Na foto,Carro em que Daniel Patrício Oliveira,de 29 anos,foi morto a tiros na Pavuna — Foto: Fabiano Rocha / Agência O Globo

Na foto,Carro em que Daniel Patrício Oliveira,de 29 anos,foi morto a tiros na Pavuna — Foto: Fabiano Rocha / Agência O Globo
Pouco mais de um mês depois da morte de uma médica por policiais em Cascadura,Zona Norte do Rio,outro caso trágico em circunstâncias semelhantes causa perplexidade. Na madrugada de quarta-feira,o comerciante Daniel Patrício Oliveira,foi morto quando dirigia uma picape a caminho de casa,na Pavuna,Zona Norte. Policiais alegaram que ele não obedeceu à ordem de parar e acelerou em direção aos agentes. Dispararam mais de 20 tiros. Um deles atravessou o para-brisa e atingiu o rosto de Oliveira (outros três ocupantes do veículo não se feriram). Mais uma família foi destruída. Oliveira tinha uma filha de 4 anos e estava de mudança com a mulher para outro estado,justamente devido à violência na cidade.
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Os policiais afirmaram ter sido alertados sobre um veículo em atitude suspeita na região,próxima ao Complexo da Pedreira,área violenta da capital. A vítima,segundo a polícia,tinha uma anotação criminal por receptação. Mas nada justifica a saraivada de tiros de fuzil contra um motorista desarmado. Em março,policiais já haviam confundindo o carro da médica com o de assaltantes. A simples suspeita bastou para que ela fosse fuzilada (a ação foi tão desastrosa que PMs ordenaram que descesse do carro quando já estava morta).
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Com a repercussão,a Corregedoria da Polícia Militar determinou a prisão de dois PMs suspeitos de envolvimento na morte de Oliveira. A despeito das versões dos policiais,as imagens de câmeras corporais revelaram indícios de homicídio doloso. As armas usadas foram apreendidas. Mas a questão não pode se encerrar na detenção dos PMs e na apreensão das armas. Houve mais uma tragédia inaceitável. É angustiante que situações desse tipo continuem a se repetir.
Em 2015,os mototaxistas Thiago Guimarães e Jorge Lucas Martins Paes foram mortos por um PM na Pavuna. Lucas carregava um macaco hidráulico,que o policial pensou ser um fuzil. Em 2019,o músico Evaldo Rosa foi morto por soldados do Exército em Guadalupe,Zona Norte do Rio. Seu carro,confundido com o de bandidos,foi alvejado por 62 tiros,mas em 2024 os acusados foram absolvidos pelo Superior Tribunal Militar por falta de provas. Neste mês,o entregador Douglas Renato Zwarg,de 39 anos,foi morto por um guarda civil metropolitano durante abordagem perto do Parque Ibirapuera,em São Paulo. O agente alegou que o tiro ocorreu de forma acidental quando descia da viatura,versão que não convenceu a família da vítima.
Tais episódios expõem,no mínimo,despreparo dos policiais. Entende-se que eles arriscam a vida diariamente em confrontos com bandidos,mas existem regras para abordagens — e nenhuma delas autoriza disparar contra cidadãos com base em suposições. É verdade que a polícia não tem sido conivente,e os acusados têm ido a julgamento. Mas a tragédia já está consumada. Não há dúvida de que faltam treinamento a integrantes de forças de segurança e rigor no cumprimento dos protocolos. É sempre bom lembrar que policiais são pagos pelo Estado para proteger os cidadãos,não para matá-los.

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