CULTURA May 28, 2026 IDOPRESS

Das camisas às figurinhas: falsificação de itens dispara no pré-Copa e desafia autoridades diante de prejuízo bilionário

Camelô vende camisas da seleção brasileira e de clubes nacionais na Avenida Atlântica,em Copacabana: Figurinhas falsificadas alvo de ação da Polícia Civil no Rio — Foto: Márcia Foletto/Agência O Globo e Divulgação/Polícia Civil do Rio

RESUMO

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GERADO EM: 27/05/2026 - 22:51

Falsificação de Produtos da Copa do Mundo Aumenta no Brasil e Preocupa Autoridades

Às vésperas da Copa do Mundo,a falsificação de produtos relacionados ao evento,desde camisas de seleções até figurinhas do álbum oficial,tem crescido no Brasil,desafiando as autoridades. A Receita Federal e polícias intensificaram operações,apreendendo milhares de itens falsos,principalmente de origem asiática,em ações recentes. Estima-se que o mercado ilegal esportivo cause prejuízo anual de R$ 32 bilhões.

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Às vésperas da Copa do Mundo,que começa em menos de um mês,a falsificação de itens alusivos ao evento esportivo que mobiliza paixões disparou pelo país,abrangendo produtos que vão de camisas de seleções,sobretudo a brasileira,a figurinhas do álbum oficial. O aperfeiçoamento do mercado criminoso,abastecido em especial por materiais oriundos da Ásia,desafia as autoridades responsáveis pela fiscalização e tem feito com que órgãos como a Receita Federal e as polícias estaduais,e até a Polícia Federal (PF),intensifiquem as ações de combate à clandestinidade.

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Só nas últimas duas semanas,pelo menos três grandes operações resultaram na apreensão de centenas de milhares de itens falsos em São Paulo e no Rio de Janeiro. Entidades estimam que o mercado esportivo ilegal gere um prejuízo de R$ 32 bilhões por ano,um quarto desse montante apenas com camisas de futebol que imitam as originais.

Coordenador-geral substituto de Combate ao Contrabando e Descaminho (Corep) da Receita,Maurício Santos Silva confirma o aumento do fluxo de produtos falsificados com a proximidade do Mundial. Ele explica que,diferentemente do que ocorreu em edições anteriores da Copa,quando mascotes e bolas oficiais também mobilizaram os fraudadores em larga escala,são justamente as camisas que se tornaram o suprassumo da ilegalidade em 2026.

Material apreendido pela Receita no Porto de Santos: 22 toneladas de camisas de times recolhidas em um só dia — Foto: Divulgação/Receita Federal

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Silva calcula que,nos primeiros meses do ano passado,cerca de 100 mil exemplares do gênero foram recolhidos pela Receita Federal. No início de 2026,em período similar,o número se multiplicou por dez,alcançando 1 milhão de camisas esportivas apreendidas pelo órgão:

— Grandes eventos,como a Copa e as Olimpíadas,sempre levam a uma maior comercialização de itens ilegais. A gente já conta com esse aumento nas nossas análises de risco e nos preparamos para fazer ações específicas para coibir a circulação no país desses exemplares — explica o auditor.

A maior ação da Receita até o momento aconteceu há dez dias na região do Brás,na capital paulista,quando dois shoppings foram fechados por conta da venda de mercadorias irregulares. Ao todo,mais de 2 mil lojas foram fiscalizadas e,de acordo com Santos Silva,os trabalhos para contabilizar os itens retirados de circulação na Operação Desvio de Rota ainda não foram concluídos.

Foram aproximadamente 250 toneladas de produtos apreendidas na ocasião — dessas,90 relacionadas de algum modo à Copa do Mundo. Além do vasto volume,a falsificação em alguns casos é tão elaborada que torna-se necessário submeter o material a perícia.

Outro ponto de atenção dos agentes tem sido a via portuária,tradicional entrada no país de conteúdos criminosos. Na semana passada,a Receita apreendeu 22 toneladas de camisas de times falsificadas em um contêiner no Porto de Santos,no litoral de São Paulo. A carga com cerca de 120 mil peças,originária da China,foi avaliada em R$ 3,3 milhões. Os produtos estavam escondidos atrás de cerca de duas toneladas de malas,numa tentativa de burlar a fiscalização.

