
Manifestantes protestam em frente à Suprema Corte dos EUA após decisão que abriu caminho para o fim do TPS,programa que protege imigrantes — Foto: Kenny Holston/The New York Times
GERADO EM: 27/07/2026 - 14:04
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Na região de Washington,equipes formadas por trabalhadores nascidos em El Salvador ajudaram a reformar,reconstruir e manter o Capitólio,o Pentágono e o Cemitério Nacional de Arlington. Em instituições de longa permanência para idosos na Flórida,em Massachusetts e em Nova York,cuidadores haitianos auxiliam americanos em atividades diárias. Eles estão entre mais de um milhão de pessoas autorizadas a viver e trabalhar nos Estados Unidos por meio do Status de Proteção Temporária (TPS),programa humanitário criado há décadas,mas que agora corre o risco de ser encerrado pelo governo do presidente Donald Trump. No mês passado,a Suprema Corte americana autorizou a administração a encerrar a iniciativa,e agora diferentes setores da economia se preparam para perder trabalhadores essenciais.
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Cerca de 70% dos beneficiários do TPS participavam da força de trabalho dos EUA,muitos na construção civil e na área de saúde,segundo análise da Universidade da Pensilvânia. Mas,na segunda-feira,cerca de 350 mil beneficiários do programa provenientes do Haiti e de vários outros países perderam suas autorizações de trabalho na primeira onda desde a decisão da Justiça. Outros cerca de 190 mil salvadorenhos poderão ser os próximos a perder o status quando ele expirar,em setembro.
— Para determinados lugares e setores,dezenas de milhares de trabalhadores deixando de poder trabalhar legalmente representarão um impacto muito grande — afirmou Alexander Arnon,diretor de análise de políticas do Penn Wharton Budget Model,organização apartidária de pesquisa que analisou os impactos econômicos do TPS.
Economistas afirmam que a perda desses trabalhadores poderá ocorrer de forma gradual,já que alguns buscarão outras formas de proteção,como asilo,enquanto outros continuarão trabalhando de maneira informal. Ainda assim,entidades empresariais lideradas pela Câmara de Comércio dos EUA iniciaram uma campanha no Capitólio em defesa de medidas legislativas,com o apoio de um número crescente de líderes estaduais e municipais de ambos os partidos.
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“O Congresso pode,e deve,exercer sua autoridade plena sobre a política migratória para evitar perturbações significativas na força de trabalho americana e impedir uma crise humanitária desnecessária”,disse a Câmara de Comércio em carta enviada ao Senado em 10 de julho.
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Autoridades estaduais e locais vêm reforçando essas preocupações. O governador de Ohio,o republicano Mike DeWine,classificou o fim do TPS para haitianos como um “erro” e previu um forte impacto econômico para seu estado. No sul da Flórida,onde vive a maior população haitiana dos EUA,a prefeita do condado de Miami-Dade,Daniella Levine Cava,a comissária Marleine Bastien e líderes empresariais reuniram-se na quarta-feira para discutir as possíveis consequências.
— Encerrar o TPS não economiza dinheiro para os Estados Unidos. Encerrar o TPS custa dinheiro aos Estados Unidos — disse Bastien.
Na quarta-feira,porém,o senador Eric Schmitt,republicano do Missouri,bloqueou uma tentativa dos democratas de estender o TPS para haitianos e criticou o fato de o programa ter se tornado praticamente permanente. Em discurso no plenário do Senado,ele afirmou que o TPS foi “criado para emergências”,mas que os democratas “transformaram isso em um mecanismo de mão única rumo à migração permanente em massa”.
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Criado pelo Congresso e sancionado pelo presidente George H. W. Bush em 1990,o TPS foi feito para oferecer proteção temporária a estrangeiros que já estavam nos EUA e não podiam retornar com segurança aos seus países devido a conflitos armados ou desastres naturais. No entanto,como alguns países permaneceram por anos em crises,o programa tornou-se praticamente indefinido para parte dos beneficiários.
Além disso,como o Congresso não chegou a um consenso para modernizar as leis migratórias,mecanismos como o TPS e o asilo acabaram se tornando,na prática,caminhos para residências de longo prazo ou até permanente. Isso transformou o TPS em alvo de críticas de parte dos opositores do sistema migratório,entre eles Trump,que faz do encerramento do programa uma prioridade desde seu primeiro mandato.
