
Messi conversa com o árbitro no jogo entre Argentina e Inglaterra pela semifinal da Copa — Foto: Paul ELLIS / AFP
GERADO EM: 17/07/2026 - 20:31
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A Argentina chegou à final da Copa do Mundo acompanhada por uma narrativa que cresceu nas redes sociais a cada decisão de arbitragem: a de que a Fifa estaria favorecendo a seleção de Lionel Messi no torneio. Embora alguns erros da arbitragem tenham alimentado o debate,boa parte das acusações se sustentou em imagens manipuladas,informações falsas e interpretações subjetivas que,somadas à desconfiança histórica em torno da equipe argentina,ajudaram a impulsionar uma teoria da conspiração.
A primeira polêmica de arbitragem aconteceu logo na primeira rodada,quando Messi não foi expulso após acertar,com a sola da chuteira,a panturrilha do jogador da Argélia. Um tipo de lance normalmente punido com o cartão vermelho,mas o polonês Szymon Marciniak sequer deu amarelo e o camisa 10 seguiu em campo e terminou o jogo com três gols marcados.

Lance de Messi que poderia ter gerado cartão vermelho,na avaliação dos argelinos — Foto: Reprodução/FOX TV
Depois,o jogo contra o Egito,pelas oitavas de final,tornou-se o principal combustível para intensificar a versão de favorecimento à Argentina. A federação e o técnico egípcios contestaram um gol anulado — que faria a seleção africana abrir 2 a 0 de vantagem,no segundo tempo — e um suposto pênalti em Salah,na origem do lance da virada da Argentina,já nos acréscimos.
Após a partida,o atacante Mostafa Zico,que marcou o segundo gol do Egito — ele balançou as redes duas vezes,mas viu a primeira delas ser anulada —,reclamou da arbitragem,dizendo que o campeonato estava "direcionado" e que o juiz "não foi justo". O treinador Hossam Hassan foi na mesma linha,questionando o favorecimento aos argentinos. Diante de tamanha repercussão,o diretor de arbitragem da Fifa,Pierluigi Collina,explicou publicamente os dois lances e rejeitou qualquer acusação de interferência.
— Discussões construtivas sobre as decisões sempre farão parte do futebol,mas acusações infundadas não têm lugar no nosso esporte. Ninguém pode questionar a integridade dos árbitros da Copa do Mundo — afirmou Collina. — Após cada gol marcado,o VAR verifica a fase de posse de bola do ataque. Se uma falta for identificada na construção da jogada e considerada como tendo influenciado o gol,o VAR recomendará uma revisão. Um exemplo disso ocorreu no jogo entre Argentina e Egito,onde o egípcio número 19,Marwan Attia,claramente pisou no pé do argentino número 6,Lisandro Martínez.
— Da mesma forma,se nenhuma falta for identificada na jogada que antecede um gol,o VAR informará o árbitro. Pisar no pé de um adversário é falta,enquanto um defensor que toca na bola primeiro e depois faz um contato normal de futebol não cometeu falta. Novamente,um exemplo disso ocorreu no final da mesma partida. O árbitro e o VAR consideraram um contato normal de futebol entre o camisa 10 do Egito,Mohamed Salah,e o camisa 10 da Argentina,Julián Alvarez — completou.
Apesar do pronunciamento oficial da Fifa,a narrativa já havia tomado conta das redes sociais. No jogo seguinte,contra a Suíça,o atacante Embolo foi expulso (corretamente) pelo segundo cartão amarelo por conta de uma simulação. Inicialmente,o árbitro tinha marcado falta de Paredes,mas o VAR corrigiu a decisão por meio da regra de erro de identificação. Um prato cheio para quem já havia comprado o discurso conspiratório.
Diante disso,as pessoas tomaram como verdade imagens nitidamente criadas ou editadas por inteligência artificial. Um dos exemplos foi um vídeo manipulado que mostrava uma simulação de Messi que jamais aconteceu. Nem os uniformes do árbitro e dos jogadores da Suíça eram os mesmos utilizados na partida,além de a bola desaparecer no momento em que o argentino cai. Uma simples checagem teria evitado a desinformação.
Outra imagem falsa que circulou pelas redes foi a de um pisão no tornozelo sofrido por Nico González,da Argentina,no mesmo jogo contra a Suíça. A foto editada,porém,inverteu os uniformes dos atletas,como se a infração estivesse sendo cometida por um argentino.
Já na semifinal contra a Inglaterra,surgiu um debate sobre uma possível falta de Messi no lateral Spence na jogada do segundo gol da Argentina. As imagens não mostram um toque do camisa 10 no pé do inglês,mas,nas redes sociais,passou a circular uma imagem manipulada por IA mostrando uma infração que não aconteceu.
Apesar dessa Copa da Conspiração,o técnico da Espanha,adversário da Argentina na final,rechaçou qualquer tese de suposto favorecimento aos sul-americanos.
— É preciso respeitar todas as equipes. Tenho uma admiração extraordinária por uma seleção que foi campeã da América,do mundo,da América novamente e agora é finalista da Copa. O que sinto é admiração,admiração e mais admiração,além de reconhecimento. São grandes jogadores. Cada um vai utilizar suas armas,mas as armas do futebol. Isto é uma partida de futebol,e quem conseguir dominar melhor essa situação e neutralizar as virtudes do adversário estará mais perto da vitória — destacou Luis de la Fuente em entrevista coletiva.
Assim,cada decisão de arbitragem em jogos da Argentina foi utilizada para engrandecer a teoria da conspiração. Um discurso,que não é de agora,e fez parte das três conquistas de Copas da seleção (1978,1986 e 2022).
Na campanha do último título,no Catar,já havia questionamentos de um suposto favorecimento aos "hermanos",principalmente pela quantidade de pênaltis (cinco) marcados a favor da seleção.
Já na Copa de 1986,num mundo em que ainda não existia rede social,o título da Argentina ficou marcado por um grave erro de arbitragem: o gol de mão de Diego Maradona nas quartas de final contra a Inglaterra. A histórica e polêmica "mano de Dios" abriu o placar para os argentinos — lance que hoje certamente seria anulada pelo VAR —,poucos minutos depois,o camisa 10 marcou também o famoso "Gol do Século". No fim,a Inglaterra descontou e o jogo terminou em 2 a 1.
Apesar de decisivo naquele jogo,o erro não garantiu o título argentino. A seleção ainda precisou eliminar a Bélgica na semifinal e vencer a Alemanha Ocidental na decisão.

