CULTURA Jul 16, 2026 IDOPRESS

Exercícios físicos, rações e novos suplementos: mercado pet inova para combater epidemia de obesidade em cães

O personal trainer Roberto Stefani,47 anos,com seu pug Buddy de 14 anos,que pesa cerca de 16 quilos — Foto: Edilson Dantas / O Globo

RESUMO

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GERADO EM: 14/07/2026 - 20:20

Obesidade canina afeta 40% dos cães no Brasil: soluções em foco

A obesidade é a principal doença nutricional entre cães no Brasil,afetando cerca de 40% dos pets. Isso reduz a expectativa de vida em dois anos e causa problemas respiratórios e metabólicos. Inovações no mercado pet,como rações específicas e suplementos,ajudam no combate à obesidade. Veterinários destacam a importância de alimentação equilibrada e exercícios,além de tratamentos complementares para controle de peso.

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A obesidade em cães já é considerada a principal doença nutricional entre pets. Para os veterinários: uma epidemia. Segundo uma pesquisa feita pela faculdade de Medicina Veterinária e zootecnia da USP,cerca de 40% a 40,5% dos pets no Brasil estão obesos ou acima do peso. Dados globais indicam que até 59,3% dos cães apresentam sobrepeso.

A doença reduz a expectativa de vida dos cães em cerca de dois anos. Pode levar a problemas respiratórios,doenças metabólicas e hormonais,como diabetes e alterações endócrinas,e problemas ortopédicos,como a sobrecarga nas articulações,que predispõe à osteoartrose e ruptura de ligamentos.

— A obesidade canina é consequência de uma combinação de fatores relacionados ao estilo de vida dos animais e aos hábitos de seus tutores. Atualmente,os cães vivem mais tempo,permanecem grande parte do dia dentro de casa e apresentam níveis reduzidos de atividade física — explicou a médica-veterinária Ivelize da Costa Mello,membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia Veterinária (SBDV).

Os tutores também tendem a achar que seus cães estão “fofos” e não com sobrepeso. Um estudo conduzido pelo Dog Aging Project,em parceria com a Texas A&M University e a University of Washington,analisou dados de mais de 13.800 famílias,e descobriu que 18% dos cães avaliados foram considerados acima do peso por seus tutores.

Entretanto,este número cresce quando o diagnóstico vem de profissionais: há concordância entre tutores e veterinários em apenas 76% dos casos,o que indica que muitos donos subestimam o sobrepeso de seus pets,confundindo “forte” com “fora do peso”.

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Um cachorro é considerado obeso quando ele tem de 15% a 20% a mais do seu peso ideal. Os médicos veterinários conseguem avaliar mais precisamente de acordo com a escala Escore de Condição Corporal (ECC) que é medida de 1 a 9 pontos.

O ideal é que o cão esteja entre 4 a 5 pontos na escala,ou seja,com as costelas palpáveis sem excesso de gordura e com a cintura visível quando visto de cima. O sobrepeso é avaliado quando o bicho fica com 6 e 7 pontos (costelas difíceis de sentir e cintura levemente apagada),e a obesidade é diagnosticada com 8 ou 9 pontos. Neste caso,as costelas são impossíveis de palpar,em alguns casos,coberta por grossas camadas de gordura e sem cintura.

— Nós conseguimos avaliar a olho nu e pelo toque. Conseguimos ver quando os ossos aparecem,o flanco,a barriguinha dele e por meio de perguntas para os próprios tutores,como por exemplo: como ele se alimenta,com que frequência,se há o fornecimento de petiscos ao longo do dia ou se o cão se exercita,entre outras — afirma a cirurgiã veterinária Mariana Tiemi.

Cães com sobrepeso ou obesidade também costumam apresentar mudanças no comportamento e na disposição. Os tutores devem ficar atentos quando eles demonstrarem falta de vontade de brincar,passear ou manifestarem cansaço excessivo após pequenos esforços. Dificuldade para subir escadas ou pular em móveis,menor tolerância ao exercício e sonolência também são sinais. Alguns animais ainda demonstram irritabilidade ou relutância ao serem manipulados devido ao desconforto causado pelo excesso de peso.

