
Paraty preparada para a Flip,que começa nesta quarta-feira (22) — Foto: Alexandre Cassiano
A 24ª edição do evento homenageia a poeta Orides Fontela e expande sua programação paralela para 46 casas parceiras,que receberão convidados de destaque como a filósofa americana Angela Davis. A programação principal destaca debates de relevância social e política,incluindo discussões sobre a democracia brasileira com a ministra Cármen Lúcia e reflexões sobre regimes autoritários com Milton Hatoum. O Irineu é a iniciativa do GLOBO para oferecer aplicações de inteligência artificial aos leitores. Toda a produção de conteúdo com o uso do Irineu é supervisionada por jornalistas.
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A 24ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) começa nesta quarta-feira (22) com homenagem à poeta Orides Fontela (1940-1998) e um elenco repleto de de autores que se movem numa espécie de “entrelugar” (para citar um conceito do crítico literário Silviano Santiago). Cerca de um terço dos 38 autores esperados Em Paraty não vivem mais nos países onde nasceram e transformaram seus deslocamentos e a condição de estrangeiros permanentes em matéria-prima literária.
Convidada da Flip: Nathacha Appanah aborda feminicídios e a própria trajetória em livro,mas não acredita na justiça da literaturaJosé Tolentino Mendonça: Cardeal poeta que vem à Flip é fã de Rosalía e dialoga com Pasolini e Patti Smith para pensar a fé
É o caso de nomes como o argelino Kamel Daoud,que escreveu o romance “Língua interior” para elaborar o trauma da guerra civil que devastou seu país na década de 1990 e precisou se exilar na França (explorar as “feridas da tragédia nacional” é proibido por lei na Argélia); Eduardo Halfon,guatemalteco descendente de judeus poloneses que cresceu em Miami,mas voltou ao espanhol quando se pôs a escrever ficção e hoje vive em Berlim; e Ève Guerra,que aos 9 anos escapou da guerra civil no Congo e também mora na França. Outras estrelas da festa são filhos da imigração,como a nipo-americana Katie Kitamura e Zadie Smith,britânica de mãe jamaicana que trabalha a herança colonial em suas obras.
Célebre por trazer a nata da literatura estrangeira a Paraty,a Flip está cada vez mais brasileira. Na programação deste ano,chama a atenção a presença tanto de autores nacionais festejados pelo público,como Milton Hatoum,Andréa del Fuego,Paulliny Tort,o médico Drauzio Varella e a ministra do Supremo Tribunal Federal Cármen Lúcia. O programa principal do evento também destaca nomes em franca ascensão,como a baiana Bethânia Pires Amaro,autora do recém-lançado romance “Ressalga”,e a amazonense Susy Freitas,cujo “No baile do juízo final” apresenta uma Manaus vibrante e cheia de tesão.
Este ano,a programação paralela cresceu ainda mais: serão 46 casas parceiras que vão receber autores como a filósofa americana Angela Davis,o português Valter Hugo Mãe e as best-sellers Socorro Acioli e Carla Madeira.
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Quarta-feira,22/7,às 19h30
Mesa 1: “entra furtivamente a luz”,com Augusto Massi e Marília Garcia.
O crítico literário Augusto Massi,amigo e editor de Orides Fontela,divide a mesa com a poeta e ensaísta Marília Garcia. Massi discorrerá sobre a obra de Orides e Garcia fará leitura performática de um poema encomendado especialmente para a abertura da 24ª Flip.
Quinta-feira,23/7,às 10h
Mesa 2: “saber de cor o silêncio”,com Edimilson de Almeida Pereira e José Tolentino de Mendonça.
Poetas de uma mesma geração,donos de obra vasta e ambos detentores de grande erudição,o português José Tolentino Mendonça e o brasileiro Edimilson de Almeida Pereira conversam sobre linguagem poética,enigma e identidade.
Quinta-feira,às 12h
Mesa 3: “não vim. não vi. não havia guerra alguma”,com Andrei Kurkov e Maria Reva.
Como narrar o que se viu e o que não se viu mas que está acontecendo? Maria Reva,escritora canadense de origem ucraniana,conversa com o escritor Andrei Kurkov sobre seus livros que,por caminhos distintos (ela,em romance engenhoso e bem-humorado; ele,em diários),tratam da guerra da Ucrânia e do dilema ético que acompanha narrativas de conflitos de grande dimensão.
