
Milhares de enlutados se reuniram em Mashhad,cidade natal de Ali Khamenei,durante o funeral do aiatolá — Foto: Emile Ducke / The New York Times
GERADO EM: 12/07/2026 - 14:56
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Símbolo de vingança para os muçulmanos xiitas,a marcante presença de bandeiras vermelhas em meio à multidão de pessoas que compareceram ao funeral do falecido aiatolá Ali Khamenei,que durou uma semana,foi considerada uma declaração nada sutil de que o país deveria continuar a guerra com os Estados Unidos. Essa é uma exigência dos linha-dura da República Islâmica,que querem manter o confronto de 47 anos com Washington. Analistas consideram as bandeiras um exemplo revelador da disputa por poder no contexto da nova e instável política iraniana,desde que a guerra iniciada pelos EUA e Israel em fevereiro trouxe incerteza política a Teerã ao decapitar sua liderança suprema.
Após EUA atingirem 140 alvos no Irã: Teerã mira instalações americanas em países do Golfo,incluindo o Catar,mediador das negociaçõesConflito de informações: EUA afirmam que o Estreito de Ormuz segue 'aberto a todas as embarcações',apesar de o Irã declará-lo fechado
— Os linha-dura estão tentando usar o clima de luto,insegurança nacional e oposição às negociações para restringir o leque de debates politicamente aceitáveis e retratar o compromisso como algo estrategicamente perigoso e moralmente ilegítimo — disse Saeid Golkar,professor da Universidade do Tennessee,que estuda as forças de segurança do Irã.

Mulher ergue bandeira iraniana em frente a cartaz anti-EUA que faz referência ao presidente americano,Donald Trump,e ao Estreito de Ormuz,na Praça Valiasr,em Teerã. — Foto: AFP
Em todo caso,as perspectivas de um acordo diminuíram na semana passada,quando os EUA e o Irã retomaram os ataques militares. Os confrontos foram motivados pela questão ainda não resolvida sobre a extensão do controle iraniano sobre as rotas marítimas vitais através do Estreito de Ormuz.
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O colapso do cessar-fogo pôs em risco o memorando de entendimento que as duas partes assinaram em 17 de junho como um plano para futuras negociações de paz,incluindo o destino do programa nuclear iraniano.


Os combates recomeçaram na noite de sábado e se estenderam até este domingo,com ataques de ambos os lados. O Irã anunciou que o estreito seria completamente fechado por tempo indeterminado,depois que sua marinha disparou tiros de advertência que impediram a passagem de um navio mercante que navegava sem sua permissão,segundo um comunicado divulgado pela emissora estatal IRIB.
Por sua vez,o Comando Central dos EUA,que afirma que Ormuz segue "aberto a todas as embarcações",realizou ataques retaliatórios em território iraniano e atingiu 140 alvos. O Irã,então,respondeu,mirando instalações americanas em países do Golfo,mediador das negociações.
— Há tensão entre aqueles que defendem a primazia do "campo de batalha" e aqueles que defendem a da "diplomacia" — disse Ali Fathollah-Nejad,diretor do Centro para o Oriente Médio e a Ordem Global,um think tank na Alemanha.
Os céticos em relação à diplomacia,ainda de acordo com Fathollah-Nejad,acreditam que o programa nuclear do Irã,seus mísseis balísticos e suas forças aliadas no Oriente Médio são “pilares indispensáveis para a sobrevivência do regime,a dissuasão e a projeção de poder — e,portanto,inegociáveis”.
De modo geral,acredita-se que a morte de Khamenei tenha fortalecido o poder da Guarda Revolucionária Islâmica no governo do país. A ausência de seu filho e sucessor,Mojtaba Khamenei,em público contribuiu para alimentar a atmosfera de incerteza.
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— O clima político é muito instável,não sabemos ao certo quem está no comando — acrescentou o professor da Universidade do Tennessee. — O sistema está mudando e eles precisam de tempo para consolidar o poder.
Os linha-dura são geralmente considerados mais barulhentos do que influentes,e há muitos defensores de negociações entre eles,principalmente para permitir que o Irã recupere sua devastada economia.
Teerã já passou por uma situação semelhante antes. Tensões comparáveis surgiram enquanto o governo de Barack Obama e outras potências mundiais negociavam um acordo nuclear internacional histórico,assinado em 2015. Naquela época,as rivalidades entre facções opunham os reformistas,que buscavam mudanças internas e diplomacia pragmática,a conservadores,que estavam determinados a expulsar os EUA da região.


Então,em 2018,o presidente americano,no seu primeiro mandato,retirou-se do acordo nuclear. Os reformistas foram duramente criticados por terem sido enganados por Washington,que os levou a limitar o programa nuclear,abrindo caminho para que os conservadores consolidassem o controle do governo.

