Nara Leão,Chico Buarque e Maria Bethânia em “Quando o carnaval chegar” (1972),de Cacá Diegues — Foto: Arquivo / Cinemateca Brasileira

Nara Leão,Chico Buarque e Maria Bethânia em “Quando o carnaval chegar” (1972),de Cacá Diegues — Foto: Arquivo / Cinemateca Brasileira
GERADO EM: 14/04/2026 - 18:48
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Em 2024,quando leu “Cine Subaé” (Companhia das Letras),livro que reúne textos de Caetano Veloso sobre cinema,o crítico e pesquisador Carlos Alberto Mattos pensou que poderia haver algo semelhante com foco em um de seus ídolos: Chico Buarque. Não encontrou nada parecido,e foi assim que nasceu o que chamou de site-livro “Chico Buarque — Ele faz cinema” (www.chico-cinema.com),um dedicado levantamento sobre as diversas relações entre a obra do cantor-compositor-escritor carioca e a arte cinematográfica. Mattos resume:
Chico Buarque: entenda como compositor criou uma trilha sonora para o Brasil,cantando o amor,a política e o futebolVocê é fã de Chico Buarque? Ouça um trecho e tente adivinhar as músicas
— Construí o site ao longo de um ano e meio de pesquisa. Reli tudo do Chico. É um trabalho de fã,em que analiso as músicas nos filmes,as adaptações de seus livros e peças para as telas,a presença do cinema nas suas músicas e nos livros,o Chico ator,os documentários sobre ele e,enfim,o cinema em sua vida — explica o crítico,que tem 72 anos e extenso currículo na cobertura de cinema pelos principais veículos do país,inclusive o GLOBO.
Mattos lembra que foi há seis décadas que Chico compôs sua primeira trilha para cinema (“O anjo assassino”,de Dionísio Azevedo). No fim das contas,o crítico localizou 60 obras,entre filmes de ficção e documentários,longas e curtas-metragens,com canções de Chico em suas trilhas musicais. “Sem contar as vezes em que personagens apenas cantarolam ou mesmo assoviam canções suas casualmente,como parte das cenas”,conta ele no site.
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O pesquisador também garimpou duas raridades em suas pesquisas: o primeiro documentário sobre o músico,“Chico,retrato em branco e preto”,realizado em 1968 por Flávio Moreira da Costa,e o cubano “Siembro viento en mi ciudad” (1978),de Fernando Pérez,que acompanha uma viagem musical e futebolística do brasileiro a Cuba. Ambos os títulos estão disponíveis,na íntegra,no site-livro.
Discípulos: Chico Buarque inspira jovens cantores e compositores
Já a atuação não é exatamente o forte de Chico,mas Mattos também lista as vezes em que o compositor se aventurou à frente das lentes — como na foto acima,em que contracena com Nara Leão e Maria Bethânia na pós-chanchada “Quando o carnaval chegar” (1972),de Cacá Diegues. “Tímido diante da câmera,Chico está sempre a ponto de rir,seja qual for a cena”,conta o pesquisador no site,reconhecendo que esta talvez seja “a parte mais pitoresca” do seu levantamento,onde afirma que a estreia do artista como ator ocorreu em 1964,numa novela da TV Record.
Abaixo,algumas afinidades entre o cinema e as múltiplas expressões de Chico.

Marieta Severo e Otávio Augusto em cena da peça 'Ópera do malandro' — Foto: Sebastião Marinho
Como diz Carlos Alberto Mattos,a obra de Chico Buarque para o teatro é muito maior do que a maioria das pessoas pode supor — incluindo “Ópera do Malandro”,em 1978,com Marieta Severo e Otávio Augusto (acima),entre outros. O pesquisador analisa no site-livro as peças com canções de Chico que chegaram ao cinema: “Morte e Vida Severina”,“Os Saltimbancos”,“Ópera do Malandro”,“O Grande Circo Místico” e “Gota d’água”.

A atriz Marlene Dietrich e o cineasta Joseph von Sternberg — Foto: Divulgação/Archiv Stiftung Deutsche Kinemathek
Na foto acima,o diretor Josef von Sternberg e sua estrela em “Anjo azul” (1930),Marlene Dietrich. Segundo Mattos,Chico não só faz alusões explícitas a pencas de filmes,como usa linguagem típica da expressão cinematográfica. No romance “Estorvo”,por exemplo,combina realidade,memória e imaginação num fluxo único,lembrando “expedientes do Nouveau Roman,e portanto de Alain Resnais”.

Atriz francesa Martine Carol desembarcando no Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro — Foto: Arquivo O GLOBO
O livro-site conta que,quando adolescente,Chico Buarque falsificava sua carteira de estudante para conseguir entrar em filmes proibidos para menores. À parte a admiração pela sétima arte,ele queria muito era ver seminuas as atrizes do cinema europeu. Entre outras estrelas dos sonhos do jovem cinéfilo estava a francesa Martine Carol (à esquerda,em 1959),“a atriz mais limpa de Paris porque tomava banho em todos os seus filmes”,como escreveria ele no livro “Bambino a Roma” (2024). Cada uma a seu tempo,artistas como Alida Valli,Gina Lollobrigida,Silvana Mangano e Brigitte Bardot,entre tantas outras,também saíram das telas do cinema para povoar o imaginário e,por extensão,a obra do compositor carioca.

Paulo José em gravação de 'Benjamim',longa de Monique Gardenberg baseado na obra de Chico Buarque — Foto: Divulgação
Chico Buarque,que recebeu em 2019 a mais importante distinção da literatura em língua portuguesa,o Prêmio Camões,teve alguns de seus romances adaptados para o cinema. Não é tarefa simples,explica Carlos Alberto Mattos,porque “nos seus livros,Chico opera com a indiferenciação entre discurso direto e indireto,entre passado e presente,realidade e suposições,prismas e espelhamentos em que o real se confunde com o mero pensamento”. É com esse pano de fundo que o pesquisador analisa os filmes “Fazenda Modelo”,“Estorvo”,“Benjamim”,“Budapeste” e “Benjamim Zambraia e o autopanóptico”. Mattos também já reserva espaço para a futura análise de “Bambino a Roma”,que ainda está em fase de produção. Na foto ao lado,o ator Paulo José (1937-2021) durante a gravação do longa “Benjamim” (2003),dirigido por Monique Gardenberg.

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