faria o registro,cruzou a Linha Vermelha a pé,pela manhã,desviando dos carros e clicando pelo caminho.

A Lua cheia pousa sobre as torres da Igreja da Penha em foto de Custódio Coimbra,fotógrafo do GLOBO,feita em 2010 — Foto: Custódio Coimbra/Agência O Globo
É dele também a primeira foto de uma Lua colada ao Cristo Redentor,publicada em 1997,às vésperas da visita do Papa João Paulo II ao Rio. A imagem que se tornou uma espécie de marco para quem viria a repetir a busca anos depois,como Gargaglione e Samuel.
Como os dois fotógrafos mais jovens,Custódio também sabe que a paisagem lunar não se repete: o mesmo monumento pode ser visitado dezenas de vezes até que a posição do satélite,as condições do céu e a perspectiva finalmente se encaixem na imagem procurada.
— O barato é que nunca sai a mesma foto. Gosto de fotografar em repetição. Sempre tem algo diferente — diz.
Nas quase cinco décadas clicando o Rio,ele confessa que a vida da metrópole moldou o seu olhar:
— Essa cidade me construiu como fotógrafo. Você precisa observar e entrar na rotina para conseguir levar isso para a foto.


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A visão privilegiada de quem acorda cedo para pescar na Baía de Guanabara — Foto: Custodio Coimbra/Agência O Globo


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Caminhada matinal no calçadão de Copacabana — Foto: Custodio Coimbra/Agência O Globo
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Porto do Rio e,ao fundo,a Ponte Rio-Niterói — Foto: Custodio Coimbra/Agência O Globo

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Pessoas atravessam passarela da Avenida Brasil — Foto: Custodio Coimbra/Agência O Globo
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A silhueta dos prédios do Centro ao nascer do sol— Foto: Coimbra/Agência O Globo

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Amanhecer no do Rio de Janeiro é um festival de cores — Foto: Coimbra/Agência O Globo
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Ciclista no Aterro do Flamengo — Foto: Custodio Coimbra/Agência O Globo

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O Cristo visto ao longe,sobre as nuvens — Foto: Coimbra/Agência O Globo
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Um passeio na praia com o melhor amigo — Foto: Custodio Coimbra/Agência O Globo

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No Rio,ninguém se arrepende de acordar cedo para praticar esportes no Aterro do Flamengo — Foto: Custodio Coimbra/Agência O Globo
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Não importa o céu: o Rio é de beleza ímpar — Foto: Coimbra/Agência O Globo

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Muitas cores no céu da Cidade Maravilhosa — Foto: Coimbra/Agência O
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Amanhecer na Vista Chinesa — Foto: Custodio Coimbra/Agência O Globo

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Biguá caça desjejum na Lagoa Rodrigo de Freitas — Foto: Coimbra/Agência O Globo
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O Aterro e a Praia do Flamengo no nascer do dia — Foto: Coimbra/Agência O Globo

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Beleza no céu,na terra e no mar — Foto: Custodio Coimbra/Agência O Globo
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Grupo saúda o sol na Praia do Diabo,no Arpoador,Zona Sul do Rio — Foto: Custodio Coimbra/Agência O Globo

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Amigos contemplam o nascer do sol no Recreio dos Bandeirantes,Zona Oeste — Foto: Custodio Coimbra/Agência O Globo
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Barcos atracados na Praia de Botafogo compõe a paisagem do Aterro — Foto: Custodio Coimbra/Agência O Globo

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O Rio de Janeiro visto do alto do Corcovado — Foto: Custodio Coimbra/Agência O Globo
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Carioca assiste ao nascer do sol no Aterro do Flamengo enquanto avião cruza o céu — Foto: Custodio Coimbra/Agência O Globo

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Centro do Rio de Janeiro ao receber os primeiros raios de luz do dia — Foto: Custodio Coimbra/Agência O Globo
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