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Rio tem R$ 71,8 bilhões em contratos e recursos públicos sob investigação por corrupção

No rastro do dinheiro público — Foto: Editoria de arte

RESUMO

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GERADO EM: 12/07/2026 - 23:02

Corrupção no RJ: Investigações Revelam Fraudes de R$ 71,8 Bi

O Rio de Janeiro enfrenta investigações sobre R$ 71,8 bilhões em contratos e recursos públicos suspeitos de corrupção,valor suficiente para implementar 15 projetos de mobilidade,como a Linha 3 do metrô. Diversas operações,como Sem Refino e Unha e Carne,apontam fraudes envolvendo políticos e empresários. O montante investigado supera metade do orçamento estadual de 2026,destacando a complexidade do setor público e a dificuldade da população em compreender a aplicação desses recursos.

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Anáfora,Zargun,Unha e Carne,Ouroboros… Esses são nomes de apenas algumas das 22 operações realizadas no estado do Rio entre 9 de junho de 2025 e 9 de julho de 2026. Levantamento feito pelo GLOBO mostra que as investigações apuram R$ 71,8 bilhões em contratos e recursos públicos sob suspeita de irregularidades em esquemas de corrupção. O montante é suficiente — e com sobra — para executar os 15 projetos prioritários de mobilidade da Região Metropolitana do Rio,estimados em R$ 68 bilhões pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e pelo Ministério das Cidades. Entre eles está uma promessa de décadas: a Linha 3 do metrô,que ligaria a capital a Niterói e São Gonçalo por um trecho sob a Baía de Guanabara. Ao longo dessas operações,a Justiça também bloqueou R$ 122 milhões em bens e valores.

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A cifra bilionária também choca ao ser comparada com as despesas estimadas do estado para 2026 (R$ 126,7 bilhões). Representa mais da metade do que,pela lei orçamentária,pode ser gasto com pagamento de todos os servidores,custeio,obras e compras de equipamentos. Além disso,o montante sob suspeita daria para quitar quatro vezes o déficit previsto no orçamento do ano (R$ 18,93 bilhões).

As investigações foram conduzidas pela Polícia Federal,pelo Ministério Público do Rio,pela Polícia Civil,pelo Ministério Público Federal,pela Controladoria-Geral da União e pelo Tribunal de Contas do Estado. Os alvos incluem políticos,ex-gestores públicos,servidores estaduais e municipais,policiais civis,empresários,organizações sociais da saúde e instituições públicas.

Operações rastreiam desvio de recursos públicos — Foto: Editoria de arte

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Sem refino

O maior valor sob apuração aparece na Operação Sem Refino,da PF,que analisa fraudes envolvendo cerca de R$ 50 bilhões e tem como alvos o ex-governador Cláudio Castro (PL) e o empresário Ricardo Magro,dono do grupo Refit.

Na sequência,aparece a sexta fase da Operação Unha e Carne,que apura um esquema estimado em R$ 7,6 bilhões de lavagem de dinheiro em postos de combustíveis da Região Metropolitana e tem como alvos o ex-prefeito de Belford Roxo Márcio Canella (União) e o ex-secretário de Polícia Civil Marcos Amim. Também de grande impacto financeiro está uma fiscalização do TCE-RJ,que apontou irregularidades em aplicações de R$ 6,5 bilhões do governo do estado em empresas privadas.

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Também estão na lista a primeira fase da Compliance,que investiga suspeitas de fraudes de R$ 3 bilhões no Rioprevidência; a Operação Antracito,que apura contratos da organização social Prima Qualitá Saúde com recursos do SUS,estimados em R$ 1,6 bilhão; e a quarta fase da Operação Unha e Carne,que teve como alvo o deputado afastado e preso Thiago Rangel (Avante) em um esquema de R$ 1 bilhão envolvendo verbas da Secretaria estadual de Educação (Seeduc).

Em 3 de dezembro de 2025,o então presidente da Alerj,Rodrigo Bacellar (União),foi preso ao chegar à sede da PF. Em seu carro oficial,os agentes encontraram R$ 90 mil em espécie. Ele era investigado por suspeita de vazar informações sigilosas da Operação Zargun,que levou à prisão do então deputado TH Jóias,suspeito de ligação com o Comando Vermelho

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A professora de Ciência Política da UFRJ e coordenadora do LAPPCOM,Mayra Goulart,afirma que é preciso diferenciar a troca legítima de apoio político do uso da máquina pública para favorecer grupos no poder.

— É natural que o eleitor recompense com o voto um político cujas políticas públicas melhoraram sua vida. O problema surge quando a máquina pública deixa de servir ao cidadão e passa a fortalecer um projeto político. Isso caracteriza aparelhamento do Estado.

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Já o antropólogo Roberto DaMatta explica que a complexidade do setor público dificulta que a população entenda os caminhos que o dinheiro do governo percorre:

— As pessoas têm dificuldade de entender que esse dinheiro (71,8 bilhões) é público. O sistema é muito complexo. Por isso,os cidadãos não entendem onde o dinheiro está sendo aplicado.

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Outras operações atingiram diferentes áreas da administração estadual. A Barco de Papel apura irregularidades na relação entre o Rioprevidência e o Banco Master,em um montante de R$ 970 milhões. Já a Anáfora investiga a participação do ex-governador Cláudio Castro (PL) e do ex-prefeito Washington Reis (MDB) em um esquema estimado em R$ 563 milhões de desvio de recursos da Saúde e lavagem de dinheiro para uma organização criminosa — valor suficiente para custear mais de quatro vezes as obras de saneamento no Complexo da Maré,orçadas em R$ 120 milhões.

A lista inclui ainda a Operação Ouroboros,do MPRJ,que apura suspeitas de irregularidades em contratos do Instituto Rio Metrópole (IRM),com prejuízo estimado em R$ 86 milhões. A investigação foi deflagrada após auditorias determinadas pelo governador em exercício,Ricardo Couto; a Apócrifo,da PF e da Polícia Civil,sobre fraudes de R$ 15 milhões em alvarás judiciais; a terceira fase da Operação Fake Agents,em que ex-funcionários da Caixa Econômica Federal são acusados de desvio de R$ 7 milhões; e a Capgras,que apura fraudes de R$ 22 milhões em pensões da UFRJ.

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O levantamento também reúne operações contra servidores da Secretaria estadual de Fazenda,com fraudes de R$ 311 milhões; a Oásis,sobre golpes estimados em R$ 110 milhões; a Pague a Conta,que apura prejuízo de R$ 1 milhão em uma lotérica; a terceira fase da Operação Anomalia,contra policiais civis; e uma investigação da Polícia Civil sobre uma vereadora do Rio envolvendo R$ 1,7 milhão.

Procurados,o ex-governador Cláudio Castro,a defesa do ex-presidente da Alerj Rodrigo Bacellar e o ex-secretário Washington Reis negaram irregularidades. Castro afirmou que não favoreceu a Refit nem recebeu vantagem indevida na Operação Sem Refino e que,na Anáfora,as citações a seu nome dizem respeito a fatos atribuídos a terceiros. A defesa de Bacellar negou obstrução de investigações e qualquer relação do parlamentar com os fatos. Washington Reis afirmou que nunca foi condenado por ato ilícito e que a acusação se refere à doação de um tanque-rede para um projeto da Prefeitura de Caxias. A Refit não se manifestou.

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