
Loja da BYD decorada para primeiro dia do Move Brasil: vendas do programa estão travadas — Foto: Ana Flávia Pilar/Agência O GLOBO
Pouco mais de um mês após o lançamento do Move Brasil,programa de financiamento de automóveis voltado a taxistas e motoristas de aplicativos,muitos deles enfrentam dificuldades para adquirir um carro. Entre os principais entraves estão inadimplência,elevado nível de endividamento e dificuldade para comprovar renda,já que boa parte é trabalhador autônomo. Há queixas ainda de demora na liberação dos veículos,mesmo quando o crédito é aprovado. Com tantos obstáculos,a linha registrou demanda de R$ 2,2 bilhões até o fim da semana passada,7,3% do total — o governo reservou R$ 30 bilhões.
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O resultado frustrou os planos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva,que lançou o programa de olho naquele segmento da população em meio a disputa eleitoral. O programa engloba carros zero e seminovos a partir do ano-modelo 2024,com limite de valor de R$ 150 mil.
O governo federal já se debruçou sobre o diagnóstico e busca destravar o programa com a ajuda de bancos públicos,já que grandes instituições privadas,como Itaú e Bradesco,decidiram não participar da iniciativa. Tanto a Caixa Econômica Federal como o Banco do Brasil fecharam parcerias com plataformas de mobilidade para estimular adesão ao financiamento,incluindo a possibilidade de obter cashback,ou seja,ter parte do dinheiro investido de volta.
O GLOBO percorreu concessionárias e conversou com funcionários,cuja avaliação é unânime: o Move Brasil despertou interesse,mas as vendas têm ficado abaixo do esperado. Em uma das lojas visitadas,o gerente disse que,após o anúncio do programa,a procura por veículos aumentou 40%,mas a conclusão dos negócios não se concretizou. Em uma rede de agências de automóveis,das mais de cem propostas enviadas para análise,menos de 10% foram aprovadas.
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Move Brasil despertou interesse,mas menos de 10% das propostas encaminhadas para análise são aprovadas — Foto: Maria Isabel Oliveira/Agência O Globo
Michel Veloso,de 40 anos,foi a uma concessionária Fiat com a intenção de financiar um Fastback,mas não obteve a aprovação do banco da montadora Stellantis,dona da marca. Segundo ele,como saiu do cadastro de negativados há pouco tempo,seu score de crédito (classificação de risco) ainda está baixo. Por isso,decidiu aguardar até este mês para fazer uma nova tentativa,agora pela Caixa:
— A maioria dos motoristas está negativada. Eu mesmo limpei meu nome há pouco tempo.
A Federação Nacional dos Sindicatos de Motoristas de Aplicativos (Fenasmapp) tem mapeado os entraves relatados pela categoria. Levantamento com 1.551 respostas apontou as principais dificuldades:
análise do pedido como financiamento tradicional,ignorando que há um fundo garantidor para operações do Move Brasil (46,1%); programa não operacional,com falhas de integração com o BNDES,que é o principal agente financeiro da linha de crédito (23,5%); exigência de entrada alta (19,5%); critérios internos dos bancos (7%); histórico bancário dos clientes (2,8%).
— A maior barreira é a negativação. O motorista que tem condições de financiar um carro de R$ 150 mil muitas vezes é aquele que está com o nome sujo. Paga de R$ 3.500 a R$ 6 mil por mês para alugar um veículo e consegue faturar de R$ 8 mil a R$ 13 mil. Tem capacidade de arcar com as parcelas do financiamento,mas continua negativado — explica Leandro Cruz,presidente da Fenasmapp.
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As dificuldades ocorrem em um momento em que,apesar do Desenrola Brasil 2.0,voltado para a renegociação de dívidas,a taxa média de inadimplência nas operações de crédito está em 4,7% no país— o maior patamar da série histórica do Banco Central,iniciada em 2011.
Para Antônio Jorge Martins,professor de Cursos Automotivos da Fundação Getulio Vargas (FGV),esse cenário leva as instituições financeiras a adotarem critérios mais rigorosos para a concessão de crédito,mesmo com o Fundo Garantidor para Investimentos (FGI-PEAC) e a alienação fiduciária (o banco é dono do bem até a quitação):
— Os bancos trabalham com limites de exposição ao risco e,quando o nível de endividamento aumenta,a concessão tende a ficar mais restrita,o que se reflete na avaliação do score dos clientes.

