CULTURA Jun 6, 2026 IDOPRESS

João Traven, idealizador da Maratona do Rio, lembra início do evento, com devolução de chip, e projeta os 42km à parte do festival

João Traven: idealizador da Maratona do Rio — Foto: Fabiano Rocha / Agência O Globo

RESUMO

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GERADO EM: 03/06/2026 - 14:04

João Traven quer Maratona do Rio entre as maiores do mundo

João Traven,idealizador da Maratona do Rio,reflete sobre o início do evento e seus planos futuros. Desde 2003,a maratona se tornou o maior festival de corrida da América Latina. Traven sonha em torná-la uma maratona major,ao lado de eventos como Nova York e Chicago. A primeira edição surgiu após sua experiência na Maratona de Nova York em 1988,onde se inspirou pela grandiosidade do evento.

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João Traven,de 64 anos,é figura certa nas provas da Maratona do Rio. Ele não corre,não. Chega antes de todos,madruga mesmo. E quando é dada a largada,está na garupa da primeira moto,aquela que vai na frente "controlando o evento". Diretor da Spiridon,ele é o idealizador e organizador da Maratona do Rio,o maior festival de corrida de rua da América Latina,desde a primeira edição.

O evento,em sua 24.ª edição,acontece na cidade desde quinta. Domingo será realizada a principal prova,a de 42km. Neste sábado acontece os 21km.

— Meu sonho é vê-la integrante das maratonas major — diz Traven,referindo-se às mais importantes maratonas do mundo,que inclui a de Nova York,Chicago,Berlim,Londres,entre outras. 

Foi em 1988,quando Traven correu a Maratona de Nova York e teve a ideia de fazer o mesmo por aqui. Segundo ele,o Rio já tinha uma maratona,mas "não no mesmo nível". O projeto demorou a sair do papel,somente em 2003.

De lá para cá,Traven correu cerca de 20 vezes a Maratona de Nova York e organizou mais de 20 edições da Maratona do Rio.

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João Traven com sua cadela Princesa,no Leblon,local por onde passará a Maratona do Rio. — Foto: Fabiano Rocha / Agência O Globo

E pensar que tudo começou com o Barney,seu cachorro. Traven começou a correr para perder peso e na companhia do pet.

— Quando dei a primeira volta da Lagoa,com os amigos,eu quis mais. O bicho da corrida me mordeu.

Hoje Traven "corre muito pouco". Prefere caminhar,fazer musculação e hidroginástica para "o corpo rodar". Mantém a programação de passear com o cachorro. Agora é a pug Princesa.

A última corrida que concluiu foi a Corrida do Time Brasil,no ano passado,5km,no Parque Olímpico.

— Ih,da Maratona do Rio? Nem lembro. É anterior à época que passei a organizar. Me inscrevo todo ano para os 5km e não consigo ir (risos).

Nesta entrevista ele lembra como tudo começou,em uma época em que não se vendia tênis importado no Brasil,e sobre os planos futuros para a Maratona do Rio,que poderá deixar de ser um festival para vislumbrar o seleto grupo das poderosas maratonas.

Você é um maratonista. Quando começou a correr?

Tinha uns 19 anos,era bem gordo e queria emagrecer. Morava em Ipanema e levava o meu cachorro,o Barney,uma mistura de pastor alemão com fila brasileiro,para passear. Corria 500 metros e ele saía bem e eu,cansado. Ele aguentava e eu não. Foi o Barney que me ajudou a entrar na corrida.

Demorou quanto tempo para você se equiparar ao Barney?

Uns seis meses. Depois,ele já me atrapalhava (risos). Fui gostando da corrida à medida que fui perdendo peso. Tempos depois,entrei numa academia e o pessoal me convidou para dar uma volta na Lagoa. Consegui dar a minha primeira volta da Lagoa,logo de cara. Achei aquilo o máximo da minha vida. Fiquei um pouco dolorido no dia seguinte mas extremante feliz. Foi aí que o bicho da corrida me mordeu.

E quando fez a primeira prova?

