
Membros da delegação do Irã conversam com torcedores na porta de hotel em Tijuana,México,após confirmação da eliminação — Foto: Guillermo Arias / AFP
GERADO EM: 28/06/2026 - 22:57
O Irineu é a iniciativa do GLOBO para oferecer aplicações de inteligência artificial aos leitores. Toda a produção de conteúdo com o uso do Irineu é supervisionada por jornalistas.
CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO
O jogador Mohammad Mohebi já apertava mãos e distribuía abraços no salão do hotel da seleção iraniana em Tijuana. Aos 48 minutos do segundo tempo,Riyad Mahrez fizera 3 a 2 para a Argélia sobre a Áustria,resultado que,se resistisse por mais três minutos,classificaria o Irã para a segunda fase da Copa. Mohebi virou-se para os torcedores,felicitou um por um e foi procurar os companheiros para dividir a alegria.
Que Jogo É Esse: assine e receba a newsletter de futebol do GLOBO,escrita por Thales Machado,editor de EsportesDespedida de Messi,susto com lesões e amistosos 'festivos': como chega a Argentina para Copa do Mundo
Arya Yousefi,sentado diante da televisão,sorria com a serenidade de quem julgava o serviço concluído. Mehdi Torabi e Milad Mohammadi não se permitiram o mesmo alívio: continuaram imóveis,com a preocupação estampada no rosto. Tinham razão. Instantess depois,Sasa Kalajdzic,recém-colocado em campo pela Áustria,empatou por 3 a 3. A festa parou no meio,o salão ficou em silêncio e o Irã foi eliminado da Copa ali mesmo,na impessoalidade de um saguão de um hotel de rede.
As novas regras do Mundial criaram um purgatório particular. Não se tratava apenas de ser eliminado,mas de permanecer durante horas ou dias entre a vida e a morte,hospedado,concentrado,fazendo recuperação muscular,treinando e acompanhando pela televisão partidas disputadas por seleções que talvez nunca se fosse enfrentar. Como oito dos 12 terceiros colocados avançariam,havia equipes para as quais a fase de grupos terminara no campo,mas continuava aberta numa planilha.
Era preciso preparar a próxima viagem sem saber se ela aconteceria,estudar possíveis adversários e conservar o corpo para uma partida eliminatória enquanto se procuravam voos de volta para casa. A Copa havia acabado. Só esqueceram de avisar.
Nenhuma seleção permaneceu por tanto tempo nessa sala de espera do Mundial quanto a Coreia do Sul. Depois da derrota por 1 a 0 para a África do Sul,em 24 de junho,os coreanos voltaram à base no Chivas Verde Valle,em Zapopan,no México,e continuaram trabalhando como uma equipe ainda inscrita na competição.

