CULTURA Jun 9, 2026 IDOPRESS

Entrevista: após tirar 1 no Enamed, UFPA busca ajuda em curso de federal de Caicó que conseguiu nota máxima, diz reitor

Campus da UFPA na cidade de Altamira — Foto: Divulgação

RESUMO

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GERADO EM: 08/06/2026 - 21:51

UFPA Busca Apoio Externo Após Nota Baixa no Enamed e Celebra Captação de R$ 60 Milhões para Pesquisa

A UFPA,após obter nota 1 no Enamed,busca auxílio da Universidade Federal do Rio Grande do Norte,em Caicó,que obteve nota máxima. O reitor Gilmar Pereira da Silva planeja implementar mudanças no curso de Medicina de Altamira,que enfrentará supervisão e redução de vagas. Paralelamente,a UFPA celebra a maior captação do programa Capes Global para internacionalização da pesquisa,com R$ 60 milhões previstos para os próximos cinco anos.

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O reitor da Universidade Federal do Pará (UFPA),Gilmar Pereira da Silva,de 64 anos,afirmou que vai procurar ajuda na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN),após o desempenho do campus de Altamira no Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed). A instituição paraense foi a única da rede do Ministério da Educação que tirou nota 1,em uma escala de 1 a 5,no teste que avaliou a formação de médicos no Brasil e acabou punida.

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— Nós estamos cuidando o máximo possível para resolver essa situação. Quando saiu o resultado,no dia seguinte fomos a Altamira,que fica a 800 km de Belém. Fiquei lá com a equipe de graduação,e montamos uma equipe para ver a gestão de um curso em Caicó (RN),da Universidade Federal do Rio Grande do Norte,que foi criado mais ou menos ao mesmo tempo e tirou nota 5 — afirmou o reitor.

Em entrevista ao GLOBO,o reitor,que é professor na instituição do Pará há 35 anos,fala das mudanças que pretende implementar no curso mal-avaliado,aponta dificuldades orçamentárias e comemora ter sido a universidade do país com o maior montante captado junto à Capes Global para internacionalização da pesquisa.

O curso de Medicina da UFPA de Altamira ficou com a nota 1 no Enamed e vai precisar reduzir em 50% o número de novos alunos enquanto passa por um processo de supervisão. Como o senhor explica esse resultado?

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É um resultado triste,ficamos muito impactados. Não é nada agradável. É um curso novo,e eu tenho a avaliação que não é nota 5,mas também não é nota 1. Ainda há muito da displicência do Enade no Enamed. Inclusive,ouvi do MEC que estão estudando a possibilidade de colocar a nota de cada aluno no histórico,e acho isso interessante,porque assim avaliamos os estudantes junto. É uma responsabilidade coletiva.

O senhor avalia que a infraestrutura impacta?

Só agora vamos fazer um prédio específico para medicina com recursos do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento). A estrutura é importante,mas não é só isso. Conheço escolas de medicina privadas que também foram criadas agora e muitas delas tiraram notas razoáveis e ruins,além de outras com notas maiores que não tem nossa estrutura. Outro ponto que também dá muito trabalho é que os médicos não querem ser professores de medicina,porque eles terminam a graduação ganhando mais que um velho professor como eu. Quando assumi a vice-reitoria,montamos um mestrado para eles,porque eram somente graduados. E agora queremos ter um grupo de médicos com doutorado.

Que outras medidas a UFPA está tomando para reverter esse cenário e quanto tempo a reitoria acha que isso vai levar?

Nós estamos cuidando o máximo possível para resolver essa situação. Quando saiu o resultado,que foi criado mais ou menos ao mesmo tempo e tirou nota 5. O importante é que o Enamed é anual,e essa foi somente a primeira avaliação. Tenho clareza que já no próximo ano esse cenário será revertido. No geral,precisamos de estrutura física,de equipamentos,melhorar a formação dos professores e aprender com as experiências que deram certo.

Quanto a UFPA captou da Capes Global e quais pesquisas receberão esse dinheiro?

A Capes vai financiar mais de 30 estruturas de política de internacionalização de universidades do Brasil,e a UFPA ficou em primeiro lugar,com a maior nota no edital. Hoje,a gente investe cerca de R$ 1,5 milhão com internacionalização,e agora passaremos a ter R$ 12 milhões durante cinco anos,o que representa um orçamento de R$ 60 milhões. Há um avanço muito significativo.

Por que a UFPA conseguiu captar mais esse ano,à frente de outras instituições?