— O controle do peso deve fazer parte da medicina veterinária preventiva,por meio de alimentação balanceada,prática regular de exercícios,acompanhamento veterinário e,quando indicado,utilização de estratégias nutricionais complementares que auxiliem no manejo do peso corporal — explica Mello.

O primeiro passo é oferecer uma alimentação equilibrada,respeitando a quantidade diária recomendada para o porte. Isso depende de diversos fatores,como peso,idade,porte,nível de atividade física,condição corporal e o tipo de alimento (ração seca,úmida ou alimentação natural). Não existe uma quantidade única que sirva para todos os cães.

As recomendações,de forma geral,são: para cães pequenos,de 2 a 5 kg,o ideal é que eles tenham uma quantidade média de ração seca por dia entre 50g a 100g. De 5 a 10kg,a quantidade aumenta de 100g a 170g. De médio porte,10kg a 20kg,a quantidade de ração fica em torno de 170g a 290g.

Para cães de grande porte,entre 20kg a 30kg,a quantidade de ração seca diária aumenta de 290g a 390g. Por último,animais pesando de 30 a 40 quilos devem comer em torno de 390g a 480g de ração.

Esses valores,segundo Mello,são aproximados para cães adultos saudáveis,alimentados com ração super premium. As quantidades variam conforme a densidade energética de cada alimento.

Faz parte também da alimentação balanceada evitar o excesso de petiscos e alimentos destinados ao consumo humano,já que muitos deles são ricos em calorias e contribuem para o ganho de peso.

— Um dos maiores problemas em relação ao aumento de peso dos cães está nesse excesso de ingestão calórica. Muitos tutores ficam contra a ração,porque preferem uma alimentação natural,porém elas são indicadas por já terem todo o suporte nutricional indicado para cada animal. Não é necessário dar petiscos a mais para o animail,porque ele se há comida em excesso sem um exercício físico,por exemplo,o ganho de peso é certeiro — diz Tiemi.

Ração X alimentos naturais

O médico veterinário e gerente de relacionamento científico da marca PremieR,Flávio Lopes,diz que não é contra a alimentação natural,porém,deve-se redobrar o cuidado quando o assunto é obesidade em cães. Hoje,há rações específicas para certas particularidades,como as light ou destinadas a cachorros obesos.

— Cães obesos precisam perder peso. Os ingredientes da alimentação dele devem ser baixos em gordura,ricos em proteína para fortificar a musculatura,mas principalmente ter uma quantidade maior de fibras,porque o intestino do cão funciona melhor e ele defeca mais,fazendo-o perder peso — explica Lopes.

Segundo o médico,a alimentação essencial para um cachorro precisa ser completa.

— Vamos supor que o seu cachorro está com sobrepeso e você quer dar um salmão para ele. À primeira vista é ótimo,como o atum para o gato. É uma proteína saudável,porém é gordurosa. Se o seu cão já está com sobrepeso pode não tiver um acompanhamento profissional — diz o veterinário.

Castração

Além do excesso de ingestão calórica,outro fator que aumenta as chances de o cão ficar obeso é a castração. Isso ocorre porque a retirada das gônadas (testículos ou ovários) reduz drasticamente a produção de hormônios sexuais,como a testosterona. Isso diminui também a taxa metabólica basal,fazendo com que o corpo do cão gaste menos calorias em repouso.

— Esses hormônios também atuam como estimulantes de energia. Sem eles,o cão fica menos ativo,sem disposição para correr ou brincar. O tutor que não sabe disso e não diminui as calorias do cachorro. Ele ingerindo a mesma quantidade de comida,sem fazer exercício físico,acumula gordura e aumenta o peso — explica Lopes.

Segundo o especialista,nesses casos o cão pode ser alimentar de uma ração light de calorias reduzidas nos primeiros meses após a castração ou até se adaptar à nova condição.

Isso aconteceu com Buddy,cão do personal trainer Roberto Stefani,47 anos. O cão da raça pug,de 14 anos,tem predisposição genética para a obesidade. Ele começou a ganhar peso por volta dos 2 anos de idade,depois de ser submetido a uma castração.