Jhonatan Gabriel: ele teve o financiamento aprovado,mas ainda não conseguiu retirar o carro — Foto: Arquivo pessoal
O presidente do BNDES,Aloizio Mercadante,afirma que parte dos motoristas aptos a participar do programa tem encontrado dificuldades por causa de pendências pessoais:
— A recomendação é ir para o Desenrola resolver o passivo para poder acessar um novo crédito. Tanto que o Ministério da Fazenda prorrogou o Desenrola (o programa foi estendido até 31 de agosto).
O público do Move Brasil também desestimulou a adesão de bancos privados. Segundo interlocutores do governo,a explicação é que os agentes teriam dificuldades para retomar o bem em caso de inadimplência porque o veículo é o meio de trabalho. Além disso,o bem passa por rápido processo de desvalorização pelo uso frequente e risco de acidentes de trânsito.
Comprovar a renda é outra dificuldade,pois o extrato das corridas dos aplicativos não vinha sendo considerado na análise de crédito. Leonardo Tavares,de 39 anos,é assistente de auditoria ao longo da semana e aluga um carro para rodar via aplicativo em dias de folga. Ele já teve dois pedidos de crédito negados,mas agora está cofiante:
— Há três semanas,quando fui ao Banco do Brasil,e o crédito foi negado,o gerente me mostrou no sistema que,em alguns dias,começariam a aceitar os extratos dos aplicativos como comprovantes de renda. Na terça-feira,recebi o pedido dos extratos dos últimos três meses de trabalho.
A Caixa também passou a aceitar o extrato como comprovante de rendimento. Além disso,diante da cobrança de Lula,o banco anunciou na última sexta-feira uma parceria com a 99 que inclui a concessão de cashback aos motoristas que aderirem ao Move Brasil.
Aqueles cadastrados no app que contratarem financiamentos a partir de R$ 40 mil poderão receber de volta até R$ 6,3 mil,em depósitos mensais de até R$ 350. O banco estuda fazer também um convênio com a Uber,como anunciou o Banco do Brasil. No caso do BB,os motoristas têm até 3,5 parcelas do empréstimo de volta.
Entre os motoristas que conseguem a aprovação do crédito,o obstáculo é a demora na liberação dos recursos e,consequentemente,dos veículos. Em uma concessionária Peugeot,um funcionário informou que há casos de clientes com financiamentos já aprovados que ainda aguardam o banco repassar os valores.
Jhonatan Gabriel Nascimento,de 25 anos,teve o financiamento aprovado,com a primeira parcela prevista para setembro,mas continua à espera da conclusão do processo para retirar o carro:
— Fiz contato com o gerente para saber o motivo da demora,e ele me disse que o BNDES avisou a Caixa sobre uma divergência em um processo interno,e que seria necessário refazer o contrato. Acredito que ainda leve mais um mês e meio. Existe a possibilidade de eu pagar a primeira parcela sem ter o carro.
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O BNDES tem uma plataforma que o conecta às instituições financeiras e permite o repasse dos recursos. De acordo com Mercadante,o sistema “está rodando,sem qualquer intercorrência”. Ele cita questões tecnológicas dos bancos como razão para eventual demora na liberação do dinheiro:
— Alguns bancos não tinham a interface em tecnologia de informação. Precisavam desenvolver seus aplicativos. Alguns,inclusive,começam a entrar agora em agosto. Não tiveram agilidade para fazer antes. Os que estão liderando o processo são Banco do Brasil e Caixa — diz.
Segundo a Caixa,“o fluxo operacional e financeiro das operações ocorre normalmente,observadas as etapas e os procedimentos previstos para contratação e liberação dos recursos”. O BB informou que opera normalmente a linha,já tendo superado R$ 650 milhões em contratações. O Santander afirmou que as propostas “estão sujeitas à elegibilidade do cliente e do veículo,à análise de crédito e à documentação exigida para cada operação”.
O Banco Stellantis,que financia veículos de Fiat,Jeep,Peugeot e Citroën,afirmou que “as operações seguem as regras e os critérios de elegibilidade estabelecidos pela iniciativa,além das políticas de crédito adotadas pela instituição”. Segundo a GM Financial,da General Motors,os financiamentos contam com a cobertura do FGI PEAC,mas a garantia “não substitui a análise de crédito”.
O Banco Toyota ainda não opera a linha de crédito. A Mobilize Financial (Grupo Renault) iniciou a operação em 30 de julho. “Após a formalização do contrato,a liberação dos recursos ocorre conforme os procedimentos e prazos estabelecidos pelo BNDES”,afirmou. Banco Honda,Banco Volkswagem,Hyundai Capital e a Federação Brasileira de Bancos não responderam.

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