
A creatina — Foto: Freepik
GERADO EM: 24/07/2026 - 17:21
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Durante anos,a creatina morou no armário dos frequentadores de academia. Era o pó associado a músculos maiores e treinos mais intensos. Agora,ela mudou de endereço. Chegou às mesas de executivos,aos consultórios de longevidade e às redes sociais com uma promessa ainda mais sedutora: melhorar a memória,proteger o cérebro e ajudar a pensar quando o sono falta. A pergunta é inevitável: estamos diante de uma descoberta importante ou de mais um suplemento promovido antes de a ciência terminar a frase? A resposta mais honesta é: talvez haja algo real ali,mas ainda não na proporção vendida pela internet.
A creatina participa de um dos sistemas de energia mais rápidos do organismo. Ela ajuda as células a reciclar ATP,a molécula usada como combustível. Isso é importante no músculo,mas também no cérebro,um órgão pequeno em tamanho e voraz em energia. Quando a demanda aumenta ou a reserva diminui,como pode ocorrer no envelhecimento,na privação de sono ou em dietas com poucos alimentos de origem animal,a creatina passou a ser estudada como possível aliada da função mental.
Os resultados são interessantes. Uma meta-análise de ensaios clínicos encontrou pequena melhora da memória em pessoas saudáveis. Quando os pesquisadores separaram os participantes por idade,apareceu uma diferença importante: o efeito foi mais evidente entre adultos mais velhos e praticamente inexistente entre os jovens.
Em outros estudos,a creatina mostrou sinais de melhora em memória de curto prazo,raciocínio e algumas tarefas de atenção. Mas os resultados para função executiva,tempo de reação,fadiga mental e memória de longo prazo foram inconsistentes. O maior ensaio randomizado até agora,com 123 participantes usando 5 g por dia durante seis semanas,encontrou no máximo um benefício pequeno e limítrofe em um teste de memória de trabalho,sem melhora significativa em outro teste de raciocínio.
Ou seja,a creatina pode ajudar determinados cérebros,em certas circunstâncias. Ainda não há evidência de que deixe alguém mais inteligente,aumente o foco ou proteja contra a demência.
Um dos estudos mais comentados avaliou participantes submetidos a 21 horas de privação de sono. Uma dose única e elevada de creatina reduziu parte da piora cognitiva provocada pela noite em claro. O resultado é fascinante,mas exige cautela. O estudo foi pequeno,experimental e utilizou uma dose muito superior às 3 ou 5 g consumidas habitualmente. A creatina pode ter diminuído o preço cognitivo de uma noite sem dormir. Não transformou a privação de sono em prática segura.
Também há interesse em vegetarianos,que tendem a ingerir menos creatina pela alimentação,e em idosos,grupo no qual a reserva energética pode ser mais vulnerável. Ainda assim,os estudos não são uniformes. Comparar esses trabalhos é como tentar medir a mesma paisagem com réguas diferentes.
Há ainda uma distância importante entre melhorar o resultado em um teste e produzir uma mudança relevante na vida real. Memorizar alguns números a mais em laboratório não é o mesmo que evitar esquecimentos cotidianos,manter autonomia ou prevenir doença neurológica. Esse salto ainda não foi demonstrado.
A creatina tem uma vantagem sobre muitos suplementos da moda: é amplamente estudada e apresenta boa segurança para a maioria nas doses habituais. Mas isso não significa uso indiscriminado. Pessoas com doença renal,gestantes,crianças ou pacientes em tratamento contínuo devem discutir a suplementação com um profissional.
Talvez a creatina tenha mais a oferecer ao cérebro do que imaginávamos. Mas,por enquanto,deve ser vista como uma possibilidade promissora.

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