Passei a correr todos os dias,já dava duas voltas na Lagoa (cerca de 15 quilômetros) e,em 1981,fiz minha primeira corrida,a Corrida da Ponte Rio-Niterói,com 21 km. A próxima meta foi a maratona. E corri a Maratona do Rio,que já existia na cidade com outra organização. Mas antes de correr,quis acompanhar a prova para ver como era. Naquela época não tinha assessoria de corrida,essas coisas. Acompanhei a maratona de moto,depois de bicicleta e então parti para a corrida. Acho que foi em 1982.

E como ficou a luta contra a balança?

Eu nunca fui magro,magro. Mas o treino para uma maratona te obriga a fazer os longões. E isso emagrece. Eu cheguei a ter 110 quilos ainda novo. Cada quilo perdido melhorava meu tempo na corrida e me empolgava.

Banda anima corredores em Botafogo,em percurso dos 42km da Maratona do Rio — Foto: Rafael Brugneroti/Divulgação Fotop

E quando surgiu a ideia de organizar a Maratona do Rio?

Em 1987 fui trabalhar com turismo e no ano seguinte corri a Maratona de Nova York. Eu estava bem magro nesta época,menos de 80 quilos. Aí eu vi o que era uma maratona de verdade,a grandiosidade daquele evento. Ali decidi que queria organizar uma maratona no Rio de Janeiro. Uma corrida daquele nível. Montei a Spiridon em 1992 e a gente conseguiu realizar a Maratona do Rio somente em 2003.

Por que que demorou tanto?

Basicamente por questões de patrocínio e porque já existia uma outra maratona na cidade. A gente não conseguia fazer. De 2000 a 2002 teve um hiato,nenhuma organização conseguiu realizar a prova na cidade. E daí a gente pegou essa brecha. E esta é a prova que se mantém até hoje. A primeira edição teve a largada no Recreio e chegada no Aterro do Flamengo.  

Das grandes maratonas,quais correu?

Corri a Maratona de Nova York umas 20 vezes. Para mim era a melhor maratona. Foi a única que corri fora do Brasil. Mas vi outras,como Chicago e Berlim. 

Por que você quis organizar uma maratona no Rio se já existia uma corrida semelhante?

Nova York me convenceu. À época,eu quis comprar um tênis e não tinha tênis de corrida importado no Brasil. Deixei para comprar depois da prova em Nova York. Pensei que ia ficar mais barato. Resultado,não tinha mais tênis. As pessoas invadiram a cidade,compravam tudo o que tinha. Fui encontrar um tênis roxo,pouco usual,num bairro super distante. A cidade ficava completamente envolvida pela maratona,respirava a corrida... Era restaurante dando desconto,as pessoas com medalha não pagavam metrô... Achei aquilo o máximo. Já existia uma maratona no Rio mas não era assim. As provas antigamente,com todo o respeito,deixavam a desejar. Faltava um lado mais profissional. Eu queria ter uma maratona com o nível da Maratona de Nova York. Minha meta sempre foi ser como Nova York. E hoje somos. 

E como foi a primeira Maratona do Rio organizada pela Spiridon?

Desde o início até hoje acompanho a prova,de moto,lá na frente,puxando. O percurso,ponto a ponto,do Recreio ao Aterro,já foi o melhor percurso,o primeiro. Porque o corredor passeia pela cidade,faz turismo. Além da maratona,teve uma corrida de 6km que chamamos de Corrida pela Paz,para ter público na chegada. Ao todo foram 3 mil pessoas. Hoje temos 67 mil,em todas as provas.

Como era a questão do chip para marcação de tempo?

O chip era separado do número de peito. Geralmente colocado no tênis. E os corredores tinham de devolvê-lo depois. Hoje,é descartável. Tínhamos de ter uma operação de guerra para pegar o chip de volta (risos). E quem levava o chip para casa recebia uma carta,ligação,telegrama ou fax (risos) da organização para devolverem. O chip era caríssimo.

Público acompanha chegada dos 21k da Maratona do Rio de 2024,no Aterro do Flamengo — Foto: Divulgação

E o número de peito,cronometragem...  

