BELEZA Jul 22, 2026 IDOPRESS

A Flip do 'entrelugar': festa literária, que começa hoje, destaca autores que abordam temas como deslocamento e identidade

Paraty nos preparativos para a Flip — Foto: Alexandre Cassiano

Dá para apontar algumas semelhanças entre a Copa do Mundo,que acabou domingo com a vitória da seleção espanhola,e a Festa Literária Internacional de Paraty,cuja 24ª edição homenageia a poeta Orides Fontela (1940-1998) e começa nesta quarta-feira (22). Ambos os eventos (quase sempre) acontecem no meio do ano,entre junho e julho,reúnem craques do mundo todo e,em 2026,convocaram um notável elenco de participantes que se movem numa espécie de “entrelugar” (para citar um conceito do crítico literário Silviano Santiago lembrado à reportagem pela escritora Paloma Vidal).

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Silviano formulou a ideia de entrelugar,ainda nos anos 1970,no esforço de explicar a América Latina,uma cultura cindida entre seu pertencimento à tradição europeia e a tradições não europeias e que,ao mesmo tempo,não é nem uma coisa nem outra,mas,sim,mistura e indeterminação. É uma situação análoga à de muitos jogadores da Copa e autores da Flip,que,por razões que vão das guerras à imigração e a escolhas pessoais,transitam entre diferentes culturas e territórios. No último torneio da Fifa,258 jogadores não eram nascidos nos países cuja camisa defenderam — das 48 seleções convocadas,apenas oito (entre elas,a brasileira) contavam apenas com atletas natos.

Em Paraty,cerca de um terço dos 38 autores esperados até domingo não vivem mais nos países onde nasceram e transformaram seus deslocamentos e a condição de estrangeiros permanentes em matéria-prima literária. É o caso de nomes como o argelino Kamel Daoud,que escreveu o romance “Língua interior” para elaborar o trauma da guerra civil que devastou seu país na década de 1990 e precisou se exilar na França (explorar as “feridas da tragédia nacional” é proibido por lei na Argélia); Eduardo Halfon,guatemalteco descendente de judeus poloneses que cresceu em Miami,mas voltou ao espanhol quando se pôs a escrever ficção e hoje vive em Berlim; e Ève Guerra,que aos 9 anos escapou da guerra civil no Congo e também mora na França.

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Outras estrelas da festa são filhos da imigração,como a nipo-americana Katie Kitamura e Zadie Smith,britânica de mãe jamaicana que trabalha a herança colonial em suas obras. Curadora da 24ª Flip,a crítica literária Rita Palmeira conta que,inicialmente,não pensava no deslocamento como um “tema” da festa,só tinha o desejo de convidar autores que admirava. No fim,a programação acabou produzindo “um panorama do estado atual da República Mundial das Letras”,afirma.

— O trânsito de escritores é mais comum do que a gente imagina. O mercado editorial está atento à movimentação dos autores e,de uns 20 anos para cá,tem se interessado mais por histórias de lugares menos “centrais”,fora da Europa. Esse fenômeno nos coloca uma velha questão: como determinar de onde é uma pessoa e qual é a relação entre a sua identidade e o lugar de onde ela vem? — diz a curadora.

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O deslocamento e a busca da própria identidade são os mooingores de “Antes do início” (Tinta-da-China),livro de estreia do paraibano Ernesto Mané,que sobe ao palco da Flip no domingo,às 10h. O pai dele (que também se chamava Ernesto Mané) veio de Guiné-Bissau,ex-colônia portuguesa na África Ocidental,para estudar economia no Brasil,onde conheceu a mãe do escritor. Acabou deixando a mulher,e os filhos cresceram quase sem contato com ele. A família da mãe levava crédito por todas as virtudes do menino Ernesto. “Os defeitos vinham do meu pai e da ‘racinha’”,escreve ele.