Além de uniformes da seleção brasileira,haviam falsificações dos trajes das equipes de Canadá,Portugal,Itália,Argentina,Colômbia,México,Espanha,Alemanha e Japão. Clubes não escaparam da falcatrua,com itens de times como Flamengo,Botafogo,Santos,Portuguesa e Atlético Mineiro.

Segundo a Receita,outros 15 contêineres foram retidos no Porto de Santos nos últimos meses,resultando em 75 toneladas de produtos falsificados recolhidos. O órgão estima que cerca de 428 mil camisas esportivas estejam entre eles.

Produzidos no exterior

Dados do Anuário da Falsificação,divulgado ontem pela Associação Brasileira de Combate à Falsificação (ABCF),colocam o setor de material esportivo como o terceiro mais afetado pela clandestinidade,com perdas de R$ 32 bilhões entre fevereiro do ano passado e o mesmo mês de 2026. Ele fica atrás apenas dos vestuários (R$ 55 bilhões) e das bebidas alcoólicas (R$ 89,5 bilhões). Só as cópias ilegais de camisas de futebol,aponta o documento,resultaram em um desfalque de R$ 8 bilhões.

— Cerca de 70% desses materiais irregulares são produzidas no exterior,principalmente na Tailândia e na China. Os outros 30% são confeccionados em fábricas clandestinas,a maioria instalada no estado de São Paulo — descreve Rodolpho Heck Ramazzini,diretor da ABCF e advogado especializado no combate a fraudes,falsificações e contrabando.

Ramazzini conta que as polícias civis estaduais e a PF fizeram 57 operações para apreender camisas de times em 2025 após denúncias apresentadas pela associação. Além do trabalho de repressão,contudo,outro desafio é a busca da conscientização da sociedade.

— O aumento da venda de materiais falsificados ocorre devido ao aumento da procura pelos produtos. Mas o consumidor sempre deve estar atento a dois fatores: qualidade e preço. Se for um material muito inferior aos demais ou com um preço menor do que o praticado pelas lojas oficiais,ele deve desconfiar — ressalta o delegado Wagner Carrasco,responsável pela 1ª Delegacia de Investigações sobre Crimes Contra a Propriedade Imaterial da Polícia Civil de São Paulo.

A pena para quem comercializa,importa,exporta,mantém em depósito ou vende produtos falsificados varia de 2 a 4 anos de prisão,além de multa. Já quem compra os itens,se provado que o fez consciente da pirataria,pode responder por receptação,com pena de 1 a 4 anos de reclusão. Carrasco frisa que a prática pode,inclusive,resultar numa prisão em flagrante.

Em abril,uma operação da Polícia Civil paulista na região central da capital,que abrange polos comerciais como a 25 de Março,prendeu seis pessoas em flagrante pela venda de camisas de futebol falsificadas. A ação recolheu 2,7 mil itens.

‘Qualidade diferente’

Outro item alvo de falsificação frequente por parte de criminosos são as figurinhas do álbum oficial da Copa do Mundo. Na última sexta-feira,agentes da Delegacia de Repressão aos Crimes contra a Propriedade Imaterial (DRCPIM) do Rio apreenderam 200 mil exemplares adulterados,além de milhares de camisas falsificadas da seleção brasileira. O material foi localizado no compartimento de carga de um ônibus em Nova Iguaçu,na Baixada Fluminense,e seria distribuído na capital e na Região Metropolitana do estado.

— Pelo tato já dá para perceber. O papel tem uma qualidade diferente,é mais poroso e mais grosso. Além disso,a resolução é inferior,e a figurinha é mais opaca,brilha menos. A embalagem também apresenta diferenças visíveis,com textura,transparência e acabamento mais elaborado — explicou ao GLOBO na ocasião o delegado Victor Tutman,titular da DRCPIM.

Segundo Tutman,uma das estratégias para facilitar a comercialização do material ilegal era misturá-lo com pacotes de figurinhas originais. Outra tática era a venda pela internet,que impossibilitaria que o comprador identificasse a farsa antes do pagamento.

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