Quinta-feira,às 15h
Mesa 4: “mas para que serve o pássaro? o pássaro não serve”,com Andréa del Fuego e Paulliny Tort.
Duas das mais inventivas ficcionistas brasileiras da atualidade se encontram para conversar sobre seus livros,sobre a capacidade de fabulação e a função da literatura.
Quinta-feira,às 17h
Mesa 5: “a infância volta devagarinho”,com Andrea Bajani e Maria Esther Maciel.
Dois grandes escritores,um italiano e uma brasileira,se reúnem para conversar sobre seus romances em que questionam o amor compulsório dos filhos por seus pais e revisam a relação familiar.
Quinta-feira,às 19h
Mesa 6: “falo do que impede o sono”,com Djaimilia Pereira de Almeida e Kamel Daoud.
Vencedor do Goncourt 2024,Kamel Daoud e a premiada escritora luso-angolana Djaimilia Pereira de Almeida,autora de Luanda,Lisboa,Paraíso,conversam sobre a construção de seus romances e também sobre esquecimento,luto e dever de memória.
Quinta-feira,às 21h
Mesa 7: “do livro ao palco: Dalton,que tinha um cachorro”,com Denise Stoklos.
Espetáculo inspirado na obra de Dalton Trevisan,com direção de Alessandra Maestrini. A apresentação marca a estreia do espetáculo.
Sexta-feira,24/7,às 10h
Mesa 8: “água parada água parada água parando”,com Carmen Stephan e Drauzio Varella.
Uma conversa sobre escrita,doenças tropicais,medicina,vida e morte. Carmen Stephan,escritora alemã que escreveu um romance sobre a malária (narrado pelo mosquito transmissor),e o renomado escritor e médico Drauzio Varella,autor de,entre outros livros,O médico doente,em que trata do momento em que contraiu febre amarela e esteve à beira da morte.
Sexta-feira,às 12h
Mesa 9 (Zé Kleber): “a severa arquitetura serenamente prende-nos”,com José Godoy e Solano Benítez.
De que modo se habita um espaço? A serviço de quem está o uso que se faz de um determinado lugar? Como esse habitar pode estar a serviço da vida ou de políticas repressivas? Esta mesa reúne dois latino-americanos,um arquiteto paraguaio e um jornalista brasileiro,para debaterem diferentes formas de ocupar o espaço. Se José Godoy relata suas descobertas sobre a Ilha Dawson,território chileno que foi usado para extermínio de indígenas e,décadas depois,sob o governo Pinochet,para tortura e encarceramento de dissidentes políticos,Benítez fala de sua experiência como inventor de espaços que reivindicam estreita relação com a natureza e respeito às populações locais.
Sexta-feira,às 13h30
Mesa 10: “estado de sítio,estado de sido,estase”,com Cármen Lúcia.
A ministra do Supremo Tribunal Federal fala de seu recém-lançado livro Pela mão do povo - Democracia e voto no Brasil,bem como dos recentes ataques à democracia brasileira.
Sexta-feira,às 15h
Mesa 11: “como revelar-te se me revelas?”,com Flávia Péret e Julieta Correa.
A conversa reúne uma escritora mineira e uma escritora argentina para falar de seus livros,que,enquanto refletem sobre a relação entre neta e avó,e mãe e filha,narram,de forma delicada e bem-humorada,o processo de adoecimento por demência de mulheres de sua família.
Sexta-feira,às 17h
Mesa 12: “e perdura. apesar”,com Bethânia Pires Amaro e Nathacha Appanah.
Duas escritoras,uma brasileira e uma franco-mauriciana,conversam sobre seus livros que têm protagonistas mulheres. Em comum,seus livros revelam inúmeras formas de violência a que são submetidas suas personagens. Ganhadora do Femina 2025 com um dos romances de maiorrepercussão no ano passado na França,Nathacha Appanah se encontra com Bethânia Pires Amaro,que recebeu o Jabuti (Contos) em 2024.
Sexta-feira,às 19h
Mesa 13: “o tecido: não sabemos qual a trama”,com Katie Kitamura e Marta Pérez-Carbonell.
Até onde acreditar no que se lê? Em que medida se pode narrar a vida do outro sem se preocupar com as consequências dessa decisão? As romancistas Katie Kitamura e Marta Pérez-Carbonell conversam sobre narradores pouco confiáveis,histórias que desestabilizam leitores e o efeito ilusório que a ficção pode trazer.