Roberto Stefani passeia com seu cachorro Buddy,que está acima do peso,em uma praça em São Paulo — Foto: Edilson Dantas / O Globo

— Eu castrei por orientação médica para evitar alguns tipos de câncer. Ele é um cão pequeno com predisposição para alguns problemas de saúde,principalmente respiratórios,por conta do focinho curto. Depois que castrei,ele ficou muito sedentário. Não gosta de andar,correr,caminhar,nada,só de comer — relata Beto.

O personal diz que a alimentação não é um problema. O cão se alimenta de ração super premium e um biscoito de petisco que ele gosta,mas também sem excessos — um ou dois por dia. Entretanto,o cachorro está pesando de 14 a 16 quilos — o ideal para essa raça é de no máximo nove quilos.

— Ele tem muita dificuldade para respirar,principalmente no calor e agora,por conta do sobrepeso,ele ronca demais. Mesmo acordado,faz barulho de respiração. Parece que é dificuldade para respirar mesmo.

A veterinária Mariana Tiemi diz que a parte respiratória de um cachorro depois do ganho de peso é bastante afetada e que é normal esse roncar,como o do Buddy.

— A qualidade de vida deles muda depois que eles perdem peso. A parte respiratória fica melhor,eles ficam mais dispostos para brincar,ficam mais felizes e até diminuem as chances de terem um desdobramento fatal se precisarem de uma cirurgia. Também cai o risco de terem diabetes,colesterol e triglicerídeos alto — diz.

Suplemento para reduzir peso

A marca de suplementos e snacks funcionais para pets Wigow,fundada pelo empresário Roberto Funari,anunciou que,a partir de setembro,vai comercializar um novo suplemento nutricional desenvolvido para promover maior saciedade e auxiliar no controle do peso dos cães.

— O principal ativo da fórmula é a L-carnitina,nutriente responsável por transportar os ácidos graxos para o interior das mitocôndrias,onde são convertidos em energia por meio da oxidação. Esse processo favorece o metabolismo das gorduras e auxilia no controle do peso corporal — explica a veterinária Ivelize da Costa Mello,que acompanhou o desenvolvimento dos produtos.

O suplemento para cães ainda é composto por proteínas de salmão,fibras e sais minerais. Segundo os fabricantes,o produto favorece a sensação de saciedade e contribui para uma rotina alimentar mais equilibrada.

— Ao comer o suplemento,a L-carnitina processa mais rapidamente a gordura do organismo do animal. Essa metabolização mais rápida ajuda a evitar acúmulo no organismo. É uma ação dentro das células. Ao mesmo tempo,as fibras ocupam espaço maior no trato intestinal,por isso,ao ingeri-las o cão tem a digestão mais lenta,com saciedade por mais tempo— explica a veterinária.

Segundo Mello,dietas enriquecidas com fibras e proteínas de alta qualidade promovem uma redução de até 27% na ingestão calórica,uma vez que dão mais saciedade entre as refeições.

Já a suplementação com L-carnitina esteve associada a uma redução de até 6,4% no peso corporal,por favorecer o metabolismo das gorduras e auxiliar na preservação da massa magra durante o processo de emagrecimento.

O próprio CEO da marca,Roberto Funari,testou o suplemento em seus cães: Sebastião e Teodoro,de 6 e 5 anos,ambos da raça cavalier king charles spaniel.

— Cuido da minha saúde com disciplina,exercícios,alimentação e suplemento,mas percebi que não tinha nada parecido com isso para eles — diz.

Para os médicos veterinários ouvidos pela reportagem,é preciso combater o paradigma cultural de tratar como algo “fofo” um cão acima do peso ou obeso. Ao perceber que seu cachorro se enquadra nessa situação,que está fadigado,sem vontade de brincar,com dificuldade para respirar,deve-se procurar um profissional para investigar o problema. O especialista vai analisar se a questão é apenas de excesso de peso ou se há uma doença endócrina relacionada e receitar o tratamento mais adequado.

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