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Quando é preciso expor a virtude antirracista

Vini Jr é premiado pelo combate ao racismo nos campos e fora deles — Foto: Alexandre Cassiano

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GERADO EM: 25/06/2026 - 21:55

"Esquerda branca nos EUA valoriza minorias mais que seu grupo,diz estudo"

Pesquisas nos EUA revelam que brancos de esquerda avaliam minorias mais calorosamente que seu próprio grupo. Esse viés,associado à "espiral da pureza",sugere que ser branco é visto como moralmente problemático,levando à valorização pública da virtude antirracista. Isso cria um ambiente competitivo de pureza moral,onde progressistas buscam demonstrar maior compromisso com normas antirracistas,resultando em uma política isolada e cada vez mais radical.

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Pesquisas nos Estados Unidos têm mostrado um fato curioso. Nos últimos anos,brancos de esquerda passaram a avaliar negros e outros grupos minoritários de forma mais calorosa do que as próprias pessoas brancas,numa espécie de inversão da conhecida tendência psicossocial de favorecer o próprio grupo.

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O dado surge de um instrumento usado em pesquisas de opinião conhecido como “termômetro de sentimento”. Quem responde à pesquisa é provocado a dizer quão “caloroso” ou “frio” se sente em relação a um grupo-alvo — a metáfora térmica captura a dimensão afetiva,mostrando quanto se gosta ou desgosta do grupo. O instrumento é tradicionalmente usado para medir favoritismo. O viés é calculado pela diferença entre a nota que se dá ao próprio grupo e a nota dada a outro grupo.

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Esse termômetro tem sido aplicado pela pesquisa eleitoral americana desde 1964 para medir quanto os eleitores gostam de candidatos,partidos e grupos sociais. A partir de 2016,um dado muito excêntrico começou a aparecer. Entre americanos de esquerda (liberais),o favoritismo passa a ser invertido,com brancos atribuindo mais calor a negros e minorias que aos próprios brancos.

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Não é que os brancos de esquerda tenham passado a avaliar mal o próprio grupo,mas passaram a avaliar melhor negros e outras minorias,chegando a diferenças bem significativas (13 pontos a mais em 2018). Quem tem identidade liberal mais forte,tem ainda mais viés favorecendo minorias (mais de 20 pontos).

Esse viés contra o próprio grupo abriu uma discussão interessante. Alguns cientistas sociais o atribuíram a uma espécie de desidentificação dos brancos de esquerda com seu próprio grupo racial,fruto do avanço da consciência antirracista despertada pela primeira eleição de Donald Trump.

Outros têm apontado como o viés invertido pode estar na gênese do fenômeno conhecido como “espiral da pureza”. Os proponentes dessa tese o leem como valoração negativa da própria condição racial. Nessa interpretação,ser branco passa a ser percebido como moralmente problemático e,portanto,uma condição de que é preciso escapar por meio da exteriorização da convicção política.

Se a branquitude é uma condição moralmente estigmatizada dentro do progressismo,então o branco progressista enfrenta um dilema: como não pode deixar de ser branco,precisa demonstrar que é o tipo certo de branco — consciente,aliado,antirracista. A saída para escapar da condição moralmente condenada é a sinalização pública de sua virtude antirracista.

Isso produz um contexto competitivo de pureza moral,em que os progressistas disputam para demonstrar seu compromisso com um conjunto de normas morais,resultando na intensificação crescente dessas normas. Cada indivíduo compete para demonstrar maior resolução e compromisso,e o efeito acumulado é uma escalada do rigor moral.

A ênfase em denunciar expressões potencialmente racistas,apontar comportamentos racistas involuntários,denunciar apropriação cultural e impor cancelamentos a quem demonstra dúvida ou divergência é,por essa visão,consequência da necessidade dos indivíduos de se diferenciar como integrantes moralmente puros dentro do grupo branco estigmatizado pelo progressismo.

O alicerçamento da tese da espiral de pureza no viés negativo dos termômetros de sentimento é um pouco frágil,e a ligação entre uma coisa e outra é ainda bastante especulativa. Em todo caso,o mecanismo descrito explica bem o isolamento do progressismo. A competição por pureza gera práticas e códigos morais cada vez mais detalhados e radicais,descolados do repertório moral de pessoas comuns. O resultado é uma política voltada para dentro,que mede status pela adesão a normas esotéricas que a maioria da população nem sequer reconhece — e que,por isso,fala com cada vez menos gente.

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