
Pedestres fazem uma pausa na Ponte do Brooklyn durante uma onda de calor em 21 de junho de 2024 — Foto: Graham Dickie / The New York Times
GERADO EM: 12/07/2026 - 19:34
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Históricas ondas de calor na Europa e na América do Norte,com temperaturas acima dos 40°C,incêndios florestais,secas intensas e milhares de mortes,marcaram os primeiros dias de verão do Hemisfério Norte neste ano. Enquanto a Europa ainda sofre com problemas estruturais para amenizar o calor,parte do aparato de observação climática dos EUA,fundamental para o restante do mundo,tem estado cada vez mais sob a mira do governo do presidente Donald Trump,com propostas de cortes orçamentários,demissões em massa e financiamentos paralisados. Em um contexto de aquecimento contínuo do planeta e de profundas alterações nos padrões climáticos globais,cresce a preocupação de cientistas com a capacidade mundial de monitorar as mudanças em meio ao risco de o sistema se fragilizar progressivamente justamente quando mais precisa ser fortalecido.
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Diariamente,bilhões de dados são coletados em praticamente todo o planeta,obtidos por uma vasta infraestrutura composta principalmente por satélites,boias oceânicas,estações meteorológicas,balões atmosféricos,radares e sensores. Essas informações,então,são compartilhadas internacionalmente sob coordenação da Organização Meteorológica Mundial (OMM),alimentando modelos matemáticos capazes de simular o comportamento da atmosfera e dos oceanos em larga escala.
No centro dessa infraestrutura global estão os EUA,que operam ou financiam parte significativa dos sistemas de observação utilizados pela comunidade científica. Só a agência espacial americana,a Nasa,mantém em órbita mais de 20 satélites dedicados à observação da Terra,enquanto a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA,na sigla em inglês) opera outros 15 (próprios ou operados em parceria),além de coordenar centenas de outras redes de equipamentos de observação e programas de coleta de dados em diversos países.
Com um aparato tão robusto e imprescindível para o monitoramento climático global,o papel dos EUA tem sido observado com atenção pela comunidade científica desde que Trump retornou à Casa Branca no ano passado.
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Desde janeiro de 2025,a administração apresentou uma série de medidas para reduzir drasticamente o orçamento de órgãos centrais para a pesquisa ambiental e climática. A mais recente é a proposta orçamentária para o ano fiscal de 2027,pendente de aprovação no Congresso,que prevê cortes de US$ 1,7 bilhão (cerca de R$ 9,3 bilhões) na NOAA,US$ 5,6 bilhões (R$ 30,5 bilhões) na Nasa e cerca de US$ 4,8 bilhões (R$ 26,2 bilhões) na Fundação Nacional de Ciência (NSF),entre outras reduções.

Uma mulher recebe ajuda após ser afetada pelo calor durante as comemorações do Dia da Independência "Saudação à América 250" no National Mall em Washington,DC,em 4 de julho de 2026 — Foto: AMID FARAHI / AFP
Embora o Congresso tenha barrado ou atenuado parte dessas iniciativas até agora,muitos projetos científicos já foram encerrados,ao menos 800 funcionários da NOAA foram demitidos e plataformas de dados e sites importantes foram arquivados. Mais recentemente,o governo Trump também propôs eliminar por completo o sistema de observação dos oceanos da NSF — fundamental para projeções globais —,mas acabou recuando no plano após pressão parlamentar.
Uma das maiores preocupações envolve a Rede Global de Climatologia Histórica (GHCN),banco de dados da NOAA que reúne e padroniza medições de temperatura e precipitação feitas por estações meteorológicas do mundo todo. Segundo a Union of Concerned Scientists (UCS),o número de estações que vêm alimentando regularmente essa base caiu de cerca de 20 mil para aproximadamente 7 mil desde o ano passado.
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— Cortes adicionais na capacidade da NOAA de coletar,processar,preservar e disponibilizar publicamente essas observações poderiam criar lacunas duradouras no registro climático global — disse ao GLOBO Carlos Martinez,cientista climático sênior da UCS.
O pesquisador sênior do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais do Brasil (INPE),Jean Ometto,concorda:
— Um dos grandes problemas da rede global é justamente a continuidade. A OMM tem seus recursos,mas não para manter todas as redes de monitoramento — explicou ao GLOBO. — Os EUA sempre foram um mantenedor muito importante,então quando deixam de financiar esses programas,essa rede obviamente fica vulnerável.
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Por sua vez,ao longo das últimas décadas,a Europa — embora ainda sofra com adaptabilidade para a crise climática — consolidou outro dos sistemas de monitoramento mais sofisticados do planeta. Segundo o Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo (ECMWF,na sigla em inglês),seus modelos assimilam,por dia,cerca de 800 milhões de observações provenientes de satélites,aeronaves,navios e radiossondagens. Dessas,aproximadamente 60 milhões servem para a geração de previsões meteorológicas para o mundo todo.
Mas apesar de todo esse aparato tecnológico,tanto dos EUA quanto da Europa,nenhum consegue atuar de forma autossuficiente,já que a precisão das previsões depende diretamente da disponibilidade de observações feitas em outras regiões do mundo. No entanto,ainda há grandes falhas nessa rede,segundo a OMM.