Depois do doutorado em Física no Canadá,Mané decidiu ir atrás de suas origens. Em dezembro de 2010,embarcou para a Guiné-Bissau atrás de seu “t = 0”,isto é,o tempo antes do tempo,aquele a partir do qual os físicos consideram que se pode começar a contar a evolução do Universo. Lá,Mané descobriu que,apesar da cor de sua pele,não era considerado negro,pois vinha da “tera branku” (terra dos brancos,em crioulo guineense). Durante a jornada,anotou tudo o que pôde e os diários da viagem constituem o grosso do livro,no qual ele interpreta o deslocamento do pai (e de outros parentes que também deixaram o país africano) à luz do legado do colonialismo.

— A história colonial e pós-colonial desterrou várias pessoas da minha família. Por meio da literatura,tento mapear as posições dessas pessoas,suas idas e vindas. E tento me entender no meio dessa história,dar um sentido a tudo isso. É meio caótico,mas a vida não é linear. A gente tenta criar uma narrativa a partir da nossa história,né? — diz o escritor,que é diplomata alocado em Buenos Aires e descreve a obtenção da cidadania guineense como o “apogeu” de sua jornada.

A escritora Paloma Vidal vive no Brasil desde os 2 anos,mas seus documentos dizem que ela é argentina. Filha de exilados da ditadura do país vizinho,ela sabe que a burocracia não dá conta de abarcar sua “condição”,que é difícil de nomear e serve de combustível a uma ficção povoada de personagens que não estão mais na terra onde nasceram. Embora sempre tenha escrito em português,Paloma adotou o espanhol em seu último romance,“O lado de lá” (Bazar do Tempo),a ser lançado na Flip. Sua intenção era mirar um olhar estrangeiro sobre o Brasil,em especial sobre a face que se tornou mais visível a partir de 2013.

— O meu espanhol é o da oralidade. Sempre achei e continuo achando que tenho menos recursos em espanhol. Mas essa falta de recursos acabou sendo fundamental para escrever esse livro. Eu não queria encher o romance de explicações,mas sim ficar no não dito,apostar numa linguagem mais minimalista e até repetitiva — diz a escritora de 51 anos,que mora no Rio e se apresenta na Flip no sábado,às 10h.

Lançado primeiro no Chile,na Argentina e na Espanha,“O lado de lá” narra o contato de uma menina uruguaia com uma família de brasileiros ricos em Punta del Este. Ela é sobrinha da empregada da casa com piscina onde eles passam o verão. Para a menina,o Brasil era um paraíso ensolarado das revistas e das novelas — até que a violência social que é constitutiva do país irrompe naquela casa.

— A perspectiva do estrangeiro é muito útil para o escritor. É por isso que tantos de nós escrevemos sobre os lugares que deixamos e olhamos para trás como se fôssemos pássaros atravessando o céu — diz a escritora ucraniano-canadense Maria Reva,que participa da Flip amanhã,às 12h.

Reva tem 37 anos,deixou a Ucrânia há três décadas e vive em Vancouver. “Extinção”,seu festejado romance recém-lançado pela DBA,era,uma trama cômica sobre o estereótipo da “ucraniana submissa” difundido no Ocidente. A protagonista,Yeva,é uma cientista que percorre o país resgatando caracóis ameaçados de extinção,mas se vê envolvida numa trama rocambolesca: sequestrar americanos que viajam para a Ucrânia em busca de esposas para protestar contra a objetificação das mulheres. Quando a Rússia invadiu seu país natal,Reva precisou reformular o projeto: colocou a guerra — e a si mesma — na história. Ao GLOBO,a escritora descreveu sua identidade como “híbrida”.

Para Rita Palmeira,a curadora da festa,o olhar “de fora” de seus autores deslocados produz uma literatura que dá novo fôlego aos debates contemporâneos,desvia do senso comum e,acima de tudo,“nos faz sair do lugar”.

— Do ponto de vista curatorial,não me interessa uma literatura que conforta,mas sim uma literatura que perturba,que nos desestabiliza e faz dizer “nunca tinha pensando por esse lado”. Não quero ler um livro que vai me contar o que eu já sei.

Com sorte,é o espectador da Flip quem pode acabar num “entrelugar”,esse estado de indeterminação que desloca o pensamento.

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