
Caneta emagrecedora. — Foto: Magnific
GERADO EM: 16/07/2026 - 14:37
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Como alguém da geração X que viveu a era da estética "heroin chic",quando modelos extremamente magras eram celebradas por seus ossos salientes e aparência pálida,vejo com apreensão a recente popularidade da tendência #Y2KSkinny.
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Esse retorno aos corpos tamanho 34 (equivalente ao antigo size 00) é impulsionado pela indústria da moda,pela cultura do looksmaxxing (prática de otimizar a aparência física) e por influenciadores do SkinnyTok,que promovem a magreza como sinônimo de bem-estar. Mas,cada vez mais,o principal motor dessa tendência é uma classe de medicamentos: os agonistas do receptor GLP-1.
Celebridades de primeira linha passaram a usar abertamente medicamentos como Ozempic para emagrecer,em vez de tratá-los apenas para as condições médicas para as quais foram desenvolvidos. Essa visibilidade acabou se espalhando para o público em geral. Mulheres jovens estão experimentando os medicamentos GLP-1 para perder apenas alguns quilos,às vezes com consequências graves para a saúde,enquanto empresas de telemedicina oferecem acesso praticamente sem barreiras a esses tratamentos. Nomes como Ozempic,Mounjaro e Wegovy já fazem parte do vocabulário cotidiano.
Ao mesmo tempo,há um enorme interesse por histórias sobre influenciadores com o chamado "rosto de Ozempic" (Ozempic Face) ou corpos extremamente magros. Pessoas que utilizam esses medicamentos,por vezes,são alvo do chamado "Ozempic shaming",sendo criticadas por recorrerem à medicação em vez de dieta e exercícios. Paralelamente,os GLP-1 também são acusados de reforçar a gordofobia.
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Nesse contexto delicado,revelar o uso de um medicamento GLP-1 para alguém com quem se está saindo ou mantendo um relacionamento amoroso pode ser uma situação difícil. Quando somos socializados para sentir vergonha de ter um corpo maior do que o considerado "ideal" — um corpo que passamos anos tentando "controlar" —,admitir o uso de Ozempic pode nos colocar em uma posição vulnerável,em que parece não haver uma resposta certa.
Embora ainda existam poucas pesquisas independentes e revisadas por pares sobre esse tema,uma pesquisa recente,publicada pela própria ZipHealth — empresa de telemedicina que oferece acesso a medicamentos GLP-1 —,traz um panorama de como algumas pessoas encaram a decisão de revelar o uso desses medicamentos durante a vida amorosa.
A ZipHealth entrevistou 1.000 norte-americanos solteiros,entre mulheres (50,9%),homens (46,2%) e pessoas não binárias (2,6%). Pouco mais de 480 participantes pertenciam à geração millennial,342 à geração Z e 149 à geração X. Desse grupo,5,1% utilizavam um medicamento GLP-1 e 4,2% já haviam feito uso anteriormente.
Entre os usuários,74% disseram que saíram para encontros enquanto utilizavam os medicamentos e relataram resultados positivos. Eles passaram a ter 60% mais encontros por mês em comparação ao período anterior ao tratamento. Além disso,54% afirmaram sentir mais confiança em relação ao próprio corpo,e 28% disseram que passaram a ter mais relações sexuais.
Mais da metade dos participantes que utilizavam ou já haviam utilizado medicamentos GLP-1 contou aos parceiros ou pretendentes sobre o tratamento. Cerca de 85% receberam uma reação neutra ou positiva. Esse resultado reflete a crescente normalização do emagrecimento por meio de medicamentos e está em sintonia com pesquisas recentes que mostram uma percepção cada vez mais favorável ao Ozempic nos ambientes online.
Ainda assim,43% optaram por não revelar o uso do medicamento ao parceiro ou à pessoa com quem estavam saindo. As justificativas foram variadas: 19% disseram que o assunto é muito pessoal; 17% afirmaram que isso não é relevante para o relacionamento; 12% sentiram vergonha de não ter emagrecido "naturalmente"; e 10% temiam que os outros pensassem que haviam escolhido o "caminho mais fácil".
Esses resultados refletem crenças culturais estigmatizantes que associam pessoas com sobrepeso à preguiça ou à falta de disciplina para emagrecer. Um estudo recente mostrou,inclusive,que usuários de medicamentos GLP-1 tendem a ser percebidos como tendo menos mérito,presumivelmente porque se acredita que fizeram menos esforço para perder peso.
Curiosamente,um quarto dos participantes da pesquisa da ZipHealth afirmou que ninguém deveria ser obrigado a revelar que utiliza medicamentos GLP-1.
Os entrevistados também indicaram que essa revelação deve ser encarada como uma decisão privada,e não como uma obrigação pública. Isso levanta questões éticas sobre confidencialidade e sobre até que ponto informações médicas pessoais precisam ser compartilhadas.
As pessoas realmente deveriam contar esse tipo de informação? E,se sim,em que momento? Omiti-la seria comparável ao catfishing — quando alguém cria uma identidade enganosa para atrair outra pessoa — ou a fornecer informações falsas em um relacionamento?
Na prática,a situação nem sempre é tão simples. Seja entre familiares,amigos ou colegas de trabalho,informações de saúde podem acabar sendo divulgadas de forma inesperada.
Depois que publiquei nas redes sociais que estava escrevendo este artigo,várias pessoas entraram em contato para compartilhar suas experiências ao revelar o uso de medicamentos GLP-1. Uma mulher contou que costumava falar abertamente sobre o tratamento como forma de celebrar a perda de peso e fortalecer sua autoestima.
Com o tempo,porém,ela deixou de contar isso às pessoas com quem saía por dois motivos: "Hoje meu corpo é considerado de tamanho normal,então ninguém imagina que eu já fui gorda" e porque vários pretendentes fizeram comentários ofensivos e gordofóbicos.
Embora namorar possa ser uma experiência empolgante,também costuma despertar ansiedade,especialmente quando entram em cena pressões relacionadas à aparência e à imagem corporal.
Os medicamentos GLP-1 estão transformando o cenário do emagrecimento. No entanto,os sentimentos contraditórios que cercam esses tratamentos fazem com que revelar seu uso durante a vida amorosa esteja longe de ser uma decisão simples.
A pesquisa da ZipHealth,embora de pequeno porte,oferece um retrato inicial de como o uso desses medicamentos pode aumentar a autoconfiança e favorecer experiências mais positivas nos relacionamentos. Ainda assim,menos da metade dos participantes que utilizavam GLP-1 optou por compartilhar essa informação com seus parceiros ou pretendentes.
Essa hesitação evidencia o estigma ainda associado à gordura corporal e a crença profundamente enraizada de que existe apenas uma forma "correta" de emagrecer: por meio de dieta e exercícios físicos.
* Treena Orchard é professora associada da Escola de Estudos em Saúde da Western University.
* Este artigo foi republicado de The Conversation sob licença Creative Commons. Leia o artigo original.

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