
Frentista abastece veículo em posto de gasolina no Rio de Janeiro — Foto: Domingos Peixoto/Agência O Globo
GERADO EM: 14/07/2026 - 20:38
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O Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) aprovou ontem o aumento da mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina de 30% para 32%.
A medida entra em vigor no dia 1º de agosto,quando será publicada no Diário Oficial da União (DOU) e terá validade de 180 dias,com possibilidade de prorrogação,uma única vez,pelo mesmo período.
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O governo,porém,já estuda aumentar ainda mais os percentuais do etanol na mistura,chegando a 35%. Essas mudanças trazem uma preocupação aos motoristas: qual é o impacto da nova composição da gasolina nos motores dos automóveis?
A resposta para essa pergunta é: depende. Principalmente do modelo e da origem e fabricação do veículo. Ainda assim,entidades dos setores de distribuição e importação de combustíveis manifestaram preocupação com o impacto da mudança nos motores sem estudos e testes técnicos anteriores,particularmente porque 15% da frota do país não têm motores flex (que rodam com gasolina ou etanol).
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Uma regra prática comum é que selecionar etanol na bomba só faz sentido quando o preço é inferior a 70% do custo da gasolina: eficiência energética é menor — Foto: Maria Magdalena Arrellaga/Bloomberg
Na avaliação do professor Marcio D’Agosto,docente na Coppe/UFRJ,a mudança não impacta a motorização nem o ritmo de manutenções de carros fabricados no país. No entanto,ele afirma que donos de veículos importados podem sentir a diferença na hora de pisar no acelerador.
— No Brasil já há muita frota de veículos flex. Não há diferença por conta de tecnologia,mas,para os importados,sim,porque o poder calorífico do etanol é diferente — ele diz,relembrando o início da venda de veículos bicombustíveis (flex power) no início dos anos 2000 no Brasil,e a consequente popularização do modelo.
A alteração não deve impactar os veículos seminovos,que já possuem a tecnologia flex popularizada lá atrás. D’Agosto diz que as montadoras de veículos que trazem seus carros produzidos lá fora ao mercado brasileiro já programam a combustão dos carros com algum nível de etanol,mas o aumento do percentual pode,deixar o motor menos responsivo:
— Os motores dos carros importados são feitos para serem usados com a gasolina daqueles países. Os fabricantes que trazem esses carros até fazem alterações eletrônicas. Mas,com o aumento do percentual do etanol aqui,pode ser que haja perda no rendimento,já que ele tem poder calorífico menor — diz.
Nos Estados Unidos,na Europa e na Ásia,o etanol também é utilizado como aditivo da gasolina,mas em percentuais bem menores do que no Brasil. Na Europa,é comum a utilização da gasolina com 5% ou 10% de teor de etanol. Nos EUA,também é usual a adição de 10% à gasolina,enquanto no Japão o teor é de 3%.


Diferentemente do impacto na alteração do etanol nos motores dos veículos de passeio,D'Agosto vê uma alteração maior em eventual mudança no percentual de biodiesel no diesel,principalmente em caminhões antigos. Isso porque o biodiesel possui características solventes e de atração de água,promovendo uma "faxina" nos sistemas de alimentação,o que demandaria manutenção maior.
— Em caminhões antigos,você terá mais gastos com manutenção,mas não terá problema mecânico. Ao longo do tempo,esses veículos acumulam mais resíduos,e o biodiesel limpa isso,desincrustrando a sujeira. E aí terá maior necessidade de limpeza de bicos e no filtro de diesel — afirma ele,dizendo que veículos de carga mais novos já são desenvolvidos para a mistura.
Tanques de armazenamento do diesel,como em garagens e postos de combustíveis,também demandariam maior manutenção,ele diz.
A Brasilcom,que representa o setor de distribuição,a Abicom (importadores),a Fecombustíveis (postos) e o SindTRR (transporte revendedor) manifestaram,em nota conjunta,preocupação com o aumento da mistura obrigatória de etanol na gasolina sem a conclusão prévia dos estudos e testes técnicos necessários.
Segundo as entidades,a preocupação recai sobre os potenciais impactos na frota de veículos leves,já que,de acordo com as associações,cerca de 15% dos carros do país não são flex. Citam ainda efeitos em embarcações de pequeno porte e motocicletas movidos exclusivamente a gasolina.
Entre os possíveis reflexos estão alterações no desempenho,na durabilidade de componentes e nos custos de manutenção,com impacto para os usuários desses veículos. "O aumento da mistura de etanol anidro na gasolina acima dos atuais 30% também requer a realização de testes específicos para que se determine,com segurança,a sua viabilidade",afirmaram.
As associações destacam ainda que,embora a adição de etanol na gasolina deve baratear o litro nas bombas,como o combustível da cana-de-açúcar tem menor densidade energética,o motorista poderá ter um gasto maior para percorrer a mesma distância. Precisará abastecer mais.
Além disso,lembram que o aumento da participação do etanol exige ajustes regulatórios nas especificações da gasolina,especialmente em relação à octanagem (índice que mede a resistência do combustível à detonação prematura e influencia o desempenho do motor) e à massa específica,que corresponde à densidade do combustível.

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