BELEZA May 26, 2026 IDOPRESS

Os donos do crime: TCP levou guerra do tráfico aos céus do Rio com uso de drones para vigiar criminosos rivais e a polícia

Os traficantes Peixão e Lacoste — Foto: Editoria de Arte O GLOBO

Em maio de 2017,viralizou nas redes sociais uma foto do traficante Álvaro Malaquias Santa Rosa,o Peixão,pilotando um drone do alto de uma laje na Cidade Alta,na Zona Norte do Rio. Fundador do Complexo de Israel,subfacção do Terceiro Comando Puro (TCP),foi ele quem introduziu aeronaves não tripuladas para demarcar territórios e vigiar quadrilhas rivais,além da polícia.

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Outro chefe do TCP,Walace Trindade de Brito,o Lacoste,do Morro da Serrinha,em Madureira,adotou a mesma tática. Eles são os personagens desta segunda reportagem da série “Os donos do crime”,dedicada a mostrar quem são os criminosos que aterrorizam o Rio à frente da violência do tráfico,das milícias,dos bandos de matadores de aluguel e do jogo do bicho.

Peixão e Lacoste,perfilados em vídeo no site e nas redes sociais do GLOBO,estão à frente do processo que levou para os céus a guerra do Rio. Os dois integram um grupo criminoso que investe em tecnologia para se fortalecer e não sucumbir ao avanço do maior rival — o Comando Vermelho (CV),que foi flagrado recentemente usando drones de carga capazes de carregar até 80 quilos. No TCP,segunda maior facção do estado,os chefes se vangloriam em redes sociais do pioneirismo no uso de equipamentos modernos de guerra.

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No trecho de uma conversa de Peixão com um fornecedor de drones,o traficante demonstra entusiasmo ao comentar a tecnologia das aeronaves não tripuladas. O diálogo foi extraído do celular de Everson Vieira Francesquet,em 2023,após o alvo ser preso pela Polícia Federal. “Esse trabalho agora é um trabalho novo que comunidade nenhuma tem,ninguém faz isso novinho! Qual favela que vai fazer isso? A gente é o primeiro!”.

Por dentro do TCP

Surgido em território fluminense,o TCP segue os passos do CV ao se expandir para outros estados. A diferença é que ainda não tem uma cúpula consolidada,o que faz com que cada comunidade funcione de maneira autônoma.

Os únicos da facção no estado incluídos na lista de procurados do Ministério da Justiça são Peixão,o rosto mais conhecido do TCP,e Lacoste. O complexo de Peixão é formado por um conjunto de cinco favelas na Zona Norte dominado por um exército armado com fuzis e drones. Ele se declara evangélico e acumula denúncias de intolerância religiosa,com relatos de destruição de terreiros e de proibição do uso de roupas brancas em seus domínios. Seu nome passou a ser citado no debate sobre a classificação de facções como organizações terroristas depois de ser apontado como mandante de um ataque a tiros que deixou três mortos na Avenida Brasil,em outubro de 2024 — o episódio teve repercussão internacional.

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Lacoste comanda território menor,na Serrinha,e trava disputas sangrentas para manter sua influência. Tentou replicar o modelo de Peixão e anexar comunidades vizinhas,mas o plano fracassou — até hoje a região enfrenta confrontos com o CV. Também usa drones para monitorar a polícia e mantém uma casa de luxo com saída secreta para a mata. Com 89 anotações criminais e nove mandados de prisão em aberto,integra um conselho criado nos moldes do que existe no CV,na tentativa de superar a desvantagem estratégica do TCP pela falta de comunicação centralizada.

Os donos do crime: Peixão comanda o Complexo de Israel com perfil violento

Nove anos depois daquela foto de 2017,os drones se tornaram uma das maiores preocupações das forças policiais. A vigilância feita com esses equipamentos,somada à atuação de informantes,permitiu que Peixão escapasse em mais de uma ocasião. Mais recentemente,outro desafio se impôs: o uso de drones para transportar bombas e armas de grosso calibre. Já há registro de criminosos lançando bombas por meio de aeronaves não tripuladas — o que ocorreu,segundo a Polícia Civil,na megaoperação de 28 de outubro do ano passado,nos complexos da Penha e do Alemão,em que 122 pessoas morreram,entre elas cinco agentes.

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Secretário de Segurança Pública,Victor César dos Santos pondera que antidrones trariam riscos à população — abatido,o equipamento cairia em áreas densamente povoadas. Em sua opinião,a solução seriam “drones caçadores”,que rastreiam e capturam o equipamento inimigo. Fabrício Oliveira,coordenador da Core,defende,no entanto,que as polícias precisam ter antidrones para casos excepcionais.

Para o professor do Departamento de Sociologia da UFF Daniel Hirata,o cenário lembra a entrada dos fuzis no Rio,no fim da década de 1980.

— A chegada dos fuzis mudou o patamar dos confrontos no Rio. Com os drones,a tendência é a mesma: se o crime organizado passa a usá-los,as polícias vão querer usar antidrones. É fundamental agir agora para impedir essa escalada — afirma o pesquisador,que defende uma resposta dupla: aquisição imediata de antidrones combinada a medidas estruturais: marco legal,fiscalização e investigação da cadeia de fornecimento.

Os donos do crime: Lacoste,do TCP,usa tecnologia para monitorar a polícia

Peixão absolvido

A dificuldade de responsabilizar quem está por trás dessa rede ficou evidente em decisão judicial recente. No dia 6 deste mês,a juíza federal substituta Caroline Vieira Figueiredo,da 7ª Vara Federal Criminal do Rio,condenou Everson Vieira Francesquet a seis anos e cinco meses de reclusão por integrar o TCP. A mesma sentença absolveu Peixão,apontado pelo Ministério Público Federal (MPF) como chefe da facção,por insuficiência de provas. Ele era acusado de contrabando pela suposta importação de um bloqueador de sinal para abater drones da polícia.

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Francesquet foi preso em flagrante em julho de 2024 em uma agência dos Correios em Nova Iguaçu,na Baixada Fluminense,ao retirar encomenda vinda da China: um “fuzil antidrone”,dispositivo capaz de impedir a comunicação entre drones e seus operadores,cuja importação é proibida no Brasil. A análise do celular dele revelou diálogos atribuídos a Peixão,que pedia drones com capacidade de lançar bombas,fuzis,pistolas e chips estrangeiros. “Vamos comprar o drone e o localizador de drone,e a tua bazuca (fuzil antidrone) quando chegar também”,escreveu o chefe do TCP em uma das mensagens. Em outra,comemora ter acertado duas pessoas com bombas lançadas por aeronaves não tripuladas.

Peixão — Foto: Editoria Arte

Para a juíza,embora seja “muito provável” que Peixão fosse o destinatário do equipamento,não há prova de que ele tenha financiado aquela importação específica. Cabe recurso ao Tribunal Regional Federal da 2ª Região. Procurados,os advogados não foram encontrados.

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