Tem um conjunto de coisas importantes nisso. Primeiro,a gente tem trabalhado fortemente essa questão de internacionalização e,durante a COP30,fomos a única universidade do mundo com um stand na Zona Azul (onde ocorrem as negociações oficiais entre os países). Depois,a Capes considera "universidade consolidada" aquela com 10 ou mais programas de pós-graduação (mestrado e doutorado) com notas 6 e 7. Nós temos 14. Na Amazônia,só nós temos.

Qual o impacto desse montante para a produção científica na UFPA?

Ao todo,temos 170 cursos de pós-graduação. Na última quadrienal da Capes (avalia cursos com notas de 1 a 7),pela primeira vez,passamos a ter mais programas com notas 4 e 5 do que com nota 3 (mínimo exigido para funcionamento). A nossa expectativa é que na próxima avaliação a gente tenha um número maior de programas com notas 6 e 7.

E por que isso é importante?

É importante para a internacionalização da UFPA. Os programas 5 são considerados de excelência nacional,enquanto os programas 6 e 7 são de excelência internacional. Para conquistar isso,é preciso avançar no diálogo com outros países do mundo,o que vamos poder fazer a partir desse orçamento. Trazendo professores da África,América Latina e Europa,mas também levando nossa comunidade para esses lugares. De R$ 1,5 milhão para R$ 12 milhões,é um avanço de oito vezes.

Como foi a implementação do curso de IA na UFPA?

Foi uma conquista importante. A gente já tinha linhas de pesquisa de mestrado e doutorado na área e,quando eu assumi a reitoria,queria uma graduação em Inteligência Artificial. Eu disse: "não tem professor,mas eu quero o curso". Já fizemos a primeira seleção no Enem,com 30 vagas já em funcionamento. Nós temos cursos de Ciência da Computação e Sistema de Informação,como algo em torno de 25 a 30 professores que cuidarão disso. Muitos deles já estudam esse tema,e agora podem aplicá-lo na juventude.

E qual a expectativa para os próximos anos?

Queremos ter uma disciplina de introdução à inteligência artificial em todos os cursos da graduação,e nossa expectativa é ter um número pequeno de professores capazes de circular em todos eles. Todos nós,jovens e mais velhos,precisamos ter uma noção mínima do que é isso e se apropriar dos principais conceitos.

Por que a UFPA decidiu abrir uma graduação de IA?

A gente deseja aplicar isso na Amazônia. Entender a dinâmica dos rios,da floresta,das populações tradicionais. Queremos preparar o nosso povo para lidar com essa nova capacidade de síntese e racionalidade,além de haver uma questão ética de utilização dessa ferramenta que também precisa ser discutida.

O orçamento discricionário da UFPA,hoje,é suficiente para todas as demandas?

Não. As universidades brasileiras se desafiam permanentemente,porque não podem parar. Infelizmente,a educação pública ainda não é para todos.

Universidades com muita história costumam ter prédios históricos que trazem desafios à gestão. A UFRJ,por exemplo,sofre para conservar muitos prédios. A UFPA é de 1957. Ela também tem esse desafio? Que prédios estão precisando de reformas e quais soluções são pensadas pela reitoria na falta de orçamento discricionário para essas obras?

A UFPA faz 70 anos no dia 2 de julho de 2027. Temos muitos prédios antigos,que são parte do Centro Histórico de Belém,e isso dá muito trabalho. O Convento dos Mercedários,estamos restaurando com apoio do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social). Para ter uma ideia,temos uma universidade com 12 campus e,em cada um deles,a estrutura física é a maior estrutura da cidade. O campus do Guamá,em Belém,é o maior conjunto arquitetônico da capital,mas o recurso que temos para manutenção é pequeno,o que gera esse desafio constante.

A UFPA tem aumentado bastante o número de alunos indígenas,quilombolas e,mais recentemente,trans. Esse é um público que,em geral,requer um reforço na assistência social. A universidade tem conseguido apoiar com bolsa permanência ou outro tipo de bolsa todos esses estudantes?

Nosso número de alunos quilombolas é um dos maiores do Brasil,com algo em torno de 4 mil estudantes,além de 507 indígenas. Além do Enem,temos um processo seletivo próprio específico para esses dois grupos. Há uma Associação dos Povos Indígenas dentro da UFPA,e também a Associação dos Discentes Quilombolas. Mas ainda está muito longe do ideal,porque precisamos ter condições de receber mais pessoas. Há muita gente que deseja estar na universidade e não consegue. Eu defendo,uma busca ativa de indígenas: visitar as aldeias,conversar com a comunidade e com as lideranças. Ao contrário dos quilombolas,eles não têm rede de apoio nas cidades. A gente garante alimentação no restaurante universitário e temos um alojamento,que é pequeno para uma universidade com mais de 50 mil alunos. Neste ano,também teremos um processo seletivo especial para pessoas trans,e nosso desejo é uniformizar esse acesso.

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