Outra evolução é o próprio número de peito. Eu cheguei a correr com número de peito de tecido,porque o papel era ruim. Quando molhava,estragava. Prendíamos com alfinete. Isso não mudou,mesmo com as presilhas. Outra evolução maravilhosa é a cronometragem. Era manual. O corredor pegava o picote do seu número de peito e entregava no funil de chegada. Era colado em uma cartolina numerada. Quando a cartolina enchia,abria outro funil de chegada para preencher outra cartolina. O tempo era dado pelo cronometro,na mão mesmo. E quando batia vento e as cartolinas saíam voando (risos)? Vi acontecer. 

Você tem saudade desta época?

Cara,água gelada não tinha,assim como cone de rua para marcação do percurso. Muita gente errava o caminho. Era uma época diferente. Imagina que não tinha tênis importado no Brasil. Meu primeiro tênis importado achei via classificado de jornal. Era um Nike usado. Só usava para fazer os treinos longos nos finais de semana. Usava no sábado e depois levava para um sapateiro no Leme. Ele reformava o tênis e eu só usava de novo no final de semana. Durante a semana eu usava outro.

Quando vê a Maratona do Rio do tamanho que está,o que pensa,o que sente?

Claro que pensava em organizar uma prova para crescer,mas não vislumbrei estar nesse patamar. Sinto muito orgulho,mas queremos crescer mais. Miramos ser uma das melhores do mundo. Claro que temos problemas,trata-se de um evento grande,enorme. O que temos de fazer é aprender com os erros para não repiti-los. Temos problemas com todas as letras. Fala uma.

Letra x

Xixi,temos problemas com isso também. Quantidade de banheiro,pessoal que faz xixi na rua... (risos). 

João Traven: de gordinho a maratonista — Foto: Fabiano Rocha / Agência O Globo

Qual o seu sonho pensando em Maratona do Rio?

Ver a Maratona do Rio ser uma major. Eu vou ver isso com certeza.

Este processo ainda não foi iniciado mas este ano "olheiros" estarão no Rio para conhecer a prova. Qual o grande passo que falta?

São degraus,a questão do percurso,por exemplo,já ajustamos com a retomada do percurso de origem,saindo da Reserva. Temos ruas mais largas e podemos ter mais gente rápida. Mas,a própria Maratona de Londres,um sucesso absoluto,tem trechos mais estreitos. Estamos estudando como fazer para crescer ainda mais nos 42km,para seguir esse caminho. Lá na frente teremos de separar as provas. Essas maiores,as mais poderosas tem,no máximo,uma prova de 5km junto,tipo um fan run na véspera da maratona. Então,não teríamos mais um festival como existe hoje em dia. A meia maratona,teria de ser desgrudada. Já estamos neste planejamento. 

Falando em Londres,após o recorde de Sebastian Sawe,você acha que vivemos um clima de oba-oba para quebra de recordes?

Veja que a marca esportiva que o patrocina,também é a marca que patrocina a Maratona do Rio. E como eles venderam tênis! Natural que o clima esteja no ar. Isso estimula todo mundo,todo o ecossistema da corrida.

Você está em todas Maratonas do Rio,frequenta o mundo do running há décadas. Você é reconhecido na rua?

Nas provas,as pessoas me chamam,gritam,me reconhecem sim. É muito legal. Fora também. Eu caminho nos lugares em que as pessoas treinam,estou sempre com as camisas da Maratona do Rio. Acaba facilitando. No ano passado,em um jantar da empresa,em uma churrascaria na Barra da Tijuca,quatro garçons me reconheceram. Não tinham conseguido fazer suas inscrições para a edição passada. Foi o melhor atendimento que tivemos na vida (risos),não largavam a nossa mesa. Posso dizer que eles estão inscritos para correr este ano (risos). Veja,a gente tem de fazer uma prova muito bem feita porque os nossos clientes estão ao nosso lado,em qualquer lugar.

Meia Maratona Internacional do Rio de Janeiro de 2025: edição atual fará parte do Campeonato Brasileiro de Corrida de Rua da CBAt — Foto: Moska/Divulgação

Recebe mais elogio ou crítica?

Elogios,os críticos não aparecem. Não falam na nossa frente,usam as redes sociais para falar. É difícil agradar a todos,né? Teve um ano que mudamos a cor da camisa dos 42km,de laranja para azul,e fomos muito criticados. No ano seguinte,voltamos ao laranja.

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