
A solidão que ninguém vê: por que ela também afeta quem está em um relacionamento — Foto: Magnific
A solidão deixou de ser vista apenas como um sentimento passageiro e passou a ocupar espaço nas discussões sobre saúde pública. Em 2023,a Organização Mundial da Saúde (OMS) classificou o isolamento social e a solidão como um problema global,diante de evidências que associam essa condição ao aumento do risco de doenças físicas e mentais. O alerta,no entanto,vai além de quem mora sozinho ou não está em um relacionamento. Especialistas chamam atenção para um fenômeno cada vez mais comum: sentir-se sozinho mesmo dividindo a vida com um parceiro.
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Para Alessandro Vianna,psicólogo clínico especializado em relacionamentos e autor do livro "Casal Nota 10",a solidão não se resume à ausência de companhia,mas à falta de conexão emocional.
"Ela não é apenas uma ausência física de pessoas; é uma fome de conexão real. O que a ciência chama de 'solidão crônica' atua no corpo de forma destrutiva. O ser humano é biologicamente programado para viver em grupo,e a falta desse vínculo pode desencadear diferentes problemas de saúde",afirma.
Embora a tecnologia tenha ampliado as possibilidades de comunicação,ela também transformou a forma como os vínculos são construídos e mantidos. Redes sociais e aplicativos de relacionamento,por exemplo,passaram a influenciar expectativas e comportamentos afetivos.
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"Os aplicativos criaram a sensação de que sempre existe uma nova opção disponível. Quando a relação exige esforço ou enfrenta dificuldades,muitas pessoas tendem a buscar uma substituição em vez de investir na reconstrução do vínculo",observa.
Quando a companhia não evita a solidão
A sensação de desconexão dentro de um relacionamento pode ser ainda mais difícil de enfrentar do que a vivida por quem está solteiro. Isso porque a expectativa de acolhimento e intimidade torna a distância emocional mais evidente.
Segundo o psicólogo,a percepção de isolamento é interpretada pelo cérebro como uma ameaça,ativando mecanismos ligados ao estresse. Com o tempo,esse estado contínuo pode provocar alterações no sistema imunológico,favorecer processos inflamatórios e aumentar o risco de doenças cardiovasculares,além de impactar a saúde mental.
Outro aspecto apontado pelo especialista é a maneira como as redes sociais influenciam as relações. Apesar do acesso constante à rotina de outras pessoas,nem sempre há espaço para conversas profundas ou demonstrações de vulnerabilidade.
"Nunca tivemos tantas informações sobre a vida alheia e,ao mesmo tempo,tão poucos momentos de conexão genuína. Muitas relações acabam se sustentando mais pela aparência do que pela intimidade",diz.
Para ele,essa lógica também alimenta a busca por resultados imediatos. Em vez de compreender que a construção de confiança exige tempo,muitos casais esperam que segurança e felicidade aconteçam de forma instantânea,o que pode tornar os vínculos mais frágeis diante dos primeiros conflitos.
A rotina também afasta
A psicóloga Rachel Sette avalia que a desconexão entre casais costuma ser resultado de diferentes fatores,entre eles a sobrecarga da rotina,o uso excessivo da tecnologia e a redução dos momentos de convivência.
"Em vez de conversarem sobre o dia,muitos casais terminam a noite cada um mergulhado na própria tela. Aos poucos,deixam de compartilhar sentimentos,preocupações e planos. Quando a comunicação passa a girar apenas em torno da organização da casa,das contas ou dos filhos,a relação corre o risco de se transformar apenas em uma parceria funcional",explica.
Ela destaca ainda que o cansaço acumulado contribui para esse cenário. Depois de jornadas intensas de trabalho,muitas pessoas chegam ao fim do dia sem energia para investir na relação,o que favorece o acúmulo de pequenas frustrações que,com o tempo,criam distanciamento.
Os sinais de alerta
Estar junto não significa,necessariamente,sentir-se acompanhado. Para Alessandro,um dos principais indícios de que o relacionamento perdeu a conexão emocional é quando o casal permanece unido apenas pelo medo da separação,pela rotina ou pelas responsabilidades compartilhadas.
"O casal mantém a estrutura da vida em comum,mas deixa de construir intimidade. É comum estar fisicamente presente e,emocionalmente indisponível. Muitas pessoas descobrem que se sentem mais sozinhas ao lado do parceiro do que quando estão realmente desacompanhadas",observa.
Rachel acrescenta que esse tipo de solidão costuma ser invisível. A pessoa pode ter uma vida social ativa,milhares de seguidores nas redes sociais e dividir a casa com alguém,mas não encontrar um espaço seguro para demonstrar fragilidades:
"A ausência de relações em que seja possível mostrar vulnerabilidade sem medo do julgamento contribui para o aumento de quadros de ansiedade,depressão e esgotamento emocional."
O diálogo como ponto de partida
Para os especialistas,recuperar a conexão exige disposição para rever a dinâmica do relacionamento. Conversas sobre expectativas,frustrações e divisão de responsabilidades ajudam a reduzir ressentimentos e fortalecem a parceria.
Rachel chama atenção,especialmente,para a sobrecarga enfrentada por muitas mulheres,que frequentemente acumulam trabalho,cuidados com a casa e responsabilidades com os filhos.
"É importante transformar a divisão de tarefas em um acordo de parceria,e não em uma cobrança permanente. Também é preciso abrir espaço para que cada um assuma responsabilidades de forma efetiva. Quando uma pessoa centraliza tudo,a mudança na dinâmica se torna muito mais difícil",pontua.
O impacto na vida sexual
A qualidade da conexão emocional também costuma se refletir na intimidade do casal. Para Rachel,o sexo dificilmente resolve problemas de relacionamento quando falta diálogo e proximidade afetiva.
"Sem intimidade emocional,a relação sexual pode se tornar mecânica ou parecer apenas uma obrigação. Nesses casos,a sensação de vazio pode permanecer mesmo após o contato físico",esclarece.
Por outro lado,quando existe confiança e abertura para a vulnerabilidade,a sexualidade pode fortalecer o vínculo. "A intimidade física favorece a liberação de ocitocina,hormônio associado ao apego,reduz os níveis de estresse e ajuda a reconstruir a sensação de cumplicidade",conclui.

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