CULTURA Apr 30, 2026 IDOPRESS

Impacto da guerra se espalha na economia

Ataque a um depósito de petróleo durante bombardeios aéreos em Teerã,no Irã,no início deste mês — Foto: Arash Khamooshi/The New York Times

Ataque a um depósito de petróleo durante bombardeios aéreos em Teerã,no Irã,no início deste mês — Foto: Arash Khamooshi/The New York Times

RESUMO

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GERADO EM: 29/04/2026 - 21:26

Guerra afeta economia: chips,alimentos e agronegócio em risco

A guerra impacta a economia global além do petróleo,afetando produção de chips e setor alimentício devido à redução de fertilizantes,crucial para safras de milho e trigo. A inflação sobe e o Banco Central corta juros minimamente. A escassez de insumos pode atingir o Brasil em breve. El Niño antecipado preocupa o agronegócio. Problemas de suprimento se agravam,refletindo na inflação e nas decisões econômicas.

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O impacto da guerra na economia vai muito além do petróleo. Está ameaçando a produção de chips e afetando o setor de alimentos ao reduzir a oferta de fertilizantes. A escassez de insumos agrícolas chegou a algumas economias e em dois meses atingirá o Brasil. A inflação reflete este cenário nos preços,todas as projeções subiram,e por isso,o Banco Central tomou a decisão de fazer apenas um corte de 0,25 ponto percentual,mesmo os juros estando tão altos.

Quando a guerra começou,o Brasil já tinha plantado a sua safra,portanto os produtores brasileiros respiraram aliviados. O Oriente Médio tem um percentual grande na oferta mundial de fertilizantes e de matérias-primas usadas nos insumos agrícolas. A safra americana estava sendo plantada e enfrentou os estilhaços. Só que agora o nosso prazo começou também a se esgotar,como explica o economista José Roberto Mendonça de Barros,a quem perguntei quando a conta vai chegar.

—Não vai demorar muito,porque uma parte dessa folga se esgotou nesses dois meses.

O Brasil diversificou suas compras e importa de diferentes origens. Isso ajuda,mas não resolve.

— Não dependemos essencialmente de ninguém. Para cada um dos três elementos,nós temos vários fornecedores. A soja não precisa de nitrogênio,mas o milho e o trigo precisam e nisso o Oriente Médio é muito importante,porque produz 40% do nitrogênio do mundo. O enxofre é importante para fazer o ácido sulfúrico,que é o que prepara o fertilizante fosfatado. Está faltando enxofre,porque o Oriente Médio tem uma parte bastante relevante nisso. A Rússia é um importante fornecedor de potássio,mas ela tem sua própria guerra. Nós não temos muito mais tempo,porque se passaram dois meses. Tem mais um mês. Mas os preços aumentaram,esse é o ponto. O choque de custos já ocorreu,agora resta saber se vai ter o choque de suprimento — explicou Mendonça de Barros.

A data de plantio é uma janela,e por este motivo,o agronegócio ainda não está no sufoco. Há esses dois problemas: o custo aumentou e há risco de faltar produto,se a guerra continuar. Na MB Agro,o cálculo é que a inflação de alimentos que estava prevista para ser 2,5%,agora deve ficar em 5%. E pode ser mais,se a guerra não terminar logo.

O professor Felippe Serigati,da FGV Agro,acrescenta um ponto de preocupação com o agro este ano. O risco de antecipação do El Ninõ.

— As primeiras estimativas eram de que o fenômeno se abateria sobre o Brasil no fim do terceiro trimestre. As probabilidades de que chegue antes,durante o terceiro trimestre,vêm aumentando. Isso afeta a safra de inverno. O El Niño representa seca no cerrado e aumento de chuvas no sul. Se ele chegar antes vai diminuir o tempo em que o agronegócio atua com o chamado clima neutro.

O agronegócio nos preocupa pelo tamanho do setor na economia,mas há outros gargalos que estão se formando por causa da guerra,explica Mendonça de Barros.

— No primeiro mês do fechamento do Estreito de Ormuz,os preços subiram,mas o sistema continuou operando. A partir do segundo mês,além do choque de preços que aconteceu,começa a ter problemas de suprimento.

Falta combustível,falta produto para a cadeia longa da petroquímica,mas falta também o gás hélio.

—O gás hélio é usado nas foundries,as fábricas de chips,e 30% da oferta mundial sai do Catar. Os estoques de petróleo da Coréia do Sul tendem a cair a níveis insustentáveis durante o mês de maio. A primeira coisa que muitos países fazem é proibir a exportação. A China está bloqueando exportação de fertilizantes,para defender o mercado interno. A Suécia está estudando racionamento — diz Mendonça de Barros.

Falei ontem com uma alta fonte de um país árabe produtor de petróleo,que me disse que,até agora,a produção caiu entre sete a nove milhões de barris por dia. Mas ele tem uma visão diferente da dos analistas. Acha que quando a guerra terminar é possível restabelecer a produção em semanas,e não em meses. E que os países da OPEP decidiram aumentar a produção assim que a logística for restabelecida.

É isso que o Banco Central quis dizer com há incerteza sobre “duração,extensão e desdobramentos” do conflito no Oriente Médio. E o fato de que os impactos do conflito “na cadeia de suprimentos global” afetam a inflação no Brasil. Por isso reduziu os juros em apenas metade de meio ponto e falou em “serenidade e cautela”.

(Com Ana Carolina Diniz e Luciana Casemiro)

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