Banistas tomam sol às margens do Canal Saint-Martin enquanto a França enfrenta uma onda de calor em Paris,em 20 de junho de 2026 — Foto: ARNAUD FINISTRE / AFP
Segundo o órgão da ONU,esses "pontos cegos" estão localizados em regiões da África,América Latina e Ásia e em extensas áreas oceânicas. Os principais motivos são a ausência de equipamentos e,sobretudo,a incapacidade de mantê-los em operação contínua ou de transmitir regularmente seus dados para os sistemas internacionais. O resultado é uma rede global com importantes lacunas de observação. De acordo com o Mecanismo de Financiamento de Observações Sistemáticas (SOFF,na sigla original),apoiado pela ONU,quase 90% dos dados meteorológicos e climáticos básicos que deveriam ser fornecidos por 77 países menos desenvolvidos e pequenos Estados insulares ainda não chegam aos bancos de dados internacionais,comprometendo toda a rede global.
Para entender melhor esse "efeito em cascata",o meteorologista do INPE,Gilvan Sampaio,explica que a atmosfera funciona como um fluido contínuo,semelhante à água em um recipiente: qualquer perturbação em uma região pode se propagar por todo o sistema. O El Niño,ele cita,é um claro exemplo de como isso funciona,já que o aquecimento das águas do Pacífico Equatorial altera a circulação atmosférica e influencia o clima em diferentes continentes:
— Quando não há a medida de uma região,há um impacto na geração de informações e no entendimento dos processos não só daquela região,mas de todas as vizinhas e até de todo o sistema,dependendo do caso — explica ao GLOBO. — Se você perde ou não tem os dados,tem um problema em uma escala muito maior.
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Isso já pôde ser provado em experimentos conduzidos pelo ECMWF,nos quais pesquisadores simularam o aumento do número de observações em regiões atualmente pouco monitoradas. Os resultados mostraram que ampliar a cobertura na África,por exemplo,poderia reduzir em mais de 30% os erros das previsões meteorológicas sobre o continente. No Pacífico,as melhorias chegaram a cerca de 20%.
Os efeitos,entretanto,não ficaram restritos às regiões onde os dados foram gerados. Segundo o ECMWF,"as melhorias também se propagam geograficamente nas previsões à medida que os sistemas meteorológicos se deslocam ao redor do globo".
No Brasil,o Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) é uma das instituições integrantes desse sistema de monitoramento global,sendo o órgão oficial que representa a OMM no país,explica o climatologista Lincoln Muniz Alves,coordenador-geral do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima e pesquisador do INPE. O órgão realiza o monitoramento por meio de mais de 700 estações meteorológicas distribuídas pelo território nacional,incluindo unidades automáticas que registram dados de hora em hora.
"A operação contínua das redes de observação depende da manutenção da infraestrutura instalada,incluindo calibração e reposição de equipamentos,fornecimento de energia,conectividade,equipes técnicas qualificadas,controle de qualidade e capacidade de transmissão dos dados em tempo quase real",completa.

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