Maradona marca o histórico gol de mão na vitória da Argentina sobre a Inglaterra nas quartas de final da Copa do Mundo de 1986 — Foto: ANP via AFP
Esse,no entanto,acabou sendo o segundo título da Argentina marcado por polêmicas. A primeira conquista foi em 1978,quando o país vivia duas situações distintas: o medo e a repressão de uma cruel ditadura militar e a euforia por sediar uma Copa do Mundo.
O ex-general Jorge Rafael Videla,por exemplo,que governou o país entre 1976 e 1981 e foi considerado o ditador mais cruel da Argentina,teve seu nome envolvido em polêmicas nos bastidores.
Ao chegar às semifinais,a Argentina precisava vencer o Peru por quatro gols de diferença se quisesse tirar a vaga do Brasil,que tinha vencido a Polônia por 3 a 1. Os argentinos,então,sabendo do resultado que precisavam — a partida foi adiada para duas horas após terminado o jogo da seleção brasileira —,golearam por 6 a 0. Relatos apontam que o general Videla teria visitado o vestiário peruano antes da partida. O Brasil,por sua vez,ficou com o terceiro lugar,invicto,e o "título" de campeão moral.
Esse histórico de conquistas cercadas por episódios controversos ajudou a alimentar,ao longo das décadas,a percepção de um suposto favorecimento à Argentina. Agora,em 2026,esse imaginário encontrou nas redes sociais um ambiente propício para se fortalecer por meio da circulação de fake news,imagens manipuladas e acusações sem provas durante a trajetória na Copa do Mundo.

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