Sábado,25/7,às 10h
Mesa 14: “a saída é a volta”,com Eduardo Halfon e Paloma Vidal.
A mesa reúne um escritor guatemalteco de origem judaica,criado nos Estados Unidos e hoje residente em Berlim,e uma escritora argentina que vive no Brasil,com passagens por Estados Unidos e França. Ele escreve em espanhol apesar de ter o inglês como língua principal; ela escreve em português apesar de sua língua materna ser o espanhol. Os dois são personagens de seus próprios romances e aqui se reúnem para falar de seus projetos literários,de deslocamentos e identidades.
Sábado,às 12h
Mesa 15: “se o delírio te eleva à potência do abismo”,com João Cezar de Castro Rocha e Paulo Schiller.
Encontro de dois ensaístas para debater o autoritarismo e a ascensão da extrema direita. O crítico literário João Cezar de Castro Rocha e o psicanalista e tradutor Paulo Schiller recuperam os argumentos que sustentam seus livros mais recentes para tentar entender,a partir do repertório de suas respectivas áreas de atuação,como comportamentos associados ao autoritarismo ganharam a cena nos últimos tempos.
Sábado,às 15h
Mesa 16: “o boi é só. o boi é só. o boi”,com Ana Paula Tavares.
Vencedora do prêmio Camões 2025,a poeta,ensaísta e pesquisadora angolana Ana Paula Tavares fala de sua trajetória e de sua produção poética,ambas profundamente marcadas pela história de seu país e da luta pela emancipação feminina. Conversa também a respeito de sua relação com o Brasil,por meio da língua,da poesia e da literatura,sobretudo a partir dos laços que o unem a Angola.
Sábado,às 17h
Mesa 17: “não mais sabemos do barco,mas há sempre um náufrago”,com Hisham Matar e Milton Hatoum.
Hisham Matar conversa com Milton Hatoum sobre histórias de famílias que têm seu destino determinado por governos autoritários. Matar tinha 19 anos quando seu pai foi sequestrado pelo governo do ditador líbio Muammar Gaddafi e nunca mais reapareceu. Hatoum,em sua recente trilogia,narra o desaparecimento de uma mãe ocorrido durante a ditadura militar brasileira. Uma conversa entre dois premiados escritores sobre seus livros e a relação entre memória e literatura,política e ficção,escrita e liberdade.
Sábado,às 19h
Mesa 18: “e este chão não existe,e esta paz é vertigem”,com Zadie Smith.
Entrevista com a escritora britânica Zadie Smith,uma das vozes mais celebradas da literatura em língua inglesa da atualidade. Ela responderá a questões sobre sua obra,a construção fina e arguta de cada um de seus livros,e discutirá temas presentes em seus romances como colonialismo,imigração e racismo.
Domingo,26/7,às 10h
Mesa 19: “a porta está aberta”,com Ernesto Mané e Ève Guerra.
A mesa reúne dois autores que,em seus livros,refletem sobre a relação com a diáspora africana contemporânea e tocam em temas como imigrações,violência,famílias birraciais,afeto,identidade e pertencimento. Se o físico e diplomata brasileiro conta da viagem que fez à Guiné-Bissau para conhecer a família de seu pai,a poeta e professora francesa Ève Guerra narra,em seu premiado romance,a experiência de repatriar o corpo do pai do Congo para a Europa.
Domingo,às 12h
Mesa 20: “nunca crer no que não canta”,com Leonardo Gandolfi e Mateus Baldi.
Nessa mesa se reúnem um poeta cujo olhar se fixa nas pequenas coisas cotidianas e uma contista que mira com delicadeza o espaço urbano e quem o habita. Também aparecem um poeta e pesquisador que enaltece a música em seus versos e nos versos dos outros e uma ensaísta que se dedica a refletir sobre um dos maiores discos da MPB. Trata-se de um encontro sobre poemas,canções e cidades,e o que resulta daí.
Domingo,às 15h30
Mesa 21: “o que faço desfaço,o que amo desamo”,com Eva Baltasar e Susy Freitas.
Encontro de duas escritoras de enorme originalidade. A catalã Eva Baltasar,que escreveu uma vertiginosa trilogia sobre a maternidade,autora do frenético romance No baile do juízo final. À sua maneira,as duas escritoras esgarçam os estereótipos do feminino e colocam suas personagens em situações-limite de sustentação do próprio desejo.

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