Técnico da Coreia do Sul — Foto: Yuri CORTEZ / AFP
Na quinta-feira,foram fotografados correndo no gramado,um pouco constrangidos. Naquele momento,havia duas Copas possíveis: uma levaria a Coreia até Boston para enfrentar a Alemanha na segunda-feira; a outra terminaria em Seattle,na quarta,diante do vencedor do Grupo G. A seleção começara a espera como a quarta melhor terceira colocada. Ao fim da quinta-feira,era a sexta. Na sexta,caiu para oitavo,a última vaga de classificação,e assim foram dormir uma última noite no purgatório da concentração.
Quando a Bélgica terminou na liderança do Grupo G,Boston desapareceu do roteiro e restou apenas Seattle. No sábado,os jogadores tornaram a vestir o uniforme de treino e correram em Zapopan. Algumas horas depois,os resultados dos últimos grupos eliminaram também o bilhete para Seattle. Foi uma eliminação em prestações. A Coreia não caiu de uma vez,ao fim de uma partida: perdeu primeiro uma posição,depois outra,depois um possível adversário,uma cidade e,por fim,o direito de continuar. Durante três dias,o planejamento foi reescrito por gols marcados a milhares de quilômetros. Na quinta,a equipe se preparava para enfrentar Alemanha ou Bélgica; na sexta,apenas Bélgica; no sábado,ninguém. O treino daquela manhã havia sido para um jogo que jamais existiria.
A Escócia viveu espera parecida,mas com menos convicção. Depois de perder por 3 a 0 para o Brasil,em Miami,também no dia 24,o técnico Steve Clarke foi honesto a ponto de se antecipar à matemática: “Acho que vamos para casa”. A tabela,no entanto,ainda não autorizava o adeus. Os escoceses voltaram à base em Charlotte e permaneceram disponíveis enquanto dependiam de resultados em diversos grupos. Kenny McLean definiu a situação sem enfeite: era um jogo de espera. Para os torcedores,numerosos e barulhentos,o problema incluía decidir se compravam passagens e reservavam hotéis na região de Boston,em Nova York/Nova Jersey ou em Kansas City,possíveis sedes de uma partida que talvez não houvesse. O treinador já falava como eliminado,a torcida começava a se despedir e a delegação permanecia tecnicamente viva. Só dois dias depois,quando a Croácia venceu Gana,a planilha finalmente concordou com Clarke.
Nem todos deixaram o purgatório num voo de volta para casa. O Paraguai terminou sua chave com quatro pontos,depois do empate sem gols com a Austrália,mas ainda precisou aguardar os grupos seguintes. Na manhã posterior à partida,a seleção retomou o trabalho no Spartan Soccer Complex,em San José. Os atletas que não haviam jogado ou permanecido pouco tempo em campo fizeram atividades na academia e exercícios com bola; os titulares cumpriram trabalho regenerativo no hotel.
Quando os resultados do Grupo H confirmaram a classificação,o treino ganhou endereço: o Paraguai viajaria para Boston e enfrentaria a Alemanha. O expediente que,para os coreanos,terminou como ensaio para coisa nenhuma tornou-se,para os paraguaios,a primeira preparação para o mata-mata.
O regulamento é estranho não apenas porque exige calculadoras,tabelas paralelas e especialistas capazes de explicar por que um gol entre Áustria e Argélia altera o destino de jogadores sentados num hotel no México. Ele compara campanhas produzidas em grupos diferentes,contra adversários diferentes,e distribui informação de maneira desigual: quem joga no último dia entra em campo conhecendo pontos,saldos,gols e necessidades de quem terminou três dias antes.
A Fifa adotou os 12 grupos de quatro depois de abandonar a ideia original de 16 de três seleções e afirmou que o novo formato reduziria o risco de combinação de resultados,preservaria a integridade esportiva e equilibraria o descanso. Resolveu a possibilidade de dois times disputarem a última rodada enquanto um terceiro apenas assistia,mas manteve a simultaneidade somente dentro de cada grupo. Alguns jogaram às cegas; outros já conheciam as contas.

Torcedores reagem enquanto o atacante da Áustria,comemora o terceiro gol de sua equipe durante a partida entre Argélia e Áustria,pelo Grupo J da Copa do Mundo de 2026,no Kansas City Stadium,em Kansas City,em 27 de junho de 2026. — Foto: JUAN MABROMATA / AFP
Nenhuma partida expôs melhor essa contradição do que Áustria e Argélia. As duas entraram em campo sabendo que o empate classificaria ambas e eliminaria o Irã,uma circunstância que evocava o Mundial de 1982,quando Alemanha Ocidental e Áustria produziram o resultado conveniente que tirou justamente os argelinos e levou a Fifa a tornar simultânea a última rodada de cada grupo.
Desta vez,não houve a modorra esperada nem indício sério de acordo: foram seis gols,duas viradas e uma troca de classificados nos acréscimos. Mahrez marcou aos 93 minutos e ofereceu ao Irã uma vaga improvável; Kalajdzic empatou aos 96 e a retirou. O jogo foi emocionante demais para ser chamado de combinação,mas o fato de o empate servir aos dois lados era uma criação do formato. O espetáculo salvou o regulamento de sua imagem mais constrangedora; não o absolveu de sua lógica.
O Irã acompanhou tudo no Marriott de Tijuana,hotel protegido por barreiras,policiais e integrantes da Guarda Nacional mexicana e transformado,ao longo da Copa,numa espécie de abrigo para a delegação. Torcedores viajaram de Los Angeles,San José e até Miami para apoiar a equipe,e crianças da cidade aguardaram autógrafos na porta. Depois da eliminação,a federação agradeceu formalmente à população mexicana e disse que deixar Tijuana seria difícil.
Foi ali que o purgatório da Copa ganhou uma imagem: jogadores que já haviam encerrado suas partidas,atravessado uma fronteira,treinado,dormido e acordado continuavam sem saber se ainda pertenciam ao Mundial. Até que alguém,em outro estádio e com outra camisa,marcou o gol que enfim os mandou embora.
Coisas dessa Copa.

© Hotspots da moda portuguesa política de Privacidade Contate-nos