Após retornar à Casa Branca no ano passado,Trump retomou os esforços para extinguir o TPS e,depois de mais de um ano de disputas judiciais em diferentes estados,obteve uma decisão da Suprema Corte autorizando o Poder Executivo a revogar o programa.
Durante anos,empresas e setores que empregavam beneficiários do programa defenderam tanto esses trabalhadores quanto o próprio TPS como fonte de mão de obra motivada para vagas frequentemente difíceis de preencher. Mas,à medida que Trump intensificou os esforços para revogar a proteção,muitas empresas passaram a evitar manifestações públicas,deixando que associações empresariais a defendessem.
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O governo defendeu a decisão,com o porta-voz do Serviço de Cidadania e Imigração dos EUA,Zach Kahler,afirmando que o Departamento de Segurança Interna está “cumprindo a lei e restaurando o bom senso”. Após a decisão da Justiça sobre o TPS,Stephen Miller,um dos principais arquitetos da política migratória de Trump,foi questionado sobre se o Haiti era um país seguro. Ele então disse à imprensa:
— Para os haitianos? Completamente. Haitianos vivem no Haiti. Não é nossa posição que haitianos devam deixar o Haiti. Seria absurdo afirmarmos que os haitianos não poderiam viver no Haiti. É o país deles.
Os haitianos vivem nos EUA sob a proteção do TPS desde 2010,quando um terremoto matou cerca de 300 mil pessoas. Em 2021,quando o último presidente eleito do país foi assassinado,o país mergulhou em uma onda de violência. Grandes áreas da capital,Porto Príncipe,são controladas por gangues que atacam,sequestram e matam civis,provocando o deslocamento interno de mais de um milhão de pessoas. A economia do país está devastada,e organizações internacionais de ajuda humanitária relatam insegurança alimentar generalizada.
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Ainda assim,a agência de Imigração e Fiscalização Aduaneira dos EUA (ICE) planeja agora intensificar operações para prender imigrantes haitianos,informou a Fox News. Segundo o veículo,agentes federais planejam concentrar as operações em Springfield,no estado de Ohio,cidade que abriga grande população de imigrantes haitianos. O município tornou-se ponto de tensão durante a campanha presidencial de 2024,quando JD Vance disse falsamente que haitianos teriam roubado animais de estimação de moradores para comê-los.
Os EUA têm feito um voo de deportação para o Haiti por mês desde dezembro de 2023. O mais recente chegou à cidade de Cap-Haïtien,no norte do país,em 16 de julho,com mais de 100 deportados. A expectativa é que o número de voos aumente significativamente.
O governo já anunciou que encerrará o programa para a maioria dos países atualmente contemplados,incluindo Etiópia,Mianmar,Somália,Sudão do Sul,Síria e Iêmen. Os empregadores já foram informados de que as autorizações de trabalho dos beneficiários desses países deixarão de ser válidas. Pessoas provenientes de El Salvador,Líbano,Sudão e Ucrânia que receberam TPS ainda mantêm autorização para trabalhar.
Empregadores que contratam pessoas trabalhando ilegalmente nos EUA podem enfrentar multas elevadas e acusações criminais por abrigar imigrantes sem documentação. Já os beneficiários do TPS terão de decidir se permanecem ou deixam o país. Como o governo possui seus endereços,agentes federais conseguem localizá-los com facilidade.
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Ainda não está claro,no entanto,quanto tempo o governo concederá para que essas pessoas organizem seus assuntos e deixem o país. Muitos possuem casas,veículos e contas bancárias,observou Abel Nuñez,diretor-executivo da CARECEN,organização de defesa dos direitos de imigrantes da América Central sediada em Washington.
— Eles dedicaram todos os seus anos de produtividade a este país. Não se trata de poder voltar ao país de origem; este é o lar deles — disse Patricia Campos-Medina,cientista política da Universidade Cornell que fez recentemente um estudo sobre beneficiários centro-americanos do TPS. — A maioria está plenamente empregada,tem filhos nascidos nos Estados Unidos,possui casa própria e administra negócios.
(Com Bloomberg)

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