Presidente dos EUA,a bordo do Air Force One — Foto: Doug Mills/The New York Times
— A elite governante continua sendo dominada por diversas matizes de linha-dura — disse Fathollah-Nejad.
Nenhum dos lados tolera dissidências internas,mas um grupo se descreve como pragmático,argumentando que a sobrevivência exige o fim das hostilidades com EUA e a abertura da economia. O outro,uma minoria de linha-dura,rejeita quaisquer concessões a Washington,incluindo aquelas relacionadas ao programa nuclear iraniano,e acredita que o Irã pode prevalecer prolongando a guerra.
Para analistas,o domínio dos militares reduziu a influência das facções políticas,uma vez que as prioridades do establishment de segurança agora prevalecem. Por ora,o establishment tem favorecido a negociação. Mohammad Bagher Ghalibaf,presidente do Parlamento e principal negociador,é um ex-comandante da Guarda Revolucionária que criticou duramente as negociações sobre o acordo nuclear de 2015. Neste domingo,após os ataques,ele afirmou que a "era dos acordos unilaterais acabou".
Mesmo que um maior controle militar sobre o governo limite as manobras entre facções em relação às políticas,a liderança ainda precisa levar em consideração a perspectiva da base social dos linha-dura. Estima-se que os apoiadores do regime linha-dura representem até 20% da população de 93 milhões. Eles eram,sem dúvida,o núcleo dos enlutados no funeral que durou uma semana e terminou na quinta-feira com o funeral em Mashhad,cidade natal de Ali Khamenei.
O aiatolá Mojtaba Khamenei,que sucedeu seu pai como líder supremo,juntou-se aos apelos por vingança. "Prometemos vingar o sangue puro de vocês e o sangue de todos os mártires destas duas guerras,derramado pelos assassinos criminosos e desonrados",disse ele em uma rara declaração emitida no sábado. "Esta vingança é uma exigência da nossa nação e certamente deve ser cumprida",acrescentou.
Mojtaba não aparece em público desde o início da guerra,quando ficou ferido nos ataques coordenados dos EUA e de Israel. O líder de 56 anos,desde então,se comunica apenas por meio de raros comunicados divulgados pela mídia estatal. No mês passado,ele divulgou uma declaração ambígua concordando com o memorando de entendimento entre os países,mas discordando de assiná-lo "por uma questão de princípio".
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Segundo analistas,essa ambiguidade deu aos extremistas uma brecha para tentar influenciar as políticas,o que motivou um esforço conjunto,resultando nas bandeiras vermelhas no funeral. Muitas delas exibiam uma frase em árabe que significa "Ó Vingança por Hussein". A morte do Imam Hussein em 680 d.C. pelas mãos de um tirano é um símbolo xiita significativo de vingança por sangue inocente e resistência à tirania.
— Os linha-dura acreditam que a República Islâmica deveria ameaçar explicitamente vingar o assassinato de seu líder e de altos funcionários não apenas como uma estratégia de negociação,mas como um meio de dissuadir futuros ataques — disse Mohammad Tabaar,professor da Universidade Texas especializado em política iraniana. — Agora vemos essa ideia sendo gradualmente adotada pela liderança,como refletido no uso proeminente do simbolismo vermelho durante o funeral de Khamenei.
Hossein Shariatmadari,o influente editor do jornal Kayhan,cujas colunas frequentemente refletem um pensamento linha-dura,questionou por que os negociadores aceitaram permitir qualquer navegação pelo estreito. "Vocês têm certeza",escreveu ele,"de que abrir o Estreito de Ormuz equivale a desarmar o Irã islâmico diante de ataques inimigos?!"

Barcos ancorados ao largo da península de Musandam,no norte de Omã,perto do Estreito de Ormuz — Foto: AFP
Em uma exigência ainda mais explícita,ele escreveu um editorial de primeira página na semana passada intitulado "Queremos a cabeça de Trump",exigindo que o governo declarasse o presidente dos EUA um alvo legítimo e oferecesse uma recompensa substancial por sua morte. Vários outros jornais conservadores ou extremistas publicaram ameaças semelhantes de primeira página.
Além do assassinato do líder supremo,os linha-dura responsabilizam Trump por ter autorizado o assassinato de Qassim Suleimani,um importante comandante da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC),em Bagdá,em 2020.
O regime há muito utiliza o tamanho das multidões como um indicador de sua legitimidade,os milhões de pessoas que compareceram aos funerais no Irã e no Iraque foram citados como prova de que o governo em Teerã gozava de apoio tanto interno quanto regional. Os problemas econômicos,no entanto,desencadearam manifestações generalizadas no Irã no início deste ano,que foram reprimidas com extrema violência,deixando muitos críticos do governo desapontados com o fato de a guerra não ter resultado em uma mudança de regime.

Uma foto de Mojtaba Khamenei,o novo líder supremo,em uma marcha organizada pelo governo em Teerã — Foto: Arash Khamooshi/The New York Times
Ainda assim,o governo precisa agir com cautela no que diz respeito à percepção pública das negociações. Ele poderia,em última análise,abandonar sua ideologia anti-americana caso os benefícios se mostrassem compensadores,de acordo com analistas.
— Eles precisam pensar na base social do regime — afirmou Golkar,o professor da Universidade do Tennessee. — Esse é o núcleo que manteve o regime no poder nas últimas quatro décadas. Sempre que há uma crise,eles se manifestam. Não podem simplesmente abandoná-los.
Atualmente,persistem fortes dúvidas sobre a capacidade dos Estados Unidos de cumprir qualquer acordo. Dado o histórico,analistas afirmam que há uma suspeita generalizada de que Trump,embora deseje um acordo para ajudar a reduzir os preços do petróleo,acabará por renegar o compromisso.
— Se eles virem um acordo benéfico e crível em termos de os EUA cumprirem sua parte do acordo,certamente o receberão de braços abertos,pois isso poderia aumentar sua base de apoio no Irã — disse Tabaar,professor da Universidade Texas. — Isso poderia atrair muitos iranianos que desejam melhores relações com os EUA.
Os negociadores tomam cuidado para manter distância e evitar parecerem tolos caso os Estados Unidos rompam mais um acordo. E Trump não hesitou em declarar o memorando "encerrado" durante os recentes ataques.
Logo após o início das negociações,Esmail Baghaei,porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã,foi questionado sobre o motivo pelo qual a delegação iraniana se recusou a cumprimentar publicamente seus homólogos americanos. Ele citou o poeta Rumi: "Já que existem muitos demônios com rostos humanos,não se deve estender a mão a todos".

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