
Em dezembro passado,o presidente Trump e o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu estavam amplamente alinhados — Foto: Tierney L. Cross/The New York Times
GERADO EM: 10/06/2026 - 21:57
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Entre as reviravoltas no discurso do presidente dos EUA,Donald Trump,sobre a guerra contra o Irã — que em menos de 24 horas passou de uma sinalização à iminência de um acordo de paz para uma ordem de ataque aéreo e ameaças de retomada de um conflito de alta intensidade —,uma série de declarações contra o primeiro-ministro de Israel,Benjamin Netanyahu,revelou que as insatisfações do republicano sobre os desdobramentos no Oriente Médio também alcançam o aliado na empreitada bélica,em uma relação sob pressão que dá sinais de desgaste.
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Em declarações diretas à imprensa ou em conversas vazadas por fontes do governo à mídia,Trump deixou clara a insatisfação com Netanyahu. No início do mês,chamou o premier israelense de "louco" ao pressioná-lo a interromper ataques contra o Líbano. No domingo,disse em entrevista ao Financial Times que era o único a "dar as cartas" sobre a guerra,e que o aliado teria que "aceitar" o que fosse definido por Washington. Em ambas as ocasiões,viu Netanyahu disparar pouco depois contra Líbano e Irã,respectivamente.


Analistas ouvidos pelo GLOBO apontam que as declarações do presidente são um reflexo da pressão que o conflito impôs sobre Trump. Enquanto busca uma saída que possa apresentar como vitória no campo externo,o presidente tenta acenar a um público interno cada vez mais crítico à ofensiva contra o Irã,ao próprio governo e mesmo ao apoio histórico dos EUA a Israel.
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— Trump está dialogando com três grupos distintos — afirmou o professor de relações internacionais especialista em política dos EUA,Carlos Gustavo Poggio,em entrevista ao GLOBO avaliando as falas do presidente americano nos últimos dias. — Israel,na pessoa de Netanyahu,a própria base doméstica e a ala mais intervencionista do Partido Republicano.
O especialista nota que o atrito entre Trump e Netanyahu começa com o início da guerra,que múltiplas fontes relacionam a um processo de convencimento do presidente americano pelo líder israelense. Na leitura de Poggio,a percepção do real custo da guerra para os EUA,a complexidade da situação para solucionar o conflito e o desinteresse israelense nos termos negociados entre Washington e Teerã ou em interromper a guerra se tornaram pontos de atrito.

O primeiro-ministro de Israel,Benjamin Netanyahu é recebido pelo presidente dos EUA,no Salão Oval da Casa Branca em abril de 2025 — Foto: Eric Lee/NYT
Além do embaraço internacional,com o fechamento do Estreito de Ormuz e a instabilidade que afetou aliados no Golfo,Trump enfrenta um cenário desfavorável interno em um ano eleitoral importante para a manutenção da maioria republicana no Legislativo. Pesquisas recentes mostram que o índice de desaprovação ao presidente chegou a 62%,patamar próximo ao de eleitores que consideram que a entrada na guerra foi uma escolha errada (64%).
— Trump está sentindo que está perdendo apoio,incluindo em votações no Congresso. Ele está perdendo apoio em boa parte da base Maga (sigla em inglês para Faça os EUA Grandes Novamente) por causa da guerra,essencialmente — afirmou o professor de relações internacionais da ESPM,Gunther Rudzit.
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O impacto direto da crise no Oriente Médio sobre o eleitorado foi percebido em levantamentos recentes. Em fevereiro,uma pesquisa da consultoria Gallup mostrou que,pela primeira vez em uma série histórica,cidadãos americanos disseram ter mais simpatia pelos palestinos em questões relacionadas ao Oriente Médio (41%) do que por Israel (36%). O percentual é maior entre eleitores democratas (65%),mas o índice cresceu entre independentes (41%,empatado com visões a favor de Israel) e chegou a 18% entre republicanos (mais que o dobro dos 5% aferidos em 2024).
— Dentro de setores republicanos importantes está se consolidando uma postura claramente anti-Israel que a gente não via antes — afirmou Poggio,apontando para candidaturas republicanas com teor abertamente contrário a Israel e ao envolvimento americano em questões na região,bem como uma tendência crescente entre jovens.
Uma pesquisa Siena College/New York Times publicada em maio indicou que 54% dos eleitores republicanos com 44 anos ou menos afirmam que o governo apoiou Israel "além do que deveria",e apenas 33% disseram ser a favor do envio de ajuda adicional,econômica e militar. Enquanto isso,entre representantes do partido,as primárias no Kentucky foram marcadas por discursos denunciados como antissemitas do deputado Thomas Massie,um crítico de Trump que terminou derrotado.


Embora o estremecimento das relações entre Trump e Netanyahu não signifiquem um rompimento entre dois parceiros próximos e duas nações com vínculos estratégicos,a campanha militar conjunta no Irã evidenciou as divergências entre os objetivos de cada parte. A inclusão da frente de guerra com o Hezbollah,no Líbano,nas conversas com o Irã,foi apontada pelos analistas ouvidos pelo GLOBO como o momento mais evidente de discordância até o momento.
A avaliação compartilhada por Poggio e Rudzit é de que Netanyahu percebe a atual ofensiva contra o movimento xiita libanês Hezbollah como uma oportunidade de aniquilar o grupo pró-Irã,em um patamar similar ao que foi feito com o Hamas,enfraquecendo decisivamente um adversário visto como ameaça estratégica à existência do Estado judeu. Além disso,o professor da ESPM afirma que a ofensiva atende a interesses particulares de Netanyahu,que anunciou nesta quarta-feira que concorrerá a uma reeleição a ser disputada neste ano.

O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu em conversa com o presidente dos EUA,em fevereiro — Foto: Reprodução
Em contrapartida,a disputa com Trump no decorrer das negociações e as alegações sobre ter atraído os EUA para um conflito mais difícil do que o apresentado a portas fechadas já é motivo de movimentações estratégicas nos bastidores.
— Netanyahu já percebeu que depois dessa guerra,a influência dele sobre Trump,se permanecer no poder,vai diminuir — afirmou Rudzit. — A dele ou de qualquer outro líder israelense perante os EUA. É por isso que recentemente ele defendeu que o país deveria buscar independência militar de Washington na próxima década.
Em uma entrevista à rede de TV americana CBS no domingo,o premier israelense disse que pretendia reduzir a ajuda militar recebida dos EUA de US$ 3,8 bilhões por ano a zero.

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